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A BREVE HISTÓRIA DE ROSE

3 de abril de 2009

“…perdeu a visão das coisas, mas abriu ainda mais seus olhos da mente”

Quando eu era criança, estudávamos em escola pública, pobres, médios e ricos, brancos, pardos e negros. Escola particular era um luxo para poucos. Lembro bem que recebíamos bem mais do que lições de Português, aritmética, História e Geografia. Recebíamos lições práticas de vida de nossas respeitadas e respeitáveis professoras, como fazer uma boa ação por dia. Confesso que isso me acompanha por quase meio século.
Um dia desses, caminhava apressado rumo ao calçadão da Praia da Costa, para minhas atividades físicas diárias, quando percebi uma moça baixinha, rechonchuçada, em dificuldades. Ela portava, em uma mão, uma dessas varas metálicas de orientação para cegos e, na outra, uma mala retangular maior do que ela. Havia acabado de desembarcar do ônibus. O ponto estava cheio de gente apressada e ninguém atentava para o fato de que ela não estava conseguindo se orientar na calçada e estava caminhando para bater na cerca.
“Um pouco para sua direita e segue reto”, instintivamente, falei. Ela atendeu ao comando e ajeitou seu rumo. Dei mais três passos e, involuntariamente, ao mesmo tempo veio-me um pensamento ao mesmo tempo que a ação de olhar para trás.:”Ela está em dificuldades com aquela mala”. Voltei e ofereci ajuda com a mala. Ela se preocupou que eu perderia meu ônibus. “Não estou pegando ônibus, vou caminhar, não tenho pressa, posso te ajudar”.
Perguntei e ela me disse que iria para o shopping. Ofereci ajuda com a mala e ela perguntou se poderia segurar em meu braço. “Sim, claro”. E começamos a caminhar, lado a lado, eu com aquela maleta numa das mãos e a moça segura, acompanhando meus passos. Começamos a conversar. Disse o meu nome e perguntei o dela. Minha curiosidade era sobre o que continha a maleta exagerada e pesada.
“Isso é uma maca de massagem. Presto serviços no shopping”, respondeu-me ela, iniciando a sua história surpreendente e aguçando minha curiosidade. “Você já nasceu sem a visão ou a perdeu depois?”, perguntei. “Fiquei cega há cinco anos”. A inquisição aumentou: “O que aconteceu?”. “Tive toxoplasmose e herpes, que atingiu o nervo ótico”.
Já fiquei mais inquieto, perguntei como estava a adaptação à nova vida sem poder ver as coisas e ela me disse que já estava, completamente, adaptada. Fui adiante em minha curiosidade e fiz a pergunta cuja resposta revelou por completo o caráter, já surpreendente, daquela moça.
“Você já fazia massagem antes de ficar cega?”
“Não, eu aprendi e me tornei massoterapeuta depois que perdi a visão”.
Deixei-a no shopping, apanhei o número de seu telefone e ofereci o meu. Aqueles dois a três minutos que a conduzi até seu destino por uma rota segura e orientada foram o maior presente que Deus poderia me dar para aquele dia. Corri feliz no calçadão da praia, cheguei em casa e contei para minha mulher e meus filhos a surpreendente história de Rose.
Não ouvi uma única palavra de reclamação daquela moça durante toda nossa conversa. Rose perdeu a visão das coisas, mas abriu ainda mais seus olhos da mente. Descobri que para chegar até o shopping ela precisa acordar bem cedo no bairro de periferia onde mora, embarcar com sua maleta em um ônibus até um terminal do sistema de transportes e dali seguir em outro ônibus até seu destino. E ainda cumpre a última etapa de sua jornada, tendo que driblar os buracos das calçadas, as armadilhas dos muros e cercas e contar com a pouca solidariedade que teima em sobreviver em nossa sociedade de consumo de bens e de gente.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contato: caldasjornalista@gmail.com
Publicado na coluna “Tribuna Livre”, do jornal A Tribuna (ES), de 25/03/2009

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