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DITADURA MILITAR E RESISTÊNCIA: HÁ 45 ANOS, CAÍA A GUERRILHA DO CAPARAÓ

2 de abril de 2012

José Caldas da Costa(*)

Há 51 anos, o mundo ocidental foi sacudido pela Revolução Cubana. Jovens se inspiraram em toda a América Latina, enquanto confrontavam valores tradicionais e viam no modelo dos cubanos um exemplo a ser seguido para “libertar a Latino-América do imperialismo americano”.
Eram os tempos da Guerra Fria, estabelecida entre Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os dois impérios que se ergueram sobre os escombros da nefasta Segunda Grande Guerra Mundial. Tempos de sonhos, arbítrios, ideais, frustrações, devaneios, violência institucional, opressão econômica e cultural, maniqueísmos, manipulações da opinião pública.
O Brasil não estava imune a isso. Há 48 anos, correntes nacionalistas que haviam caminhado lado a lado por três décadas, rompem-se: de um lado, os nacional-progressistas, identificados com o bloco soviético; do outro, os nacional-desenvolvimentistas, identificados com o bloco americano. Nunca se viu tanta convulsão social, tantas incertezas, quanto no decênio de 60.
Nas terras tupiniquins, venceram os que detinham o maior poderio econômico. Nada de novo no País das capitanias hereditárias, também presentes no controle político e econômico do território e da Nação no período republicano.
O golpe militar se consolidou no dia 1º de abril. Na tarde de 31 de março, o general Mourão Filho, contrariando a toda a lógica do movimento que se articulava com as bênçãos do governador Magalhães Pinto, da conservadora Minas Gerais, colocou suas tropas na estrada em Juiz de Fora para tomar o poder, ocupando o Palácio da Guanabara, sede do governo do Rio, para simbolizar a ascensão do grupo. Dali para tomar o Palácio do Planalto era uma questão de comando.
No início, as tropas rebeldes eram, infinitamente, inferiores às tropas legalistas, mas vejam o que é a questão da liderança: o presidente João Goulart hesitou em ordenar o ataque aos rebeldes, enquanto negociava, ingenuamente, com seu compadre Amauri Kruel, general, dissimulado adepto da quartelada. E, diante das incertezas, do confronto à adesão foi uma questão de um pulo para a outra margem do rio Paraibuna, onde as tropas de Mourão estavam retidas pelo Exército constitucionalista.
“As primeiras vítimas do regime foram os sargentos, inimigos dos generais”, resume o hoje capitão Amadeu Felipe da Luz Ferreira, na época um praça que participava da organização social Movimento dos Sargentos. E, assim, ele resume também o que se seguiu ao golpe e que o Brasil, diferentemente de outras nações, teima em deixar embaixo do tapete. Talvez a maior evidência do que me disse Amadeu na entrevista para o livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” seja o “suicídio” do sargento Manoel Alves de Oliveira num hospital militar na sequência do golpe.
Nunca antes na história deste País o golpe foi lembrado em meio a tanta tensão quanto neste 2012. Tudo por conta da resistência de segmentos ligados a militares infratores dos mais elementares direitos humanos, reconhecidos no mundo inteiro, ao conhecimento da verdade sobre os atos por eles cometidos. Note-se: não se quer julgar as Forças Armadas, mas membros seus que tiveram desvio de conduta sabe-lá-Deus movidos por quais interesses – não vale a dissimulação da propaganda oficial da época.
Há 45 anos, aqui na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, caía o primeiro bem articulado grupo de resistência ao golpe militar de três anos antes. Madrugada de 1º de abril, o remanescente do grupo que se instalara na Serra do Caparaó, no que ficou conhecido como Guerrilha do Caparaó, foi preso pela Polícia Militar de Minas Gerais e, depois, entregue ao Exército.
Eram oito, e todos (menos um), militares expulsos em 1964 por estarem envolvidos com as organizações sociais nas três forças. À frente deles, Amadeu Felipe, já mencionado aqui. Estavam lá, no último dia, além de Amadeu, os militares expurgados Araken Vaz Galvão, Edval Mello, Jorge Silva, Amarantho Rodrigues, Avelino Capitan e João Jerônimo da Silva e o civil Milton Castro. Quatro dias antes, em Espera Feliz, foram presos Jelcy Rodrigues e Josué Cerejo, os primeiros a caírem.
Menos de um mês depois, como primeira vítima do regime após o endurecimento pela posse de Costa e Silva (o primeiro golpe dentro do golpe), morria na prisão, em Juiz de Fora, sob tortura, o operário Milton Castro.
O que se seguiu a Caparaó foi uma onda de ações da resistência ao regime cada vez mais duro, contrariando o discurso da derrubada de João Goulart (talvez porque o maior defensor da devolução do poder aos civis, Castelo Branco, tivesse morrido num acidente aéreo mal explicado no Ceará logo depois de ser derrotado pelos militares duros). Começou com Caparaó e terminou com a Guerrilha do Araguaia, que teve mais tempo de se articular e, por isso, deu mais trabalho – até para as forças da repressão massacrarem guerrilheiros e civis “nada a ver” na região de Xambioá.
Hoje, muita gente que posa de democrata na política capixaba, só chegou onde chegou porque aderiu à ditadura militar que dominou o Brasil por 20 anos e mutilou o surgimento de novas lideranças políticas.

José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia pela UFES, escritor, autor de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” (Boitempo, SP), ganhador do Prêmio Vladimir Herzog 2007 – Melhor Livro Reportagem

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