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Sobre os homens, rios e terra

22 de junho de 2008

Ainda não posso esquecer minha primeira viagem ao longo do vale do Rio Doce, no sentido longitudinal, do Espírito Santo para Minas Gerais. De trem, da companhia que renunciou a ter o rio em seu nome, talvez porque ele já não exista mesmo. Era como se acompanhasse a agonia de um velho a caminho de sua sepultura, o mar.

Rio que, ironicamente, morria quanto mais próximo estivesse de nascer. Suas águas envenenadas no vale do aço, que sustentou a ideologia do Brasil gigante, enquanto brasileiros eram apequenados nos porões. Seus peixes e navios a vapor são apenas lembranças de quem o viu há quase cem anos.

Volto ao velho Doce, na cidade que eterniza o nome dos aimorés que um dia habitavam as serras que bloqueavam as minas gerais brasileiras do litoral visado por corsários, deles separadas por uma nesga de terra com o santo espírito das matas, hoje devastadas. Vejo o quanto o homem pode fazer, pelo bem e pelo mal.

Naquela primeira viagem, de trem, entristecia-me ao ver que as pedras afloravam sobre as águas na região onde o rio recebia os leitos do Manhuaçu e do Guandu. Dessa vez assombrei-me ao ver que, agora, só há pedras onde antes havia um rio. Passa por ali um filete de água do Manhuaçu, que já não encontra o Doce na mesma esquina esculpida pela natureza, mas muito além, pelas bandas do Guandu.

Mas o que houve com o outrora grande rio? Está além daquelas montanhas, avisa-me a moradora. Desviado que foi para a construção de uma barragem, que sepultou histórias ao inundar uma cidade inteira, mas produz energia para sustentar o progresso da nova economia. Que se dane a história, que viva o capital que a tudo e a todos compra. Sim, porque agora a viagem para as terras da antiga margem esquerda do rio se faz com menos tempo e sacrifício, graças à grande ponte que a hidrelétrica construiu para adoçar a boca da gente. Sim, e sobre a linha por onde serpenteiam vagões de gente e de minério também passam dois modernos viadutos, reduzindo distâncias entre um lado e outro.

É sobre uma dessas obras que passo a caminho de ver o outro lado da vida. Pouco adiante, onde antes só nascia vassoura, como me revela o amigo ali nascido, agora erguem-se árvores majestosas, jardins floridos, corre uma brisa amena, passeiam namorados, fotografam-se nubentes, os pássaros voam, cantam e se banham alegres, animais silvestres se reproduzem, árvores nativas crescem, rebrotadas ou replantadas.

É um canteiro, um Éden sonhado por um homem que um dia foi menino naquelas bandas, que viu sua desertificação, saiu para ganhar o mundo, viajou todos os continentes, viu o movimento de todas as gentes, conheceu o fausto e o opróbrio dos povos, eternizou momentos em suas câmaras de lentes mágicas como seus olhos azuis, que viram além das aparências e enxergaram o enorme potencial de transformação em cada rosto e os projetou como sementes em sua terra.

Do nome salgado fez doce a terra em torno do rio, que segue amargo sua trajetória até ser engolido pelo mar gigante.     

 

 

José Caldas da Costa – jornalista, geógrafo, escritor

 

Aimorés (MG), em junho de 2008

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One Comment leave one →
  1. 30 de agosto de 2008 21:14

    todos quantos tentam ou escrevem e transmitem um sentimento único que é o amor aos seus ricos é deveras prestigiante e contagiante.
    meu contacto Terras rio e mar

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