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PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

13 de outubro de 2009

Vou ceder à tentação e voltar a falar de política. É, simplesmente, extraordinário como as coisas acontecem nesse campo. Fiquei quieto durante algum tempo somente observando a cena. E cada dia fico mais curioso com a competência do governador Paulo Hartung para articular a política ao seu redor. Eu não me surpreenderia com nenhum movimento dele, por mais estranho que pareça.

Faz tempo que PH não tem adversários políticos, desde que mandou à lona, de forma definitiva, seu antigo rival, José Ignácio Ferreira, numa vingança fenomenal da derrota que lhe foi imposta na convenção do PSDB em 1998. Aliás, aquela convenção partidária foi um marco histórico da maior relevância, que deveria pautar qualquer trabalho científico sério sobre a política capixaba.

Nunca se deve esquecer que quem salvou a administração hartunguista no primeiro momento, quando as finanças estaduais eram caóticas, foi o Presidente Lula, aportando aos cofres capixabas mais de 400 milhões de antecipação de royalties do petróleo. Como paga, recebeu uma célebre omissão na reeleição, em 2006, quando Lula derrotou José Serra, velho amigo do político capixaba.

De arranjo político em arranjo político, os potenciais inimigos foram sendo colocados na cadeia, na marginalidade social, no ostracismo ou debaixo do chinelo. É muito desagradável, do ponto de vista da democracia, a falta de opções, que Paulo vem criando no Espírito Santo dos últimos oito anos, paralelo ao fenômeno da explosão econômica satélite do sucesso do governo Lula.

Nas eleições de 2002, o nome do atual governador ainda não tinha o peso de hoje, apesar de, à época, ele ser senador eleito com expressiva votação em 1998. O ex-governador Max Mauro foi o último político capixaba a fazer-lhe sombra. Há quem diga até mesmo que, se o pleito tivesse mais 15 dias, Max seria capaz de virar o resultado. Paulo venceu com 53,9% dos votos válidos, mas o representante do clã dos Mauro fez expressivos 41,5%, mesmo sem recursos financeiros.

Com ajuda de Lula, Hartung colocou as finanças públicas em ordem, fez uma bem articulada campanha de marketing do bem contra o mal e chegou com todo gás em 2006. Quem pensava ter no, então, deputado federal Sérgio Vidigal uma opção, sofreu uma grande decepção. Ele utilizou-se do pleito muito mais como um trampolim para voltar à Prefeitura de Serra dois anos depois do que como uma disputa séria.

Vidigal ensaiou um discurso de oposição, mas jamais utilizou as armas que, se supunha, poderia ter para derrubar o governador. A segurança pública caótica passava ao largo do processo eleitoral, graças ao marketing político e ao não menos competente poder de articulação de Paulo Hartung. O resultado foi um estrondo: de 800 mil, Paulo Hartung saltou para mais de 1,3 milhão de votos. De 53%, pulou para 77% dos votos. A maior votação individual, proporcionalmente, dentre todos os candidatos a Governo no País. Vidigal ficou em módicos 21%, mas fez sua cama.

Nas eleições municipais de 2008, o jogo ficou claro. Vidigal não era para valer. Teve as bênçãos do Palácio Anchieta para dar um golpe no, virtualmente, prefeito reeleito Audifax Barcelos, sua cria política, impediu sua candidatura no PDT e ganhou fácil a Prefeitura da Serra de novo.

Os meses que se seguiram ao pleito de 2008 revelaram surpresas e mais surpresas. Quem procurava uma alternativa a PH, ficou órfão. Acreditava-se que Guerino Balestrassi, que derrotou a estratégia palaciana em Colatina (será que o Palácio queria mesmo eleger o deputado Paulo Foleto?), e mesmo Audifax pudessem compor uma frente alternativa para as eleições de 2010. Mas o que aconteceu? Poucos meses se passaram e os dois foram compor a equipe do governo. Agora, serão candidatos a qualquer coisa que o patrão mandar.

Cansado, o velho Max, que ainda havia tentado uma eleição ao Senado em 2006, sendo massacrado pelo esquema político e financeiro palaciano de apoio a Renato Casagrande, saiu derrotado também nas municipais de 2008, a partir de seu próprio centro de resistência política, Vila Velha.

