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O JABUTI CAIU DA ÁRVORE

23 de setembro de 2008

Quando trabalhei por um jornal de Vitória no Norte do Espírito Santo, ouvi pela primeira vez uma expressão dos políticos da época: “Tem jabuti na árvore”. Significava a existência de algo inexplicável. Afinal, lugar de jabuti não é em árvore. Pois, agora, vos digo que o jabuti caiu da árvore. Vou explicar.

Aprendi nos últimos cinco anos que o importante não é o que acontece, mas como reagimos ao que acontece. Como faço todas as manhãs, antes de sair de casa dei uma olhada em meu correio eletrônico. Havia chegado uma mensagem de minha editora dando conta de que meu livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” havia conquistado o Prêmio Jabuti 2008 de melhor livro-reportagem.

Ora, é a maior premiação da literatura brasileira e entrei em alfa. No primeiro momento, fiquei estático. Depois, comecei a retransmitir a informação para todos os meus amigos e colegas de redação, no Espírito Santo e fora dele. Liguei para o Araken Vaz Galvão, um dos personagens da história e que ficou meu amigo. Quando dei a informação ainda fui obrigado a ouvir mais uma gozação dele, que jamais me perdoará por tê-lo deixado à beira da estrada no sertão de Sergipe, por falta de gasolina no nosso carro, erro de cálculo meu.

Minha família comemorava muito. Minha mulher e minha filha, principalmente. Uns dez minutos depois, as lágrimas rolaram-me pelo rosto, como aconteceu em vários momentos da manhã deste inesquecível dia da árvore, em 2008. Liguei para meu mentor, Zakeu, na África, e ele vibrou muito. Cláudio Tognolli cobrou-me por não ter-lhe enviado um livro. Vários amigos ligaram prometendo trazer o vinho para comemorar. Até o Dellorto “Tô Doido“ pirou de vez e espalhou a notícia entre nossos amigos de marketing multinível. Vocês não têm noção do que isso significa!!! É explosão da informação, imediatamente.

Vivi oito horas de glória, até que minha filha notou que havia algo de errado. A voz dela ao telefone indicava que estava apreensiva. Mandou que eu olhasse a página da premiação na rede de computadores. Caparaó não estava lá. Mantiveram a esperança quando ligaram para os organizadores e disseram que estavam, ainda, atualizando a informação. Mas a lista dos três premiados na categoria do nosso livro já estava postada.

Quando comuniquei o fato à editora, a Ivana Jickings entrou em pânico. Eu pensei, ao receber o correio eletrônico de manhã, que ela havia obtido alguma informação privilegiada. E ela, na verdade, confiou na interpretação de um funcionário, do que viu na página – na verdade, ele viu a relação anterior, da primeira fase, e ainda disse para a chefe que “Caparaó” havia conquistado a premiação.

O que se sucedeu a essa primeira informação truncada vocês podem imaginar. Pareceu aquela brincadeira do telefone sem fio, que as crianças fazem até hoje, e também é utilizada nos treinamentos de recursos humanos. Quando pedi à minha filha para mandar o comunicado retificador para os jornais, a colega responsável pela edição do caderno de cultura de um dos jornais entrou em pânico: já havia circulado com a informação errada. Portanto, perdoem à Alelvi e A Tribuna (ES). Eles não deram barrigada. Foi tudo um mal entendido.

Gente, vocês não imaginam o que significam oito horas recebendo mensagens e ligações telefônicas de amigos e admiradores anônimos. Como isso afeta, positivamente, a vida das pessoas ao seu redor. Olha, é uma experiência que merece ser vivida, não por oito horas, mas de forma definitiva. Quero registrar a emoção do José Luiz Gobbi, um grande ator capixaba, que telefonou chorando, emocionado. Portanto, vale a pena trabalhar mais e dedicar ainda mais atenção a um próximo trabalho para que, da próxima vez, não seja um rebate falso, mas uma informação consolidada, como ocorreu com o Prêmio Vladimir Herzog 2007.

Vocês não imaginam, também, o que significa ter que segurar a frustração das mulheres de minha vida, minha filha e a mãe dela, minha companheira de jornada de quase três décadas. E meus filhos!!! O Jessé gritou no meio da passeata que cobria com a câmara nas costas. O Júnior chegou a mandar-me uma mensagem com um verso de Jorge Aragão dizendo que era a minha música: “Quem foi que falou que não sou um moleque atrevido? Respeite quem pôde chegar aonde a gente chegou”.

Há coisas na vida que valem mais até quando sonhadas do que quando, efetivamente, concretizadas. Não vou dizer que não desejei muito o prêmio. Principalmente, quando o livro se classificou para a final. Mas os outros também desejaram e só há lugar para um campeão. Parabéns, Laurentino Gomes, Eric Nepomuceno, Carlos Dornelles. Estou chegando agora.

Olha, filho, vou te dizer uma coisa: sou, sim, um moleque atrevido e têm que respeitar aonde a gente chegou. Você tem razão. Quero pedir aos amigos, a todos os que torceram, e principalmente à minha família, que não se frustrem. Vamos comemorar como vencedores que somos. Vamos abrir o vinho, sim. O amor, a sinceridade, a amizade, a bondade, a alegria, a fraternidade, tudo isso venceu nesse dia. Vamos brindar.

Sabe, Ivana, obrigado pelo seu erro involuntário. Ele me fez ver que a gente precisa mesmo acreditar mais nos nossos sonhos. A gente precisa querer chegar lá.

Ouvi de um grande líder que frustração é igual a sucesso. Quanto mais frustrações, mais perto estamos de chegar lá. Ninguém chegou sem tentar, e se frustrar, várias vezes. Estou muito entusiasmado!!!!!!!!!!

José Caldas da Costa, jornalista, licenciado em Geografia e escritor, sim, senhor

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Nota da Boitempo Editorial sobre o Prêmio Jabuti

A Boitempo Editorial, por um equívoco, disse hoje (23/9) ao escritor José Caldas da Costa que sua obra Caparaó havia sido contemplada com o Prêmio Jabuti de melhor livro reportagem de 2008. Lamentamos o incidente e pedimos a compreensão daqueles que receberam e divulgaram essa informação incorreta.

Assessoria de imprensa

-- 
Boitempo Editorial
Ana Maria Straube
Assessoria de Imprensa
+ 55 11 3875 7285
+ 55 11 8445 2524
msn: imprensa.boitempo@hotmail.com
www.boitempoeditorial.com.br 

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2 Comentários leave one →
  1. Monica Loureiro Jorge permalink
    24 de setembro de 2008 17:57

    Com Jabuti ou sem Jabuti, voce continua escrevendo divinamente….Deus abençoe sua missão aqui na Terra !

    Monica Loureiro
    AUDIO VISUAL

  2. Rogerio permalink
    18 de dezembro de 2008 14:29

    Bem não conheço seu trabalho, achei seu blog pelo espetacular Google.
    Imagino como tenha sido sua alegria e quão bom foi seu dia. E infelizmente a notícia não foi confirmada. As vezes isso pode desanimar, mas porque não utilizá-la como motor de arranque para um novo desafio? Conquistar! Se não o foi realmente, ao menos serviu para lhe mostrar que o reconhecimento é o melhor premio. E todos que lhe contactaram não foi pelo premio para sim pelo premiado. Se ligaram é porque acreditaram que seria possível, ou seja, você é capaz e tem grandes amigos!
    Bom trabalho, boa sorte e parabéns pela coragem de partilhar um revés que poucos teriam a humildade de publicar!
    Abraços

    Rogério, São Paulo/SP

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