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Reencontros

2 de julho de 2008

Reencontro um velho amigo. Vejo que está com boa aparência, embora em dificuldades financeiras, o que não é novidade. Faz algum tempo que deixou a cidade, muito rapidamente, para tentar a vida no interior, nem tão interior assim, do Estado de São Paulo.

Engenheiro, com bons projetos de modernização do modus vivendi doméstico, havia perdido o norte, como a maioria dessa geração que chega aos quarenta. Uma geração impulsionada por novos hábitos de consumo, pela sociedade do prazer imediato. Uma geração que, academicamente, bem formada, dedicou-se à produção no modelo ensinado nas escolas em busca da realização, que nunca vem.

O amigo tinha lá suas convicções religiosas, que eu esquivava-me de discutir em respeito ao seu legítimo direito da livre crença, mas tinha um sério vício: sexo. Seus negócios, quaisquer deles, prosperavam no início e, depois, decaiam porque ele acabava se envolvendo com pessoas que deveriam ser suas clientes apenas no campo comercial.

Travei com ele relacionamento ao ser chamado para conter sua fúria quando chegou a uma reunião de que eu participava. Contatado à distância, por alguém que não conhecia, quando procurava, desesperadamente, uma representação comercial, chegou à reunião desavisado do que se tratava. Ficou nervoso. Minha mulher, com seu jeito paciente e amoroso, havia contido a fera, mas precisava de um homem. E eu fui chamado.

Cheguei sorrindo e estendendo-lhe a mão, minha atitude padrão mesmo antes de conhecer os novos negócios atuais. Ele rendeu-se e, já que estava ali, resolveu entrar para ficar meia hora. Foi ficando o restante do dia, voltou no domingo e acabou ficando de vez. Negócio novo, gente bonita, descontraída, talvez o campo fértil para alimentar seu vício. Mas nada daria certo para ele sem corrigir a posição da vela. Aquele amigo ainda haveria de bater muito a cabeça.

Depois de algum tempo de altos e baixos perto de nós, resolveu ficar mais perto da pessoa que o convidou para o negócio e partiu, deixando para trás algumas pendências pessoais, mas também lembranças boas aos que se relacionaram com ele.

O tempo passou, tivemos algumas informações dele mesmo na nova cidade, bem longe, e depois fomos perdendo o contato. Das boas coisas que ouvi, algumas novas convicções sobre o valor da vida. O reencontrei um dia num evento em São Paulo, mas ele parecia inquieto e só ficou um dia, talvez algumas horas, como havia planejado ao comparecer àquela reunião de sábado, obeso, endividado, apavorado e viciado em sexo.

Hoje, o reencontro. E ele abre a alma. Conta-me o que eu já sabia, de suas novas convicções existenciais, mas também conta-me o que eu não sabia e que ouço com particular interesse. Seu vício em sexo, no prazer imediato, e as facilidades de uma cidade gigante o conduziram a outro vício: cocaína e crack.

Os relatos são de impressionar; como é tênue a linha que separa dois caminhos completamente distintos. Mas ele tranqüiliza-me: escapou, como que por milagre, das drogas e entendeu que precisava reconstruir seu mundo interior, se quisesse ser, verdadeiramente, livre. E se abstém do vício do sexo, segundo diz, há pelo menos três anos. Procuro acreditar. O reencontro é encerrado sem resposta conclusiva para a pergunta que ele mesmo faz: como pessoas inteligentes podem se entregar às drogas?

Talvez, caro amigo, porque o intelecto não basta. Minha atenção é desviada para o noticiário da televisão. Um grupo aterrorizara, com assaltos e morte, uma cidade do interior. Na seqüência, mais desgraça. No pano de fundo, os vícios da era moderna: dinheiro, drogas e sexo. Prefiro falar de reencontros.

 

José Caldas da Costa – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

 

Vila Velha, ES, 2 de julho de 2008

 

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