PESQUISAS ELEITORAIS E A ESPIRAL SILENCIOSA

By jose caldas

Minha inspiração para esta abordagem vem da expressão, que ouvi pela primeira vez esta semana, pronunciada por uma jovem jornalista de 23 anos, a Fernanda, oriunda dos cursos superiores de formação e que está trabalhando na mesma equipe que eu: espiral silenciosa.

É um conceito teórico que freqüenta as turmas acadêmicas de Comunicação Social, que eu nunca freqüentei. Vou tentar explicar o conceito de espiral silenciosa ao final dessa abordagem, se eu conseguir conclui-la.

 

O ano era 1988. Eleições municipais. Eu não tinha a menor experiência com pesquisas de mercado, mas sempre gostei de política e, modestamente, fui um bom observador, desde que participei de minhas primeiras campanhas aos 12 anos de idade, ao lado de minha mãe, em Alegre. Bem, hoje tenho 48 anos.

 

Naquela época, eu me divertia bastante com as festas cívicas dos candidatos e era uma das trações da campanha do Dr. Oscar de Almeida Gama. Criei minha própria forma de marketing político: eu fazia quadras de versos em cada distrito ligando o nome dos candidatos a vereador da região com o do candidato a prefeito. Foi minha primeira experiência com a matéria.

 

Voltando ao ano de 1988. Pesquisa eleitoral era coisa de Ibope, Gallup e, quando muito, Vox Populi. Era considerada uma coisa muito cara e só acessível aos grandes centros. Nos municípios do interior, então, o que imperava era a experiência dos caciques locais.

 

Meu amigo pessoal, Enivaldo dos Anjos estava cumprindo seu primeiro mandato de deputado estadual e entrara na disputa de prefeito em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, enfrentando as máquinas públicas municipal e estadual, então comandada pelo governador Max Mauro.

 

Um dia, Enivaldo ligou-me perguntando se eu tinha alguém, que fizesse pesquisa eleitoral, e que pudesse indicar-lhe. Minha resposta foi pronta: “Está falando com o próprio. É minha especialidade”. Na verdade, toda minha especialidade limitava-se à atenta observação de uma matéria bem didática que um repórter do Jornal Nacional, da Globo, havia feito para explicar como o Ibope segmentava seu público-alvo. Assim, tentava conferir credibilidade às pesquisas apresentadas pela emissora.

 

Como o Enivaldo precisava da pesquisa, tratei de me “especializar” de verdade. Ele quase não tinha dinheiro para pagar pelo serviço, mas qualquer coisa servia para que eu, de fato, pudesse ter minha primeira experiência. Contanto que eu, como sempre, tivesse total responsabilidade sobre a qualidade de meus serviços. Afinal, serviria como referência para o que faria depois, como está servindo, agora, para eu contar essa história.

 

A primeira coisa que fiz foi pedir a ele que me enviasse a relação de todas as seções eleitorais do município, bem como suas localidades e a densidade eleitoral de cada uma. Ou seja, a quantidade de eleitores de cada lugar desses. Em seguida, pesquisei no IBGE o perfil sócio-econômico do município, para buscar uma representação proporcional na coleta de dados. Quero lembrar que, àquelas alturas, eu havia começado dois cursos superiores na área de humanas e estudos teológicos e não terminara nenhum dos dois. Posteriormente, tentei Psicologia, Direito, cursei parte de Letras e formei-me, 15 anos depois, em Geografia.

 

De posse dessas referências populacionais e eleitorais, precisava ter uma equipe de pesquisa de campo. Lembro-me bem de minha primeira equipe: eu, como coordenador e, eventualmente, também participando da coleta de dados, minha mulher, o Beto, que era entregador de jornais, o Robinho e o Agnaldo, dois jovens da minha igreja. Elaborei os questionários, defini o total de entrevistas em 1% da população e não do eleitorado, portanto, na época, 420 questionários, e reuni a equipe para passar as instruções.

 

No feriado de Finados, duas semanas antes do pleito, fomos a campo. Choveu uma grandeza naquele dia. Mas eu tinha uma Brasília de dois carburadores que era uma maravilha e percorremos 400 quilômetros por todo o município de Barra de São Francisco para coletar os dados e concluir a pesquisa.

 

Utilizei um critério abominado, já, pelos pesquisadores profissionais: em vez de locais de fluxo de pessoas, pesquisávamos em domicílios, excluindo aqueles que tinham alguma indicação de preferência. Se houvesse um cartaz de um candidato, não pesquisávamos. Queríamos saber os votos não declarados.

 

A técnica era simples: eu sabia, de antemão, o perfil sócio-econômico, etário e de gênero sexual de cada região. Então, as entrevistas tinham que representar as proporcionalidades. Dividíamos os quatro pesquisadores. Quando chegávamos á localidade seguinte, enquanto eles faziam as coletas de campo, eu ficava dentro do carro tabulando as informações da coleta anterior, manualmente. De tal forma que quando terminamos as 420 entrevistas, ao final de um dia extenuante de 12 horas de trabalhos forçados, precisei de apenas mais uma hora para concluir todo o trabalho de leitura das informações de campo.

