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GUERRILHA DO CAPARAÓ: MORRE O GUARDA FLORESTAL QUE DESCOBRIU O ÚLTIMO ACAMPAMENTO

24 de março de 2010

Joverci Emerich conhecia a Serra do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, como a palma de sua mão. Fechava os olhos e era capaz de descrever cada alteração do relevo. Foi ele quem, no final de março de 1967, levou as tropas da Polícia Militar de Minas Gerais ao local onde os guerrilheiros do Caparaó montaram seu último acampamento antes de o movimento ser, definitivamente, extinto.
Nas semanas seguintes, a Serra do Caparaó virou praça de guerra, muito mais por pirotecnia das tropas da repressão do que por qualquer outro motivo. Todos os guerrilheiros já estavam presos, mas a serra foi bombardeada e invadida por mais de 3 mil homens de unidades do Exército de Minas, Rio de Janeiro e Espírito Santo, com o apoio da tropas das Polícias Militares do Espírito Santo e Minas Gerais.
Nos anos seguintes, o Exército ocupou a região com sua Ação Cívica Social (Aciso), que recrutava profissionais civis, como mécicos e dentistas, para dar atendimento de graça e ganhar a simpatia da população para o regime militar, que começava a endurecer, com a escolha de Arthur da Costa e Silva para suceder ao Marechal Castelo Branco.
Para conseguir chegar com segurança ao último acampamento da “primeira guerrilha contra a ditadura”, os militares precisaram dos “olhos” de homens que conheciam bem a região, o principal deles o guarda florestal Joverci Emerich, que morreu na última terça-feira e foi seputado nesta quarta-feira, dia 24 de março, em Alto Caparaó-MG.
A primeira reação de quem combateu o regime militar será “odiar” Joverci, mas é preciso vê-lo no contexto em que vivia e que demonstro no meu livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” (Editora Boitempo, SP, 2007), ganhador do Prêmio Vladimir Herzog e finalista do Prêmio Jabuti. Joverci era de tradicional família presbiteriana, como a maior parte dos moradores da cidade naquela época. Politicamente, era conservador e ignorante sobre os novos fatos da vida nacional.
Levou a repressão ao acampamento da guerrilha achando que estava fazendo um grande bem à nação. Também, não tinha muita escolha. Era funcionário público, guarda florestal do Parque Nacional do Caparaó, criado em 1961. Mesmo tendo, involuntariamente, colaborado com a repressão, por muito pouco não foi envolvido pelo regime como “colaborador da guerrilha”, como muitos moradores das cidades vizinhas.
Quando o entrevistei para meu livro, Joverci já se convalescia de um derrame. Deu-me valiosas informações e uma filha dele me cedeu fotos que aparecem no livro. Ingenuamente, ele perguntou-me: “O que eles queriam aqui mesmo?”
Apesar de colaborar com a repressão, Joverci teve sua conduta exaltada por todos os guerrilheiros. Amadeu Felipe, o comandante militar, disse-me que o guarda “teve um comportamento decente”. Avelino Capitani, que estava muito doente na época, confirmou-me a história do isqueiro, que Joverci mostrou-me e disse ter recebido dele. Foi um presente de Avelino no momento da prisão, quando o isqueiro caiu de seu bolso e, gentilmente, Joverci abaixou-se, apanhou o objeto e o devolveu ao guerrilheiro.
Pouco a pouco, os personagens dessa história, ocorrida entre 1966 e 1967 na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais e no nascimento do mais longo período de arbítrio da política brasileira, vão morrendo. Mas os fatos ficam para contar história.

José Caldas da Costa – jornalista, escritor, professor do Departamento de Geografia da Ufes

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15 Comentários leave one →
  1. Robson Septimio permalink
    25 de agosto de 2010 12:33

    O Pico da Bandeira reserva muitas surpresas desde seu relevo, vegetação, fauna e ainda seres humanos que fazem a historia.
    Bela abordagem deste persanagem que mesmo ajudando a repressão foi compreendido pelos guerrilheiros.

