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Bola prá fora

9 de julho de 2008

Como milhares, talvez milhões de crianças pelo Brasil afora, notadamente nas periferias das grandes cidades ou nas vilas do interior, Iago só via uma chance de ascensão: jogar futebol. Assim, entrou para a escolinha do bairro e, depois, na primeira de muitas seleções feitas por olheiros, foi para outro centro de formação de jogadores de base, especializado em lapidar diamantes e transformá-los em atletas brilhantes.

Foram muitos anos de persistência, muitos “rocks” perdidos com os amigos da rua onde morava, em nome do sonho de um dia ser descoberto por um olheiro, jogar numa grande equipe, quem sabe despertar o interesse de um clube europeu, falar a linguagem internacional da bola, em qualquer país onde pudessem lhe pagar um milionário salário.

Daí, encontrar uma loura, comprar o carro importado da última moda, morar numa daquelas mansões de filme, dar uma casa para a mãe, um sítio para o pai, um carro para o irmão, pagar o curso de moda para a irmã, presentear a tia com o salão de beleza, dar uma viagem num cruzeiro para a avó, levar o melhor amigo para um mês junto com ele. Enfim, virar celebridade e, quando visitasse o Brasil, ser descoberto pelas emissoras de televisão, dar muitas entrevistas, andar pelas ruas do bairro cercado da molecada fazendo graça para as câmaras.

O sonho parecia estar a caminho de se realizar. Iago estava por completar 18 anos quando, numa competição reunindo em campo várias equipes interestaduais e nas arquibancadas dezenas de observadores ávidos por ganharem algum dinheiro com a descoberta de algum jovem talento, recebeu o convite para jogar num clube da Bahia, meio caminho para ser descoberto e chegar ao eixo Rio-São Paulo.

Iago não podia se conter de felicidade. A mãe, lavadeira, trabalhava noite e dia para ajudar o marido no sustento da casa e manter limpos e perfumados os uniformes do filho atleta. Quando soube da novidade, um misto de alegria e preocupação lhe invadiu o coração. O menino iria sair de casa e morar longe. Como seria tratado? Quem cuidaria dele? Ninguém o faria com o mesmo zelo que ela.

Àquelas alturas, Iago já pensava em fazer um supletivo para concluir o segundo grau. A rotina de treinos e jogos no seu último clube atrapalhara seu progresso na escola. Mas não havia problema, ele sabia jogar bola.  

No dia da viagem para a Bahia, sorrisos e choros na despedida. Talvez a realização do sonho compensasse as lágrimas. Iago foi morar na concentração, dedicava-se como poucos e logo estava relacionado entre os reservas num jogo do time profissional. É uma maneira de os meninos com talento ganharem maturidade. No meio do segundo tempo, o técnico manda Iago aquecer. É sua primeira grande chance.

Alguns minutos depois, é chamado pelo técnico: “Iago, você pode entrar agora no time”. Ele responde de pronto: “Estou aqui para isso, professor”. Mas ele não havia entendido: “Sim, Iago, jogar ou não está em suas mãos”. Ele repetiu: “Sim, professor, estou pronto”. Mas há uma condição: “Hoje à noite a gente vai fazer um programa”. Ele não entendeu: “Como assim, professor?”. “É isso. Você vai entrar, se hoje à noite fizer um programa comigo”. O mundo girou: “Professor, estou pronto para entrar e jogar, mas não tem programa nenhum”. “Então, volta para o banco”.

O torcedor já estava inquieto para saber quem era aquele mulatinho que o técnico havia colocado no aquecimento. E continuou sem saber. No jogo seguinte, Iago estava relacionado de novo. Aos 15 minutos do segundo tempo, a história se repete. Aquecimento, questionamento, afirmação, cantada, rejeição, banco.

Iago estava arrasado. Ligou para a mãe chorando. Queria voltar. O preço do sucesso, naquela base, era impagável para ele. Voltou triste, pensando em quanta frustração causaria a todos. Voltaria a ser um comum. Não haveria televisão, nem comissão de recepção no aeroporto. Nada. Somente a velha realidade de volta. Passado algum tempo, jogando nos finais de semana aqui e ali em troca de 200 reais como “boleiro”, Iago começou a gastar o dinheiro com bebidas e farras. Não tinha mais nenhuma ambição. Roubaram seu sonho.

Há tantos iagos, joões, josés, mários, maurícios, pedros, paulos, que vêem seus sonhos se perderem na falta de escrúpulo no país do futebol.

 

José Caldas da Costa – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

 

Vila Velha, ES, 05 de julho de 2008

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