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OS 25 ANOS DA GREVE QUE FECHOU A TRIBUNA

3 de abril de 2009

No dia 23 de março de 1984 o mundo parou. Muitos da nova geração de jornalistas do Espírito Santo nem eram nascidos há 25 anos, quando uma greve, motivada pela demissão de dois jornalistas, parou a Redação de A Tribuna.

De um lado, o Sindicato da categoria alegava quebra de acordo coletivo de trabalho; do outro, a empresa sustentava que estava cumprindo o acordo. No centro da discórdia, o número de profissionais no quadro da Redação. As contas de um e de outro não batiam. A assembléia do dia 22 de março radicalizou e decretou a greve.

Custei a acreditar no que encontrei ao chegar no sábado, 23, para trabalhar. Eu era redator de Esportes e o sábado era um dia pesado de trabalho. Eu havia saído antes da assembléia na noite anterior, porque estudava e tinha que ir para a aula. Na época, cursava Teologia no Seminário Batista. No dia 23 de março, todas as portas da empresa amanheceram trancadas.

Demorei pelo menos uma semana para entender o que estava acontecendo. Mais da metade do mês havia transcorrido e o dinheiro do pagamento anterior já, praticamente, havia acabado. Meu filho mais velho, Jessé, estava por completar três meses de nascido. De repente, começou a faltar dinheiro para o leite.

Dois colegas, Chico Flores e Romero Mendonça, fizeram greve de fome na porta da empresa. Foi um movimento com repercussão nacional. Vieram lideranças de vários Estados. Dentre elas, certo líder sindical que estava emergindo na época, Luiz Inácio da Silva, o Lula.

Durante algumas semanas, meses talvez, houve um fundo de greve. Eu não esperei para ver. Fui tentar ganhar algum dinheiro para sustentar a família. Não acreditava que aquilo daria em alguma coisa. Fui vender capacho e arranjei um bico como assessor de imprensa da Federação de Futebol. Vendi meu carro, doei a cadela que o João Luiz havia me dado de presente. Tinha que enxugar despesas. 

Somente seis meses depois foi feito um acordo e recebemos a metade do que teríamos direito, pois a empresa demitiu toda a Redação por justa causa. Poucos jornalistas escaparam da degola. Alguns, porque ocupavam funções de Direção, outros por estarem de férias e a eles não se aplicaria a justa causa. Os demais, entre eles, eu, foram para a rua da amargura, num mercado que, à época, praticamente, restringia-se à A Tribuna, agora fechada, e A Gazeta.

Para os colegas da Chafic Murad, não poderia haver nada pior. Eles perderam a referência para negociar com a família Lindenberg as melhorias que todo trabalhador assalariado sempre busca – naquela época, essa cultura era ainda mais enraizada em toda nossa geração.

Cada um reagiu de uma forma. Durante muito tempo, eu fiquei que nem cachorro que cai da mudança. Confesso que levei uns 10 anos para, emocionalmente recuperar-me daquele golpe aos 24 anos de idade. Para mim, meu mundo era A Tribuna. Havia começado como jornaleiro, virei correspondente em Alegre e cheguei à Redação aos 18 anos contratado como redator. Para quem tinha a minha origem, vivia uma história meio de sonhos. Agora, um pesadelo.

A empresa aproveitou a oportunidade para se reestruturar, construir a nova sede, instalar a emissora de televisão e, três anos e meio depois, voltar com uma nova proposta editorial. Jornal tablóide, feito por jovens jornalistas, a maioria recém-saídos das universidades, liderados por outros mais experientes – dentre os quais eu me incluía, apesar de ainda muito jovem, porém,  muito rodado. Somente suportei o novo ritmo por 90 dias e me demiti, para voltar 10 anos depois, mais maduro, para cumprir minha terceira fase na Rede, que durou cinco anos e meio.

A nova Tribuna cresceu, crescemos todos nós, os que conseguimos transformar a dificuldade em uma oportunidade. De minha parte, ainda tentei voltar à Rede alguns meses depois da greve, trabalhei como redator de rádio, mas os tempos não eram os mesmos. Preferi fazer uma incursão pela grande imprensa e fui para O Globo, no Rio, onde já trabalhava meu antigo companheiro de editoria de esportes Carlos Orletti.

