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SENNA: UM TRABALHADOR QUE AMAVA SEU TRABALHO

2 de maio de 2009

Foi inevitável eu pensar, no último 1º de maio, no que estava fazendo na mesma data, às 9 horas da manhã, há 15 anos. E foi curioso ver no programa da Ana Maria Braga a Viviane Senna comentar que esta é uma marca em todos os brasileiros que, naquela época, tomaram notícia da trágica morte do maior ídolo contemporâneo brasileiro, o piloto Ayrton Senna da Silva. Jamais me esquecerei da cena.

Naquele 1º de maio de 1994 eu e minha família enfrentávamos uma situação atípica. Transferido para Vitória pela Caixa Econômica Federal, eu deixara a minha família em Colatina. Era um domingo. Aquele era meu final de semana em casa e preparávamos para ir ao culto matinal. Havíamos programado ir a uma igreja no bairro Honório Fraga. O Jessé tinha 10 anos, a Lídia 7 e o Júnior apenas 4 anos.

A televisão estava ligada. De repente, a colisão e o sentimento de perda. Quando vi Ayrton imóvel no cock-pit, falei: “Morreu”. Foi instintivo e uma declaração na qual eu mesmo não queria acreditar. O helicóptero desceu e levou o nosso herói. Pouco tempo depois, Galvão Bueno anunciava, na Globo, a morte de Ayrton. Nunca mais vi uma corrida de Fórmula 1. Lembrei-me da entrevista que fiz com Ayrton Senna em 1985 no Rio, quando ele estreava na McLaren. Um “menino” tímido e ainda assustado com tudo o que estava acontecendo. Agora, quem não acreditava era eu.

Ayrton amou, intensamente, seu trabalho. Ouvi de um cientista da área de nutrição, Dr. David Heber, uma frase muito interessante: “Procure algo que você ame fazer e nunca mais trabalhe na vida”. Depois, descobri que este é um pensamento oriental. E sei que quando se ama o trabalho que se faz parece que não se trabalha. É a sensação que se tem quando se vê, por exemplo, Ronaldo jogando futebol.

Não sei se foi Jeremy Rifkin ou Domenico de Mais quem disse que o trabalho sempre foi associado com sofrimento, castigo, mas que, na verdade, o trabalho é uma bênção. Rifkin preconizou o fim do emprego e acho que ele tem razão. Trabalho e emprego são duas coisas diferentes, embora este esteja ligado àquele. Porém, aquele não está ligado, obrigatoriamente, a este.

Vejo pessoas amaldiçoando o que fazem porque fazem o que não gostam, simplesmente, por causa do dinheiro que ganham, ainda que seja pouco. Recentemente, fiquei escandalizado ao ouvir o relato de uma amiga de que, no seu emprego, como caixa de uma empresa de varejista de alimentos, não pode levar nada para comer porque não permitem. E seu intervalo entre o almoço e o final do expediente é de pelo menos sete horas. Ela fica oito horas sem se alimentar, o que contraria qualquer lógica de vida saudável.

Pior: essa amiga fez diabetes aos 33 anos de idade. Num dos últimos feriados não deram almoço aos empregados, mas sanduíche de cachorro-quente. Ela foi obrigada a comer e teve um pico de glicose. Por que isso? Porque criaram uma crise e as pessoas precisam preservar o emprego da era industrial e não reclamam.

Os sindicatos das categorias não são mais os mesmos. Estão atrelados a Centrais, que, em nome da audiência, promovem tudo no Dia Internacional do Trabalho, menos uma reflexão sobre a data. Vejo poucos sindicatos defendendo o direito ao trabalho. Quando muito defendem o direito ao emprego. É que o trabalhador-mor virou patrão-mor.

No Dia Internacional do Trabalho, vejo festa no Brasil do emprego forçado, enquanto na velha senhora Europa enfrentam a polícia em combate à falta de emprego. Eu, particularmente, não acredito em emprego, mas em trabalho. Ele sempre existirá, pois é a mola com que se cria e recria tudo o que há. O emprego é filho da escassez, o trabalho é da abundância, como preconiza o economista Paul Zane Pilzer.

De acordo com a tradição bíblica, Deus trabalhou seis dias na semana para criar tudo o que há. Ouvi uma frase magnífica num treinamento do Roberto Schinyashiki: “Somos sócios de Deus na criação”. Ou seja, o trabalho continua. Então, é o trabalho que a tudo cria, recria e transforma. Agora, Deus também descansou. No sétimo dia. O Rinoceronte guarda tempo para se esparramar em um bom charco de lama!

Se esperavam uma análise profunda do Dia do Trabalho, com um viés ideológico programado, se decepcionaram. Se desejarem isso, recomendo o artigo do meu amigo Celso Lungaretti – “O primeiro de maio já foi dia de luta e de luto”. Está lá no blog dele – http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/search/label/Lula-, vale a pena ser lido.

Fato é que ou se encontra sua missão de vida ou nada mais fará sentido. Por isso é que admiro os que lutam sem cessar, ainda que em alguns momentos possa não concordar com seus métodos. Eles, porém, têm o direito de lutar. Ao menos, mantêm-se vivos, e não cadáveres ambulantes como vemos aos montes.

É admirável ver Oscar Niemayer, aos 102 anos, visitando a obra que transforma em algo concreto aquilo que, antes, estava apenas em seu pensamento e que passou para sua prancheta de arquiteto. Os sonhos habitam nossa alma, chegam aos pensamentos e precisam ser colocados no papel e, depois, com um plano de trabalho, concretizados. 

Amo os versos da música Um homem também chora, do Gonzaguinha: “Um homem se humilha se castram seus sonhos; seu sonho é sua vida, e vida é trabalho; e sem o seu trabalho um homem não tem honra, e sem a sua honra se morre, se mata… não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz…”

 José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Publicado também na edição deste domingo, 3 de maio de 2009, de www.seculodiario.com.br

Contatos: caldasjornalista@gmail.com

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