Sem adversários, com o mais completo controle sobre todas as instâncias de poder no Espírito Santo, inclusive as empresariais, determinando como e onde devem ser colocados os apoios, Paulo Hartung move-se com desenvoltura e qualquer coisa pode acontecer em 2010. Até mesmo a mais surpreendente delas, deixada vazar por uma velha raposa política, aliada do governador, em uma reunião em data que não vou revelar, mas que foi realizada sob a brisa do mar. Quando um velho súdito disse que seria candidato a deputado estadual, o assecla reagiu, em ato falho: “Você vai concorrer com o Paulo?”

Absurdo? Nem tanto, se se considerar uma estratégia de busca de um terceiro mandato virtual. Raciocinem comigo. O candidato que está posto pelo Palácio Anchieta ao governo é o vice-governador Ricardo Ferraço. Pelo caminho natural, então, Paulo Hartung deixaria o governo seis meses antes para se candidatar ao Senado, o que daria a Ricardo o direito apenas a um mandato. Assumindo o governo nos últimos nove meses, Ricardo Ferraço estaria na condição de candidato à reeleição e, por isso, não poderia, quatro anos depois, concorrer ao mesmo cargo.

O Senado Federal renova em 2/3 no próximo ano. Ou seja, dois mandatos de senadores estão vencendo: os de Magno Malta e de Gerson Camata. A mulher de Gerson, Rita Camata, acaba de filiar-se ao PSDB com a orientação da cúpula para ser candidata a vice de Ricardo, do PMDB. Uma composição que tiraria do páreo a candidatura de Luiz Paulo Velozzo Lucas.

Magno Malta corre numa raia própria e, apesar de um breve desgaste nos anos de 2007 e 2008, deu a volta por cima e hoje, com a CPI da Pedofilia, é o político capixaba de maior visibilidade no Planeta. Ele corre na raia dos evangélicos, o que deve lhe assegurar a renovação de seu mandato. Restaria, então, uma vaga no Senado. Se Paulo Hartung sair candidato, seu aliado Gerson Camata iria mesmo abrir uma padaria, depois de “trocentos” anos de política? Duvi-dê-ó-dó!!!!

Qual a alternativa? Ora, o grande erro político do ex-governador gaúcho e fluminense Leonel Brizola foi insistir em candidaturas a Presidente, fadadas ao fracasso, em vez de encarar uma corrida à Câmara dos Deputados, contribuindo para formar uma consistente bancada de parlamentares de seu partido, o PDT.

Paulo Hartung é um animal político, extremamente, inteligente e sabe que, se ganhou admiradores, colecionou, se não adversários, pelo menos muitos inimigos últimos oito anos. Perder o controle não faz parte de seus planos. Mas, já que a legislação não permite um terceiro mandato, qual seria, então, um caminho para um virtual PH III?

Para quem conseguiu ressuscitar um político tido como morto, que serviu à ditadura militar, que ele mesmo, Paulo Hartung, combateu como líder estudantil e quadro do Partido Comunista, fazendo desse político presidente de um dos poderes republicanos no Estado, é bom não duvidar da capacidade do governador de contrariar a lógica.

Nos porões do Palácio Anchieta calcula-se qual seria a capacidade de voto de Paulo Hartung numa eventual candidatura a deputado estadual. Fala-se que ele poderia estabelecer uma anomalia: ter, nominalmente, 50% dos votos. Ou seja, poderia puxar, consigo, uma bancada que seria a metade da Assembléia Legislativa, através da legenda. Particularmente, acho essa conta ilógica e poderia escrever um livro defendendo essa tese, tomando por base as estatísticas e peculiaridades de uma eleição de “vereador” estadual, mas quem é que ainda acredita na lógica da política? Mas, admitamos: não puxa 15, mas puxa 10 deputados. Mais o poder de influência, e está criada a zona de convergência.

Num raciocínio maluco como esse, quem seria o presidente da Assembléia Legislativa, um poder hoje sob torniquete do chefe do Executivo? PH III, claro. E estaria aberto o caminho para mais um mandato do aliado Gerson Camata no Senado e, sem Ricardo poder se recandidatar, por impedimento da legislação, estaríamos a um passo de, em 2014, termos PH IV seguido de PH V, numa versão tupiniquim do xeique dos Emirados do Espírito Santo, quando o petróleo do pré-sal, finalmente, jorrar por essas plagas.

E imaginar que tem gente que acha Lula esperto por querer eleger Dilma, assumir a presidência da Petrobrás e, depois, voltar candidato em 2014 para presidir o País na realização das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro!

José Caldas da Costa – jornalista, escritor, professor-substituto de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

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