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OBAMA NAS ALTURAS

22 de novembro de 2008

Sou, absolutamente, incompetente para analisar, como deveria, o processo eleitoral dos Estados Unidos da América. Sempre estranhei a forma como eles votam.

Na verdade, o presidente estadounidense disputa duas eleições: uma dentro de seu próprio partido (desde a fundação, democratas e republicanos disputam a liderança política do País) e outra no confronto direto. Ou melhor, nem tão direto assim, porque até hoje não entendo como é aquele negócio de eleger delegados, que vão escolher o Presidente, na verdade, já escolhido.

Com olhos curiosos, e sempre simpático aos democratas, acompanho as eleições norte-americanas desde que me entendo por gente. Torci muito por Al Gore contra o Bush e tenho a sensação de que o democrata foi roubado na derrota para o pior presidente da história da América (isso, eu sei).

Mas nenhuma eleição foi tão catalizadora como essa realizada recentemente, que antepôs o democrata Barak Obama e o republicano John McCain. Não entendi bem a razão de eu ter ido às lágrimas junto com os americanos, na vitória de Obama. Talvez porque, no fundo mesmo, a gente saiba, mesmo sem saber, que um democrata sempre será melhor do que um republicano para a paz mundial.

Como disse, não me julgo capaz de analisar a eleição dos Estados Unidos, mas sinto que a escolha de Obama, o primeiro presidente negro da história daquele País tão marcado pelo segregacionismo, tem um significado mundial parecido com o que significou para o Brasil a eleição do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

Dito isso, quero presentear aos leitores com uma análise de quem conhece mais do que eu. Recebi, logo na madrugada de 5 de novembro, um artigo de meu amigo e guru Zakeu António Zengo, africano de origem e cultura, mas tão brasileiro quanto qualquer um dos mais patriotas dos nossos.

Zakeu é uma referência de inteligência. Acaba de entrar na casa dos 40 e viveu entre nós por duas décadas, até sentir-se habilitado a iniciar a sua missão de vida para com a sua África. Eu sempre o vi dessa forma. Ficou quase 20 anos longe da pátria amada, mas chorando e sonhando por ela. Há cerca de um ano, fica mais lá do que cá, instalando em Luanda, como reitor, a UMA – Universidade Metropolitana de Angola, na capital do País. De vez em quando, está entre nós, mata a sua e a nossa saudade.

Zakeu é teólogo, filósofo e antropólogo. A seguir, transcrevo, literalmente, o texto por ele produzido no calor da eleição de Barak Obama para Presidente dos Estados Unidos. É minha contribuição a cada um que, como eu, se emocionou com Obama sem entender o porquê.

“O fim e início da História: Estados Unidos da América elegem para si um Presidente Africano

Por alguma razão fantástica, mas inusitada, mares de lágrimas descem teimosas de milhares de fazes de norte-americanos, dos olhos da América. Algumas mais copiosas e consternantes, geradas em pranto incontinente como as que despencan dos piedosos olhos do Rev. Jesse Jackson. É uma grande cena que a maravilha da comunicação moderna deita aos olhos do mundo como um ato de pugilismo desconcertante.

Na Igreja Batista de Ebenezer (e, certamente, em centenas de outras), de afroamericanos, os fiéis dão fim à uma vigília de oração pela América, e agora gritam de júbilo: Obama is our President!

As 5h da manhã (fuso horário de Angola), a contagem de votos acabava de confirmar a eleição de Barack Obama como o 44º presidente dos Estados da América, o presidente da nação, militar e economicamente, mais poderosa do mundo; presidente da nação das mais imensas contradições históricas, na qual a história da escravidão dos negros revelou-se mais gritante, mais cruciante e mais humilhante para a raça do continente negro.

América faz história elegendo um presidente não apenas jovem e negro, mas diretamente um africano-americano. Barack Obama não é afro-descendente como os demais afro-americanos. Ele não é descendente dos escravos africanos da velha América, mas um legítimo africano, gerado de um africano cujo corpo, praticamente, ainda se encontra quente numa tumba das terras do Quênia. Ele não é um imigrante como Arnold Schwarznegger, que pelo caminho da glamurosa Hollywood chegou ao posto número 1 da política californiana.

Obama é também legítimo americano, nascido em seu solo, mas de sangue negro de um negro africano de nascimento, passaporte e carteira de identidade da República do Quênia. Fazendo justiça à lógica da derivação genética e geracional da raça humana, que de resto nós, humanos, cultivamos com repetição tradicional e clássica, o mundo está hoje diante de um fenômeno histórico maior ainda: a América do Norte elegeu para si, consciente ou inconscientemente, um presidente africano.

