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A cocheira

10 de julho de 2008

Não tenho a menor dificuldade em acreditar que o nome de Alegre deriva-se da cachorrinha que pertencia ao dono do rancho originário do primeiro aldeamento por essas bandas, como eternizou o saudoso professor Manoel Pedro Ferraz em suas crônicas.

Aliás, acho muito original e costumo dizer aos amigos que vou fazendo por onde passo, nesse Brasil afora, que nossa cadelinha tem em nossa história a mesma importância da Baleia de Vidas Secas, a grande obra literária do mestre Graciliano Ramos. Que importância têm os nomes do pai, da mãe ou dos filhos da família de retirantes que compõe a saga narrada no livro de Ramos? Mas da cachorra Baleia ninguém se esquece.

Eu mesmo esqueci o nome da maioria das pessoas que passaram pela minha infância, mas jamais me esqueci do Tupi, um cachorro magro e mal humorado, que ficou doido e morreu babando lá na roça, onde morávamos, perto do pontilhão da linha de trem da Maria Fumaça, a caminho de Jerusalém. E muito menos do Leão, este sim, meu amigo.

O Leão sobreviveu à mudança da roça para a cidade em 1967, mesma época em que vi passarem as tropas da repressão à Guerrilha do Caparaó. Leão era o nome do nosso cachorro, que me dava muita segurança e veio morrer muitos anos depois, envenenado por um vizinho de coração duro na Rua dos Espanhóis. Bem, não me recordo o nome do filho de uma cadela que me deixou uma marca na coxa direita até os dias atuais. Prefiro esquecê-lo, embora não o possa da mordida que ele me deu.

Meus filhos cresceram ouvindo a história da cachorrinha Alegre. Quando eles eram pequenos e eu visitava minha mãe, que até hoje ainda mora na cidade, eu os levava ao parque de exposição e de lá, apontando para a cachoeira que despenca do rio Alegre, contava-lhes a história da cachorrinha que emprestou o nome à cidade. E até hoje eles se lembram disso.

E, para quem tem memória curta, ou não viveu esse tempo, quero lembrar que até o final dos anos 60 havia uma cocheira nas proximidades de onde é, atualmente, a oficina do Nilo Carvalho, logo na subida, saindo para Cachoeiro.

Lembranças dos tempos em que, inversamente proporcional a hoje, 80% da população de Alegre morava na roça e utilizava a montaria como transporte, em vez de muitos cavalos no motor, muitas vezes dirigidos por um burro ao volante.

 

    José Caldas da Costa, alegrense, jornalista, licenciado em Geografia e escritor (autor de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”)

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