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E agora, José?

16 de julho de 2008

Há algum tempo ouvi de um amigo sobre uma pessoa que, de tempos em tempos, voltava à cidade onde nascemos para, anônima, caminhar pelas antigas ruas de pedra, sentar-se nos bancos das praças, sentir a brisa que corre entre as árvores centenárias do jardim mais antigo e observar as palmeiras imperiais que ali resistem ao tempo e às intempéries.

Já não era a sua habitação, mas continuaria, até o fim de seus dias, o seu lugar. Ao pisar o mesmo chão e respirar o mesmo ar da infância, voltava, como que num passe de mágica, aos tempos da inocência. O coração se acalmava e a alma experimentava uma indescritível suavidade. Ninguém mais a conhecia. Ela fazia questão de chegar num dos ônibus que passam pela cidade e retirar-se do mesmo modo.

Ao regressar ao lugar de sua morada peregrina, sentia-se revigorado. Ao estar no lugar de sua infância e, por que não, de seu espírito, sentia-se como o navio errante que um dia volta ao porto de onde partiu. Todos sabemos o lugar onde nascemos, mas não podemos imaginar onde morreremos. Parecemos pré-destinados à peregrinação terrena, como a cumprir o desígnio de possuir a Terra. A rigor, nosso corpo é a única casa que, efetivamente, habitaremos por todos os nossos dias terrenos.

Sinto o mesmo desejo, de vez em quando, da personagem da história que me foi contada. Desejo de pisar aquele chão de pedras, percorrer ruas ainda empoeiradas, sentir os olhos arderem pela presença, indesejável, mas constante, das “lacerdinhas” que caem das árvores do jardim velho. Tínhamos, quando crianças, o cuidado de evitar roupas verdes para não atrair aqueles insetos incômodos. Como faz bem respirar o ar puro do meu lugar!

Vejo, com as facilidades que a tecnologia nos proporciona, as notícias da inauguração do teatro, com pompas e circunstâncias. Quando soube que, finalmente, ficara pronto, tive no coração enorme desejo de participar da festa, mas sabia que era coisa para cabeças laureadas e eu não fora lembrado. Pouco importa. O teatro é um sonho meu também e está lá, bonito e imponente.

No último ano antes de deixar minha cidade, participei de um belíssimo espetáculo, o mais “profissional” desde meus tempos de teatro amador na infância. Sempre gostei da representação. Era um texto entrecortado de poemas de Carlos Drummond de Andrade e sua apresentação, ensaiada exaustivamente ao longo de pelo menos noventa dias, ocorreria no encerramento de uma semana cultural da Faculdade de Filosofia. O palco era de um antigo cinema, desativado. Ao final, fomos aplaudidos em pé. Momento glorioso.

Posso ainda me recordar de um dos textos que eu falava para o pobre Fernando, “bêbado” e cabisbaixo. “E agora, José? Se você morresse… mas você não morre. Você é duro, José”. Agradeço ao meu primeiro mestre, Evandro Moreira, por ter me descoberto no balcão do armazém do Lula. Ele, Evandro, também estava na aplaudida apresentação, o que me enche de orgulho.

José Caldas da Costa, jornalista, licenciado em Geografia, escritor

Vitória, ES, 15 de julho de 2008 

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