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Uma história de vencedor

24 de julho de 2008

 

Gosto de histórias de gente. Paro sempre para ouvir tantas quantas queiram me contar. Principalmente de gente que se supera, que não se deixa limitar pelas circunstâncias externas, mas que cria suas próprias circunstâncias para vencer os seus limites.

Gosto de programas de entrevista. Por isso sempre gostei de ver o Jô. Mas acho que em alguns momentos ele se torna chato porque é limitado pela rede que o cerca. Também, ando dormindo cedo e a televisão, muitas vezes, é desligada por um dos meus filhos, que dormem tarde. Assim, tenho que ouvir as entrevistas através deles.

Quero compartilhar uma que me contou minha filha, que está de férias e ficou vendo o Jô até bem tarde. É a história de um cantor popular, o Elimar Santos, que se especializou em fazer sucesso cantando músicas dos outros.

Pelo que pude apreender, a história dele é mais ou menos assim. Nascido no Complexo do Alemão, região do Rio de Janeiro que, tristemente, ganhou notoriedade muito mais por causa dos bandidos que a dominam do que pela maioria de gente boa que ali habita, Elimar desceu o morro para conquistar o asfalto e, muito mais que isso, fazer fama.

O que mais me chama a atenção, e serve de exemplo, é como ele mesmo construiu seu próprio momento. Cantando na noite, Elimar ousou sonhar. Queria se apresentar no Canecão, a casa de shows mais cobiçada e concorrida da cidade ainda maravilhosa, mesmo que sitiada, como definiu Zuenir Ventura. 

Procurou, pessoalmente, a casa e foi sendo empurrado de funcionário a funcionário, aquela coisa que o brasileiro conhece bem, as famosas barrigadas. Mas acabou na frente do próprio dono, quando conheceu as regras: 50% da renda é da casa, 30% de um empresário e 20% do artista. Mas com um detalhe: esta é a regra para artistas consagrados, cujo sucesso de bilheteria seria garantido.Como ele era um ilustre desconhecido, teria que alugar o Canecão se quisesse se apresentar.

Elimar não se intimidou. Pediu o orçamento. Alguma coisa que, em valores de hoje, equivaleria a R$ 200 mil. Ele mesmo teria que vender os ingressos, mas, como garantia, tinha que pagar antes e pegava o dinheiro de volta no dia do espetáculo. Ele não fazia a menor idéia de como conseguiria esse dinheiro. A proposta foi para que ele não fechasse, mas ele aceitou. Saiu de lá, entrou no primeiro boteco e tomou um porre. Por absoluto desespero.

Mas Elimar não se intimidava. Mandou fazer os ingressos e trabalhou como nunca. Em todos os shows noturnos, pelos bares e cabarés da vida, vendia os ingressos. Surpresa: vendeu todos. Não havia mais ingressos para vender, mas ele tinha a sensação de que as pessoas compravam os ingressos com pena dele e que não iriam ao show. E ele não queria se apresentar de casa vazia.

Resolveu por mais um lance de ousadia. Procurou uma agência de publicidade e disse que queria promover o show na TV Globo, a de maior audiência e de veiculação mais cara. Uma nova fortuna teria que ser desembolsada, mas com um detalhe: ele poderia pagar em 60 dias. Resolveu correr o risco. O show foi maciçamente divulgado.  Como costumo dizer, é calça de veludo ou bunda de fora.

No dia da apresentação, a grande surpresa: não apenas as pessoas que compraram os ingressos resolveram prestigiá-lo, mas uma multidão resolveu conferir quem era aquele maluco que estava sendo anunciado na Globo. A casa estava lotada, pelo lados de dentro e de fora.

Mas a história ainda não acabou: ao final da apresentação, aplaudidíssimo, Elimar foi chamado de volta ao palco pelo próprio dono do Canecão, que, entre odes à sua ousadia, lhe ofereceu o fim de semana seguinte “por conta da casa”, que agora assumiria os riscos. Ele pediu para pensar e no dia seguinte voltou para dizer “não”. Essa segunda ousadia, baseada na percepção de Elimar de que quando a esmola é demais, o santo desconfia, deixou malucos os donos da casa.

Resumo da ópera: na verdade, a casa estava sendo oferecida para um novo show porque uma artista de grande sucesso havia cancelado sua apresentação por questões particulares e o Canecão não podia ficar fechado. Por ter coragem e medo na dose e na hora certas, Elimar Santos acabou conquistando algo que nem imaginava: quinze dias no Canecão.

E o rapaz ousado, que um dia desceu o morro para brilhar no asfalto, saltou, definitivamente, o fosso do medo para subir a montanha do sucesso. Como todos os que ousam mudar quando a realidade lhes é mais incômoda.

 

José Caldas da Costa – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

 

Vitória, ES, 24 de julho de 2008

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One Comment leave one →
  1. Jéssica permalink
    10 de dezembro de 2008 12:27

    Tenho 18 anos, estou começando a batalhar para conseguir alguma coisa da vida, E me incentiva muito ler histórias como essa, é bonito ver o quanto existem pessoas com força de vontade. Gostei bastante dessa história e achei mais bonito ainda você quere dividir ela com as pessoas, pois seria muito cômodo para você deixar isso entre você e quem assistiu ao programa, parabéns por esse gesto! Grande beijo, fiquem com Deus!

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