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Velhas lições sempre atuais

27 de julho de 2008

O programa dominical da televisão veio discutindo o velho drama da relação entre pais e filhos. A educação de filhos, sempre desafiadora para os pais e mães de todas as idades, nada mais é do que uma docilização de corpos a determinados modelos sociais criados ao longo das culturas.

Ver a temática discutida na noite de domingo fez-me pensar um pouco sobre os modelos que reproduzimos. Lembrei-me, por exemplo, de Araken Galvão, que entrevistei para o livro sobre a Guerrilha do Caparaó e ficou meu amigo, apesar da diferença de idade.

Guardei com zelo os depoimentos de Araken com duras observações sobre jovens que colocam fogo em índios e justificam-se dizendo ter pensado que eram mendigos, ou que agridem empregadas domésticas confundindo-as com prostitutas. É uma sociedade pronta para o facismo, observa meu veterano amigo.

Remeto-me à infância cheia de privações num canto de rua em Alegre, no Sul do Espírito Santo. Brincávamos com o que tínhamos e vivíamos um tempo em que nas escolas convivíamos, lado a lado, na mesma sala, o filho da lavadeira e o do juiz de direito da cidade. Era um tempo em que os meninos da classe média dividiam conosco, os mais pobres, seus saborosos sanduíches de presunto e queijo, trazidos de casa.

É desse tempo uma de minhas lembranças mais fortes sobre educação. Um dia, brincando com amigos num pasto próximo à nossa casa, de onde soltávamos pipas nas férias escolares, encontrei um ninho de galinha. Apanhei os três ovos que lá estavam e levei para casa.

Quando entrei, já sonhando com a omelete, minha mãe foi logo perguntando onde havia arranjado aqueles ovos, já que ela sabia que eu não tinha dinheiro para comprar. Não adiantou dizer que achei no ninho no pasto e que não tinha dono. A galinha tem dono, volta e coloca no mesmo lugar, foi a ordem, prontamente obedecida, porque, se não cumprisse, as conseqüências seriam mais dolorosas.

A velha mangueira vermelha permanecia num lugar ao alcance das mãos dela e ninguém a tirava de lá. Já estava rachada de tanto ser usada, principalmente nos meus dois irmãos mais velhos. Em mim, foram poucas e suficientes vezes. Sinceramente, não tenho nenhum trauma por isso.

Guardo até hoje essas lições e as passo aos meus filhos. É preciso respeitar limites. Quando eles os ultrapassaram sentiram a mão pesada da lei doméstica antes que tivessem o caráter deformado de tal forma que a sociedade viesse a puni-los, como lamentavelmente temos visto aos montes, sem que se veja a redução dos problemas, pois os bons exemplos devem vir de casa, mas os lares estão esfacelados por valores, absolutamente, distantes dos verdadeiros valores humanos.

 

José Caldas da Costa – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

 

Vila Velha, ES, 27 de julho de 2008

 

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