  2. Luiz José F. Leal permalink
    27 de agosto de 2010 20:20

    Estive na Serra do Caparaó em Julho de 1967 com alguns amigos montanhistas e conheci o sr. Emerich, que muito gentilmente nos autorizou a prosseguir até o pico da bandeira.
    Dava para perceber o grande aparato montado pelos militares e só conseguimos prosseguir após passar por uma revista e interrogatório sendo decisivo para nossa liberação a boa vontade do sr. Emerich.
    Apesar das recomendações para não tirar fotos, tenho algumas fotos do avião do exército que havia caido alguns dias antes de nossa chegada.
    Vou comprar o livro.
    Um abraço!

  3. Diogo Emerick permalink
    10 de setembro de 2010 8:15

    Caparaó, Um lugar muito bonito e de muitas histórias,
    Juverci “era” irmão do meu avô, e sobre a guerrilha meu avo tambem estava lá, ele sempre me conta as histórias sobre o avião e sobre os soldados, e tambem mostra as fotos dos guerrilheiros presos, e de muitos que la estiveram, quando contei sobre a reportagem ele se emocionou, pois não pode ver o irmão pela última vez.

    Também vou comprar o livro.

    um abraço.

  4. Itamar permalink
    1 de abril de 2011 15:18

    Casualmente, entrei neste site e confesso que qachei interessante, vez que, há como opinar. É preciso deixar bastante claro que este pessoal torturado no durante os Governos Militares,estavam tentando uma revolução armada para implantar no país um regime Socialista, apoiado por Cuba e União Soviática e estes revoltosos também praticaram terror, matando, assaltando, sequestrando etc. O golpe Militar a pricípio, era para não deixar ser impolantado neste país um regime ditatorial, porém os Militares tiveram que caçar os revoltosos. Temos que levar em consideração que hoje vivemos numa situação bem pior que aquela época,pois, so eram caçados quem opunha, hoje vivemos presos em nossas casas com fortes aparatos de seguranças, como cercas elétricas, grades circuitos internos, etc e as empresas privadas do setor de segranças faturando alto, enquanto nosso parlamento só aprovam leis que relaxam as leis existentes que por interesses deles (políticos) , já são frouxas. O interesse de nossos parlamentares é que continue assim, eles so se preoucupam com os interesses particulares e excusos. Democracia é o que vivemos na atualidade? Corrupções de cima para baixo e ninguém fica preso ou mesmo devolve aos cofres públicos. Não há interesse desses políticos em aprovação de uma nova legislação Penal, Processual….por que? è preciso mudar a lei maior e dar fim a esta tal de IMUNIDADE PARLAMENTAR”, QUE NA REALIDADE É IMPUNIDADE. Sou sim, favorável a um regime duro onde todos seriam julgados por leis duras e se condenados, fossem para a cadeia. A situação é revoltante, como funcionário público, tenho IR retido na fonte, trabalho em dois serviços para poder custear a faculdade de minhas filhas, enquanto o Governo gasta o dinheiro de meus impostos sem retorno e o pior vendo esses políticos aumentarem seus salários a vontade, guardando grana em cuecas etc…. e alguém ficou preso?

    • marcos permalink
      17 de novembro de 2012 23:37

      Ditadura ruim só a dos outros, não é? A de sua turma é “necessária” e boa…

      • 18 de novembro de 2012 8:52

        Marcos, sou apenas um jornalista que resgatou um fato histórico. Em nenhum momento vc verá meus textos defendendo ditaduras ou qualquer outra coisa que não seja a democracia. A História não comporta “se”, ela reporta-se a fatos. Agora, infelizes dos que não aprendem com os erros dos outros, seja na vida pessoal ou como nação. Ditadura nenhuma presta, nem a dos militares brasileiros, dos militares latino-americanos, nem a de Chaves, nem as do Leste europeu… “se” (este “se” é com muitas reservas) por acaso tivéssemos vivido uma ditadura de esquerda, possivelmente vc me veria hoje escrevendo sobre fatos contra ela. Respondo em respeito ao seu direito democrático de se manifestar.