 

Encontrei-me com o cliente, no caso o Enivaldo, e passei-lhe minhas impressões: a vantagem dele sobre o adversário era de apenas 3%. E ainda “alertei”, em tom professoral: “Você tem contra si a prefeitura e o governo. Sua vantagem está na margem de erro (sinceramente, eu não tenho a menor idéia, até hoje, de como é calculada essa tal margem de erro) e, se você não trabalhar firme, vai perder a eleição”. E descansei.

 

No dia seguinte, quem não descansou foi a equipe política dele. O Enivaldo, inteligentemente e confiando em sua fonte, mudou toda a estratégia e atacou as regiões onde estava mais fraco.

 

Quinze dias depois, na noite do dia da eleição, eu estava muito curioso. Liguei para a casa dele e, do outro lado, ouvi uma frase dura: “Essa pesquisa sua é uma desgraça”. Meu coração quase parou. Como todo ser humano normal, naquele momento eu negativei. Pensei comigo: “Nossa, ele deve ter perdido de forma humilhante”. Mas a sentença seguinte me tranqüilizou: “Ganhamos por 300 votos”. Ou seja, uma vantagem de apenas 1,5% sobre seu adversário, considerando o colégio eleitoral.

 

Pronto: eu provara que era, mesmo, um grande especialista em pesquisas. A partir daí, fiz várias pesquisas e não errei uma. Sempre com a mesma equipe, treinada em qualidade na coleta das informações, e seguindo o mesmo critério, abominado pelos institutos profissionais, de pesquisar em domicílio.

 

Cheguei ao ponto de, em municípios onde as eleições eram muito tensas, os meus pesquisadores portarem uma “urna secreta”, onde eram depositados os formulários preenchidos, em sigilo, pelos entrevistados. Tudo coisa de minha cabeça, para dar aos clientes o resultado mais fiel que eu pudesse.

 

Depois, com o crescimento dos institutos profissionais, e com a mudança de foco de minhas atividades profissionais, deixei as pesquisas eleitorais de lado, mas continuo convencido de que minha metodologia continua infalível: conhecer, na intimidade dos domicílios, a intenção sigilosa do voto.

 

Arrepio-me quando vejo a produção de pesquisas por escala de hoje em dia, para ganhar dinheiro por quatro anos. São, facilmente, manipuláveis, por má fé dos pesquisadores e/ou de seus patrões ou mesmo pelos próprios candidatos, que costumam ter equipes nas ruas identificando onde estão sendo feitas as coletas de dados por fluxo populacional e direcionam para a região seus cabos eleitorais para que possam ser entrevistados, sem que os ingênuos pesquisadores saibam disso.

 

É aí que entra a tal espiral silenciosa da qual a Fernanda me falou. Significa o seguinte, salvo melhor juízo: a grande maioria dos eleitores fica em silêncio em relação ao seu voto. Mas há um sentimento de querer participar de algo vencedor. Portanto, a tal espiral circula em direção ao centro convergente onde estão aqueles preferidos na pesquisa. Ou seja, resumindo: o eleitor silencioso é aspirado em direção aos líderes nas pesquisas.

 

Daí que pesquisas manipuladas fazem um grande mal à democracia. Porém, correm o risco, também, de serem desmoralizadas no dia das eleições. Neste caso, entretanto, contam com a curta memória de nosso povo. Como disse um amigo esta semana, arrancando-me uma gargalhada: memória de sapo. Numa próxima ocasião, se quiserem, posso explicar o que é memória de sapo. Mas é só observar um, caçando seus mosquitos, para terem uma idéia do que seja essa metáfora.

 

José Caldas da Costa – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

 

Vila Velha – ES, 30 de agosto de 2008

4 Respostas para “PESQUISAS ELEITORAIS E A ESPIRAL SILENCIOSA”

  1. carla osorio Disse:

    Taí gostei do artigo. Parabéns pela indicação ao premio Jabuti!!!

  2. Celso Lungaretti Disse:

    Meu prezado companheiro de batente e de ideais,

    sua fórmula é interessante. Mas, só consigo mesmo é sentir imenso desânimo em relação a essa democracia manipulada de nossa época, em que eleições se decidem por fatores ínfimos, pueris.

    Para mim, estão totalmente confirmados os piores augúrios de Marcuse: não existe mais a perspectiva de se revolucionar o sistema atuando dentro do sistema.

    Tornou-se um mostrengo intrinsecamente totalitário (mesmo quando opera só pela persuasão, sem o uso da força), impermeável à crítica e à mudança.

    Daí a retomada do anarquismo por parte da Geração 68. Foi o ápice do movimento revolucionário nas últimas décadas. E será o ponto-de-partida para a retomada dos ideais de construção de uma sociedade com liberdade e justiça social.

    Os outros modelos estão totalmente falidos.

    Um forte abraço!

  3. Fernanda Castro Disse:

    meu querido!!! que honra para mim entrar no seu blog e saber que, de alguma forma, eu, do alto da minha inexperiência, pude ajudar a inspirá-lo na escrita de uma de suas postagens… tem sido para mim uma ótima experiência poder trabalhar contigo.
    Você deve saber muito bem, certas (muitas) coisas não se aprende numa sala de faculdade…
    Grande abraço Caldinhas!

  4. Zaka Disse:

    Fale-nos da memória do sapo, grande guru!

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