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Águias nasceram para voar (reflexões sobre a condição humana)

6 de julho de 2008

Quando meus filhos eram bem pequenos, eu costumava adormecê-los contando histórias. Preferencialmente, de Rubem Alves. Uma delas tratava de uma família de patos selvagens, cujo pai começou a treinar os filhos para o dia em que deveriam voar para o Norte, fugindo do inverno que se aproximava.

Mas um dos patinhos selvagens não atentava para o que ensinava o pai. Preferia ficar olhando as flores, os pássaros. Passava uma borboleta esvoaçante e ele saía atrás, distraidamente.

O inverno chega e, com ele, o dia de voar. O pai reúne os filhos e começa a dar os comandos. Primeiro, bater as asas. E aquele patinho ali, com os irmãos, batendo asas junto. Asas pesadas. Hora de alçar vôo. Todos conseguem, seguindo o pai, menos aquele patinho, que faz uma, duas, três tentativas infrutíferas.

Quando o bando começa a ganhar altura, o pai olha para trás para conferir o vôo do grupo. E vê, lá embaixo, aquele patinho distraído, que não aprendeu a voar, com um olhar triste. O pai leva a família a uma altura suficiente para que tome o rumo Norte, dá uma volta e retorna para ajudar o filho que falta.

Durante vários dias do inverno, o pai-pato selvagem sai cedo, voa longe, busca comida e traz para o filho. Um dia ele voa e não volta mais. Chegam uns caçadores, capturam o patinho selvagem que não aprendeu a voar e colocam-no em um cercado, junto com outros patos domésticos. Ali ele vive uma vida confortável. Comida, proteção, abrigo, muita companhia. E fica um pato gordo, vistoso, penas brilhantes.

Chega o verão seguinte. O tempo passa e o inverno está de novo se aproximando. Um dia, o pato selvagem, agora domesticado, olha para o céu e vê passar um bando de patos, selvagens como ele, voando em direção ao Norte.

Seu coração pulsa forte, sua alma desperta e ele sente uma vontade louca de voar também. Ensaia o bater de asas, mas nem isso consegue. Já não tem nenhuma força nas asas. E bate-lhe uma saudade enorme da liberdade.

Seres humanos são muito parecidos com esse pato selvagem, que não aprendeu a voar. Um dia todo seu sonho de liberdade se resumirá apenas a saudades. E a infelicidade será sua companheira eterna.

Outra analogia interessante da condição humana é a da águia e a galinha. A partir da experiência do educador popular ganês James Aggrey, o teólogo brasileiro Leonardo Boff nos traz essa história usada para despertar a consciência daquele povo africano do complexo de inferioridade imposto pelos colonizadores ingleses.

Águias nasceram para ser águias, com alma de águias, mas, se forem colocadas junto com galinhas desde muito novas, se adaptarão à idéia de que são galinhas. Viverão nas planícies, nos cercados, ciscando para trás, olhando para o chão, sem ousar vôos sequer além dos limites de seus galinheiros. Acabarão na panela de alguma família, servidas com macarrão, enquanto passam os programas de TV num domingo qualquer.

No dia em que uma águia educada como galinha é conduzida ao pico de uma montanha – porque as águias nasceram para as maiores alturas, fazem seus ninhos nos picos – e pode olhar para o sol, e sentir a liberdade de voar, seu espírito desperta e ela abre suas enormes e fortes asas, e voa em direção ao espaço criado para sua liberdade.

De lá, pode contemplar toda a beleza da criação, e olha para o chão apenas para, a quase dois quilômetros de distância, divisar uma presa e partir em direção a ela com a velocidade de um foguete.

O ser humano, feito à imagem e semelhança de seu Criador, nasceu como águia, com uma força indomável na alma, para reinar soberano sobre a criação e dela cuidar. Para viver em liberdade, com asas fortes para voar nos mais altos lugares da criação. Conquistar espaços.

Não é sem propósito que o profeta hebreu Isaías (cap. 40, vers. 31) afirma: “Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fadigam”.

Não sois galinhas. Águias é o que sois.

 

José Caldas da Costa, jornalista, escritor, licenciado em Geografia

Este é um artigo publicado pela primeira vez em 2001, quase que como uma profissão de fé no novo destino que o autor resolvera traçar para sua própria vida.

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One Comment leave one →
  1. Clério Junior permalink
    13 de julho de 2008 8:20

    Grande amigo José Caldas.
    É sempre um prazer ler o que voce pensa.
    Abração e que Deus continue te abençoando.

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