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ÁFRICA: RICA DE PETRÓLEO E POBRE AO MESMO TEMPO

14 de abril de 2010

Zakeu A. Zengo

São 53 nações pobres, algumas muito miseráveis, a maioria das quais devastadas por décadas de conflitos armados que as tornam ainda mais indigestas. Todas compõem um mosaico ambiental cheio de sinuosidades, uma fotografia inusitada e chocante nalgumas nuances do seu colorido. É o continente africano.

Algumas apresentam até uma surpreendente “imergência”, traduzida em crescimento econômico vertiginoso, avanço tortuoso em processos de democratização e uma certa e corajosa inserção internacional. A economia da quase totalidade das nações nesta situação é movida, obviamente, a petróleo bruto. Exemplos?

Angola, Nigéria e Guiné Equatorial comandam a corrida para a internacionalização – por causa do petróleo, o PIB per capita da Guiné Equatorial é equivalente ao da Itália ou Espanha, entretanto 90% da riqueza nacional é detida por apenas 5% da população, três em cada quatro pessoas (75%) dos pouco mais de 630 mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza e grande parte da população vive sem electricidade e sem acesso à água potável.

Há 10 anos a Guiné Bissau elege seus políticos para liderar o país, mas não passa de uma republiqueta faroeste, dominada por uma “elite” tribalizalizada e militarista especializada em frustrar os sonhos das novas gerações do país.

O requinte com que uma horda de jovens combatentes fiéis a barões de armas e de tráfico de drogas esquartejaram o próprio (pasme-se!) presidente dessa “República” em 2009, só faltando devorar-lhe as vísceras, é arrepiante e funda um espectro sombrio que mistura a seriedade da cultura democrática e as “falácias democráticas” dos chefes do ouro e do petróleo que governam como deuses a milhões de africanos.

Para piorar esta fotografia da África subsaariana, por causa dos contrastes ultrajantes e humilhantes que o petróleo, o ouro e os diamantes têm vindo a erigir nalgumas nações, foi retomado com requintes de entusiasmo insano, justamente pela juventude que devia estar a lutar para ir à Universidade e melhorar suas condições de vida, o caminho do retorno às feitiçarias do tribalismo selvagem e retrógrado como forma mais rápida de aceder ao luxo, aos carrões e aos prazeres que os filhos da elite e seus serventes políticos exibem ridiculamente e sem escrúpulos nas avenidas esburacadas das cidades empoeiradas e insalubres do meu continente.

Na Uganda, apenas para citar poucos exemplos, o número de pessoas mortas em rituais de feitiçaria para se alcançar riqueza em 2009, só dos registados oficialmente pelas autoridades locais, foi de 15 crianças e 14 adultos, quando em 2007 se registaram apenas três casos. A maior parte das vítimas é emasculada, esquartejada ou esfolada e suas partes utilizadas em “batismos” de preparação para a ascensão social.

O Departamento de Estado norte-americano revelou recentemente, num relatório tornado público, que gastou em 2009 meio milhão de dólares para treinar dois mil homens do corpo policial daquele país a investigar este tipo de crimes.

Na África do Sul, Gabão e Tanzânia os rituais humanos são tratados pelos curandeiros como um caminho “divino” para a bênção, tal como ensina a experiência bíblica de Abraão, que levou ao sacrifício o próprio filho Isaque para depois obter o título de “o abençoado”.

Mesmo nos países mais ocidentalizados como Angola, surpreende a forma como os contrastes sócio-econômicos agudizados pela paz que até agora trouxe prosperidade e riqueza apenas para os filhos do poder e seus prepostos, vão arrastando sua juventude para esse buraco negro que está na causa do atraso do continente.

No último ano, quando a imprensa local decidiu dar uma certa ênfase à cultura do crime nas comunidades, a população se viu surpreendida pela imensa quantidade de casos de mortes que ocorre diariamente, ligada à busca desenfreada por riqueza pela via de rituais de feitiçaria que requerem sacrifícios humanos para serem efetivos.

No lugar da conversão à cultura da educação e do trabalho como caminho para a riqueza, a maneira com que os africanos foram habituados nos últimos anos a ver os filhos do poder e seus serventes a enriquecer descaradamente de dia para a noite, leva-os a radicalizar nas estratégias dessa escalada rendendo-se ao apelo de bruxos e encantadores que se dizem portadores do poder e da “sabedoria africana”.

Zakeu Zengo é doutor em Antropologia e reitor da Universidade Metropolitana de Angola. Residiu no Brasil por 20 anos.

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6 Comentários leave one →
  1. Sergio dos Santos Ribeiro permalink
    18 de abril de 2010 11:46

    O continente africano é um exemplo de religiosidade distorcida e manipulada a favor de poucos, onde milhões de pessoas estão presas a cultura de crenças absurdas, transmitidas à gerações, condenando-as a miséria profunda e suas consequências. Essas crenças os impede de acreditar que somente a busca do conhecimento, a educação e muito trabalho proporciona ao homem possibilidade de um futuro melhor, fazendo-os acreditar que isto depende unicamente de providências das “divindades” por eles reverenciadas. Aos governos na sua maioria corruptos esta situação é conveniente. “POVO IGNORANTE NÃO LUTA PELOS SEUS DIREITOS”.

  2. 1 de junho de 2010 14:48

    legaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. raquel permalink
    22 de junho de 2010 21:16

    Nossa muito bom

  4. Elizabeth permalink
    3 de setembro de 2010 6:20

    Ok, para mudar teremos muito que fazer, “Africa é rica em petróleo e pobre ao mesmo tempo”, porque o nosso berço da humanidade tem pecima gestão das riquesas.

  5. Ana permalink
    25 de outubro de 2010 20:19

    Texto excelente. Extremamente elucidativo quanto à herança colonial, à colonização da África vista por um prisma cultural.

  6. 11 de junho de 2010 22:53

    muito legal,nunca li um texto tam interessante

    continue sendo essa pessoa que integra o nosso cotidiano ao estudo

    (fffffffffffffffaaaaaaaaaaaaaaallllllllllllllllllllllllllllllllooooooooooooooooooooouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu)

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