A maior potência do mundo, no interior da qual puritanos e fundamentalistas de boa fé, em nome da justiça divina e da piedade, se uniram entre 1861 e 1865 para matar e expulsar da nação os que defenderam a abolição da escravidão nas terras do tabaco, hoje se rende à grandiosidade, à decência e à beleza da humanidade, para dar-se um presidente africano. Para mim é o fim, mas também o início da história.

Senhores, não importa qual desempenho e desfecho aguarda pela Casa Branca, que de branca terá apenas o nome e não a cor do seu inquilino número um nos próximos 4 anos; depois da presidência desse africano-americano, a Amércia, a África e o Mundo terão concedido à história a dignidade da reconciliação das raças e dos continentes.

O que hoje ficou evidente, num tempo em que a escravidão de pessoas ainda prevalece em muitos quadrantes do mapa global, é que a África pode dar às nações mais do que escravos, mais do que razões para debater políticas e conflitos raciais.

Às 6 horas da manhã em ponto desta quarta-feira, 5 de novembro, subiu à tribuna o presidente africano para tecer um silogismo que nada tem de filosófico: diante de vós está hoje a realização do sonho da verdadeira América, que deixou de ser uma coleção de ideologias, de raças e de origens, para se tornar os Estados Unidos da América! Em gratidão, entre todos aos quais deveu a sua eleição, e entre a sua família, não esqueceu os seus irmãos de sangue. Literalmente, estes são africanos, asiático e nenhum americano legítimo de pai e mãe.

Originário de um país africano (Quênia) em que, diariamente, centenas de crianças ainda morrem de fome e desnutrição conseqüente, e cerca de 40% dos seus jovens está fora das salas de aula, Obama tem, certamente, pela frente o desafio de entregar os sonhos que vendeu.

Assim como fez seu compatriota Raila Ondinga, por sinal da mesma tribo que ele, Obama terá que ser hábil para evitar a divisão momentânea e histórica da América. Mas certamente não se pode mais negar que ele realizou um importante projeto político e social das novas gerações americanas, que ele assume no prefácio de 2004 da sua autobiografia política “A origem dos meus sonhos”: atenuar, de alguma maneira, as fissuras entre as raças que caracterizaram a experiência norte-americana, bem como o estado fluido de identidades, isto é, a transposição de obstáculos postos pelo choque das culturas, que marca a vida moderna.

John McCain, cerca de meia hora antes, fez o melhor discurso da noite, mais patriótico e mais cioso e convincente: pede à América a descer para os difíceis rincões da razão para dignificar a história diante de si com a eleição do primeiro afro-americano. Sim, também para McCain, Obama é um africano-americano. Apela à unidade nas diferenças, e apoiar Obama, a unir o país nas diferenças e devolver à América os tempos de glória, da segurança e da prosperidade.

Obama é um grande comunicador também, e discursa grandiosamente bem sem as perorações enlatadas e os exórdios escritos que nossos políticos africanos nos habituaram no continente negro (embora não só). Enfim, ele partiu e chegou decidido a fazer coisas que ele afirma que irão funcionar na Casa Branca: diminuir distâncias, fazer conexões, forjar alianças

Obama também nada leu, e fez história na arte da comunicação. Com o refrão “yes we can” (sim, nós podemos), ele seguiu e repetiu a conhecida rapsódia do sermão mais famoso do mundo,”I have a dream” (tenho um sonho), de Martin Luther King. Tom no tom, ênfase totalmente colada, fez o novo presidente negro da América repetir, ao fim de cada verso que evocava a realização do sonho da velha América de King e da América da nova geração, “Yes we can”.

Confesso, camaradas, neste momento histórico e sublime, minhas lágrimas literais uniram-se com as de milhões de americanos, e mais uma vez aos do incontinente Jesse Jackson, feito criança inconsolável. Foi bom ter vivido e “presenciar” esta cena e este momento, graças ao milagre da televisão.

Repouse em paz Martin Luther King, pois seu sonho, o sonho da América unida, hoje começou a materializar-se de modo tão grandioso como o sonhaste. Deus abençoe a América. Assim como reza o seu nome (barack, abençoado em árabe), Deus abençoe Obama. Deus abençoe a África. Deus abençoe o mundo”.

Zakeu A. Zengo

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