Éramos um time dedicado e competente no Esporte de A Tribuna. O editor era João Luiz Casér, que escapou da degola e hoje é Diretor de Jornalismo da Rede (outro que escapou na época foi Eustáquio Palhares, que era o Editor-Chefe). Na reportagem, tínhamos o Renato Fischer, hoje médico, o Oscar Gomes, que está aposentado, o Orletti, a Dinah Lopes, que andou por Santa Catarina e, segundo soube, hoje mora no interior do Estado, o Jorge Buery, que foi para  TV Gazeta e está lá até hoje, e o Oscar Rocha Júnior, o Boquinha, que também escapou da demissão e hoje, apesar de aposentado, continua trabalhando como editor de esportes.

A Redação de A Tribuna tinha um time competente, porém, altamente politizado e engajado no sindicalismo e, em muitos casos, na política partidária . Os meninos, como Sylvio Costa, Evando Demuner, Humberto Martins, dentre outros, juntavam-se a veteranos como Jô Amado, Luiz Rogério Fabrino, Pedro Maia e Luiz Aparecido da Silva, um velho quadro do PC do B, pivô da greve que fechou A Tribuna. Alguns deles, haviam se engajado no PT, recém-fundado, e adotavam sandálias de dedo e bornais a tiracolo como marca pessoal.

Um dos repórteres mais engajados no sindicalismo era Tião Barbosa, que, demitido, andou pelo ABC paulista, mas voltou ao Estado e hoje é vice-prefeito de Vitória. Foi das mais difíceis a vida do Tiãozinho naquela fase, recém-casado.

Historicamente, 25 anos é tão pouco tempo, mas como as coisas estão diferentes! Os líderes da categoria naquela época também mudaram.

Rogério Medeiros, que havia sido o presidente que transformou a Associação em Sindicato dos Jornalistas e celebrou o primeiro acordo coletivo da categoria, conquistando um piso salarial, à época, de 5 salários mínimos, mergulhou na vida política, foi vice-prefeito de Vitória, candidato a senador e a governador e homem forte como secretário de Estado do governo petista de Vitor Buaiz, no período 1995-98. Hoje, vive entrincheirado aqui no Século Diário.

Tinoco dos Anjos, o presidente do Sindijornalistas da época da greve que colocou mais de 70 profissionais na rua da amargura, era funcionário de A Gazeta, mas deixou a Redação para assumir cargos públicos, também a partir do governo do PT de Vitor Buaiz, e nunca mais voltou para a Redação. Desde aquela época está na RTV-ES, a empresa de rádio e televisão do Governo, variando entre a presidência e a Direção de TV, que ocupa hoje. 

O mundo parou naquele 23 de março, e lá se vão 25 anos, mas o mundo não acabou. Cada um de nós fez e refez sua história. A própria empresa refez sua própria história e o jornal, algum tempo depois de voltar à circulação, com uma nova proposta, dobrou a concorrência e continua há uns bons anos na frente em circulação.

Se aquela Tribuna ainda tinha jornalistas que viviam o lado “romântico” da profissão, com parada obrigatória no boteco do Alonso antes, durante e depois do expediente, hoje esse comportamento é inadmissível para o profissional que se queira respeitado.

Se naquela Tribuna contavam-se os automóveis dos jornalistas, estacionados na área onde hoje é o prédio da TV, hoje são raros os que não têm um veículo para se locomover, e congestionam as ruas ao redor da empresa.

Se naquela Tribuna os jornalistas eram brigões e chegavam a emparedar o patrão a ponto de provocar o fechamento da empresa, por outro lado os repórteres iam para a rua de ônibus, subiam morros, amassavam barro, se importavam muito mais em dar conta da pauta e cumprir o que achavam ser a sua função social do jornalista, do que com seu próprio status.

Essas bodas de prata do histórico movimento grevista de março de 1984 não devem ser lembradas com rancores ou ressentimentos, mas com a certeza de que cada um de nós estava convicto de que fazia a coisa certa e fazia certo as coisas.

  

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia, e escreve neste espaço nos finais de semana. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

 

 

 

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