  5. Itamar permalink
    1 de abril de 2011 15:22

    Casualmente, entrei neste site e confesso que qachei interessante, vez que, há como opinar. É preciso deixar bastante claro que este pessoal torturado no durante os Governos Militares,estavam tentando uma revolução armada para implantar no país um regime Socialista, apoiado por Cuba e União Soviética e estes revoltosos também praticaram terror, matando, assaltando, sequestrando etc. O golpe Militar a pricípio, era para não deixar ser impolantado neste país um regime ditatorial, porém os Militares tiveram que caçar os revoltosos. Temos que levar em consideração que hoje vivemos numa situação bem pior que aquela época,pois, so eram caçados quem opunha, hoje vivemos presos em nossas casas com fortes aparatos de seguranças, como cercas elétricas, grades circuitos internos, etc e as empresas privadas do setor de segranças faturando alto, enquanto nosso parlamento só aprovam leis que relaxam as leis existentes que por interesses deles (políticos) , já são frouxas. O interesse de nossos parlamentares é que continue assim, eles so se preoucupam com os interesses particulares e excusos. Democracia é o que vivemos na atualidade? Corrupções de cima para baixo e ninguém fica preso ou mesmo devolve aos cofres públicos. Não há interesse desses políticos em aprovação de uma nova legislação Penal, Processual….por que? è preciso mudar a lei maior e dar fim a esta tal de IMUNIDADE PARLAMENTAR”, QUE NA REALIDADE É IMPUNIDADE. Sou sim, favorável a um regime duro onde todos seriam julgados por leis duras e se condenados, fossem para a cadeia. A situação é revoltante, como funcionário público, tenho IR retido na fonte, trabalho em dois serviços para poder custear a faculdade de minhas filhas, enquanto o Governo gasta o dinheiro de meus impostos sem retorno e o pior vendo esses políticos aumentarem seus salários a vontade, guardando grana em cuecas etc…. e alguém ficou preso?

    • 1 de abril de 2011 17:05

      Itamar, estou publicando sua opinião por absoluto respeito ao seu direito de tê-la, embora não concorde com a linha de raciocínio.
      O moderado

      • Rubens permalink
        3 de janeiro de 2012 15:38

        Senhor José Caldas, o senhor pode até defender a guerrilha de Caparaó, porém, assim como o senhor defende, nós também temos o direito de ser contra essa esquerda reacionária que queria impor no país uma ditadura comunista. Se o exército foi um tanto cruél, os esquerdistas não o foram menos. Se o exército usou da força até com excesso, os esquerdistas também matavam. então vamos ser mais moderados já que os excessos foram de ambos os lados.

    • Rodrigo permalink
      16 de maio de 2014 16:36

      “O golpe Militar a pricípio, era para não deixar ser impolantado neste país um regime ditatorial”, e qual regime que foi implantado pelos militares????

  6. Sérgio Prieb permalink
    9 de maio de 2011 10:30

    Li o seu livro sobre Caparaó e achei sem dúvida o melhor resgate daquele movimento revolucionário. Uma dúvida surgiu na minha cabeça:Saberias me informar se o rapaz que morreu no presídio de Juiz de Fora, Milton Soares de Castro é de Santa Maria ou de Pelotas? O livro de Gilson Rebello fala em Santa Maria, o livro de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, “Dos filhos deste solo – mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado”, fala que ele era de Santa Maria. Já no livro do José Caldas da Costa, citando uma fala do Araken, diz que ele era de Pelotas, o mesmo ocorre no final do filme do Flavio Frederico que afirma que ele era de Pelotas. Para mi é muito importante saber porque isto é muito pouco falado, seria o primeiro caso de um santamariense morto pela ditadura, se confirmado poderia ser feito até uma homenagem a ele aqui em Santa Maria, resgatando um pouco da história deste herói nacional que morreu em circunstâncias até hoje não explicadas e que é completamente desconhecido em sua cidade. Parabéns pelo livro. Grande abraço

