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NÃO CAPINEM MINHA RUA

9 de outubro de 2008

Sei que não tenho o direito de contrariar a maioria de meus vizinhos, mas, se pudesse, diria: não capinem minha rua. Depois de quase três décadas de união, consegui convencer minha esposa a morar numa casa. E moramos num canto do céu. Um bairro das antigas, com ar de cidade do interior, na mais antiga cidade capixaba, Vila Velha.

Na última campanha política, pude acompanhar um candidato, a quem prestei assessoria e vi um absurdo, sem poder falar nada. Numa das caminhadas em busca de voto, ele percorreu um bairro de muitos morros. No topo de um deles, ouviu impropérios de moradores porque o prefeito atual, que o apoiava, não asfaltou a rua.

Juro que um dia eu também desejei que asfaltassem as ruas de minha pequena Alegre, onde nasci e cresci, até bater asas para conquistar novos ares. Afinal, os militares de 64 nos fizeram acreditar que a modernidade era tirar os trilhos de ferro do País inteiro e estender as malhas negras de asfalto em todas as rodovias, principalmente, é claro, por onde passavam os ônibus da Itapemirim, a maior empresa de transporte coletivo da América Latina.

De volta, porém, à minha consciência, prefiro as ruas de paralelepípedos, por mais que eles não nos permitam grandes velocidades e façam nossos automóveis trepidarem. As pedras são mais duráveis e, quando arrancadas para manutenção das redes de água e esgoto, são mais fáceis de repor.

Além disso, vejo pela minha rua calçada com pedras. Quando chove, as águas escoam muito mais facilmente entre os paralelos e, ainda, rompem por entre essas pedras as plantas oriundas das sementes ali deixadas pelos pássaros. E esses mesmos pássaros vêm, depois, comer os insetos que revoam entre as pequenas flores.

Na esquina bem em frente à minha casa, esses matinhos formaram um lindo canteiro de flores amarelas nessa Primavera. Infelizmente, ouço a música das enxadas manejadas com destreza por algumas dezenas de garis, que vêm fazer uma das duas capinas anuais. Agora, as ruas estão limpas de verde e das rolinhas e outros pássaros que viviam entre essa vegetação, tão hostil à urbanidade.

JOSÉ CALDAS DA COSTA – jornalista, licenciado em Geografia, escritor

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