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HAITI: OS SINOS DOBRAM NO MEU ANIVERSÁRIO

8 de fevereiro de 2010

Fiquei, extremamente, desconfortável com um monte de besteiras que ouvi falar sobre a tragédia com os haitianos. Como sou cristão, incomodei-me, especialmente, com o que disseram alguns líderes religiosos. Por isso, fiquei muito feliz ao receber esse artigo do pastor e escritor Ricardo Gondim, que reproduzo abaixo, para que não perdure a ignorância entre o povo cristão.

Ricardo Gondim
 
Hoje, 14 de janeiro, celebro meu aniversário com a bandeira hasteada a meio pau. Ouço sinos a dobrar no horizonte e me pergunto: Por quem dobram os sinos? A resposta ressoa em um uivo melancólico: Eles dobram pelo povo do Haiti, e por ti.

Celebro a minha existência com o sabor amargo de uma catástrofe que engasga a alma. Meu sorriso não disfarça o desalento. Sinto-me no vórtice desse evento trágico que aflige o povo famigerado do Haiti. O badalar dos sinos lembra o poeta inglês do século XVI, John Donne. Suas palavras tingem meu aniversário de um baço consternado: “A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

O Haiti consta entre os mais miseráveis do planeta. Não tem um Estado que gerencie minimamente o dia a dia dos cidadãos. Sem Corpo de Bombeiros, não tem qualquer serviço de ambulância; os hospitais, precaríssimos matam mais do que curam. Embora localizado nas barbas dos Estados Unidos, por anos contou com uma ajuda “humanitária” insignificante, migalhas que caem da mesa dos filhos preferidos de Deus. Pingos de creolina para um oceano de fezes.

 O mundo não teve dificuldades de encontrar bilhões para resgatar mega corporações financeiras, mas joga sobejos para os haitianos que rastejam na absoluta desgraça.

Já estou preparado para ouvir os argumentos dos arautos do conservadorismo teológico: “Deus, em sua presciência e eterna sabedoria, pré-ordenou todas as coisas. Ele organizou o mundo de tal maneira que até a desgraça de milhões traz glória para seu santo nome”. Fundamentados na literalidade de textos dos genocídios, limpezas étnicas e pragas atribuídas ao furor divino, os arautos da Reta Doutrina fazem de Deus não só o autor, mas o gerente de calamidades tão dantescas.
 
Sim, os relatos da Bíblia hebraica revelam uma Divindade que, uma vez ofendida, não hesita em destruir tudo e todos os que se interpõem ao seu propósito. O pensamento que transforma Deus no autor de calamidades elabora da seguinte maneira: “Deus é bom, mas também justo. E se no passado matou cidades inteiras, crianças, animais, idosos, também tem o direito arrasar com milhões de pessoas nos dias atuais. E ninguém seria sábio ou misericordioso o suficiente para questioná-lo”. Entendo que este tipo de leitura da Bíblia se sustenta, porque possui uma lógica interna rigorosa – alguns desses pensadores são pós-doutores em teologia.

Contudo, eu já me despedi da racionalidade desse pacote. Não tolero que as conclusões medievais de Santo Anselmo calcem o meu chão teológico. Ele pensou a partir da ideia sinistra de que a Divindade estava ofendida pelo pecado da humanidade. Praga bubônica, tsunamis, devastação de colheitas por secas e inundações ainda são insuficientes para aplacar o ódio do Senhor – segundo o calvinismo, as crianças já chegam ao mundo condenadas; devido ao pecado original, “nascem debaixo da ira de Deus”. Antecipo dizerem que vez por outra Deus precisa mesmo dar uma mexidinha nas placas tectônicas para mostrar seu grau de cólera com a humanidade.

Não refuto tais argumentos. Eles fecham o esquema lógico do raciocínio daqueles que se autodenominam Reformados. Porém, como acreditar em um Deus que escolheria exatamente os haitianos para revelar o tamanho de sua ofensa? Por que exatamente sobre um povo já esquecido em sua indigência? Os calvinistas que fiquem com esta divindade, eu não posso acreditar que exista um Deus que sempre começa a sua vingança com os indefesos.

Claro que os ricos se protegem melhor das tragédias enviadas pelo Altíssimo. No Japão, um terremoto dessa magnitude traria sérias consequências, mas os danos seriam minorados pela belíssima infra estrutura do país – ressalte-se que a maioria de japoneses é secularizada, e como outros povos abastados, não se interesse muito pelo Deus dos cristãos. Se o Todo Poderoso castigou a pequena ilha do Caribe devido a sua idolatria primitiva e grosseira, porque não pune os Países do Primeiro Mundo pela idolatria sofisticada e dissimulada do materialismo?

Que Deus é esse que permite que ricos se defendam de sua ira extrema? New Orleans está conseguindo voltar ao normal depois do Catrina. Para os haitianos condenados ao charco pútrido, as mortes continuarão por décadas. O que lhes acontecerá quando o próximo furacão voltar a açoitar sem misericórdia?

Acredito em um Deus que se relaciona com a humanidade em outras bases. Deus é amor. A bonança e a tempestade são elementos da Contingência, espaços para a liberdade. Não creio na teologia da Providência (se não conhecer o seu significado, bastar pesquisar nos melhores manuais calvinistas). Aceito que Deus amorosamente participa nas iniciativas de bondade e nos movimentos de justiça que um cataclismo possa desencadear. Não imagino que o Deus de Jesus Cristo possa estar por detrás de um acidente tão horrendo. Ele é luz e interpela homens e mulheres de bem para que se façam presentes na catástrofe, minorando o sofrimento dos pobres. Descreio das lógicas que transformam os pensamentos divinos em maldição. Deus é o Deus da paz.

As lágrimas de Deus pelo Haiti são semelhantes às de Jesus diante da sepultura de Lázaro. Seu lamento ressoa no repique dos sinos que devem bater mansos, hoje, 14 de janeiro. No meu aniversário, partilho a dor dos negros, pardos e brancos que choram a morte de seus queridos ainda debaixo de escombros em Port-au-Prince.

Soli Deo Gloria

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