  7. Francelino Ferreira Júnior permalink
    5 de agosto de 2011 23:54

    Mais importante do que resgatar um pouco de nossa história, é relevar e reconhecer a participação da PMMG, Bicentenária Milícia de Tiradentes, que com garbo e galhardia, soube conduzir e bem a situação, contribuindo sobremaneira para que tais fatos entrassem para os anais história brasileira e quiçá, mundial…

    Francelino, Sgt PM

  8. 16 de outubro de 2012 17:43

    Estamos numa “democracia” em que assassinos, ladrões, suas mulheres e filhos recebem polpudas indenizações de R$500.000,00 reais e 12.000 mil, por mês, e os caras que neste momento estão abrindo uma valeta em frente à minha casa, para ligar água na casa vizinha, ganham 600 e poucos reais! Tem ainda turma do mensalão!

  9. alvaro querino permalink
    10 de fevereiro de 2013 18:55

    EU MORAVA EM MANHUAÇU, E TINHA 10 ANOS. CHEGOU UM CAMINHÃO NA PORTA DO HOSPITAL COM MUITA GENTE MORTA E MUITA GENTE BEM FERIDA, TODOS AMONTOADOS NA CARROCERRIA. EU SUBI E VÍ ESTA CENA DANTESCA. NUNCA ESQUECI. ERA MUITA GENTE, E TALVEZ HOUVESSEM OUTROS, EM OUTROS CAMINHÕES. LEMBRO-ME QUE O HOSPITAL E O NECROTÉRIO FICOU LOTADO. QUEM ERAM E COMO MORRERAM? QUEM PODE FALAR SOBRE ISTO?

  10. Geraldo permalink
    3 de março de 2013 16:02

    Sou Caparaoense nascido em Alegre, nos contrafortes da Serra do Caparaó Capixaba, assim como Caldas. Também, assim como ele, me intriga, ainda o tema sobre a Guerrilha do Caparaó, mesmo depois de ler seu livro, de ver o filme do Flávio Frederico. Minha inquietação aumenta na medida em que conheço pessoas, como “Seu” Deuzedino, morador aqui da Serra e que , de certa forma , teve sua família abrigada a abastecer de víveres os militares, quando da investida contra os ‘guerrilheiros’. Há, assim como o Sr. Joverci, outros protagonistas dessa guerrilha que ainda não tiveram oportunidade para somarem á História…..

    Também me incomoda quando ‘demonianizamos’ o regime militar e seus métodos, e quando, passivamente, nos silenciamos, de certa forma em cumplicidade diante de um povo que – ainda e cada vez mais – morre de fome, de doenças, por hospitais sucateados; com uma educação que melhorou índices, mas que está longe de ser contextualizada e eficaz pora atender a organismos internacionais; com má distribuição de renda, com políticas públicas capitalistas, com atenção ao aumento da produção agrícola, mas atendendo quase que somente ao agronegócio e com parcos investimentos á agricultura familiar; com intimidações ás informações midiática; com leis ambientais tendenciosamente absurdas e unilaterais, ignorando assim, a necessidade de termos ambientes de qualidade como princípio básico para viver e sobreviver….

    Caldas está aqui perto. Estou dentro do espaço onde ocorreu a Guerrilha. Espero que a verdade sobre essa linda parte da História do Brasil ainda esteja só começando. Se é verdade que a Guerrilha foi mal sucedida, é verdade também que outros momentos de ‘incusesso’, um dia derrubaram o regime militar…..

    Grato Caldas pelos esclarecimentos e desaniviação dos fatos. Oxalá possamos ter a oportunidade de uma segunda edição do sua pesquisa ética.

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