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DEZ MILHAS, O RECOMEÇO DA VIDA

17 de junho de 2010

José Caldas da Costa

 Fiquei inspirado de novo a tocar nesse assunto, depois que comecei a acompanhar o esforço de três colegas jornalistas capixaba – Julius Cezar, Marcela Reis e Thierry Gozzer – para quebrarem a letargia e darem um novo sentido à vida, começando por uma preparação para as Dez Milhas Garoto.

Ao relembrar o mesmo momento que eu vivi, há oito anos, espero poder inspirá-los a seguirem em frente e a superarem todos os obstáculos que surgirem. E, mais importante do que isso: a fazerem desse desafio a oportunidade para um recomeço definitivo, o que implica em uma completa mudança de atitude, que é um processo por toda a vida.

Jamais esquecerei a data de 21 de maio de 2002. Eu havia, seis meses antes, pedido demissão de meu seguro emprego em A Tribuna movido por uma profunda insatisfação pessoal com meu estilo de vida. A rigor, entre a constatação de que algo estava indo muito mal em mim, a tomada de decisão de mudar e a efetiva concretização do processo de mudança, foram exatos 12 meses.

Um ano antes, portanto em maio de 2001, incentivado por um ex-aluno de Escola Dominical nos anos 80, quando eu congregava na Igreja Batista da Glória, fui participar de um treinamento de desenvolvimento pessoal de três dias nas montanhas capixabas. Naquele treinamento, tive um reencontro comigo mesmo. E nada marcou mais isso do que a imagem que vi de mim num espelho de corpo inteiro numa sala em penumbra, com a coach perguntando, por trás de mim: “O que você está fazendo com esse homem?”

Levei um tremendo susto, porque eu nunca havia visto, de maneira tão clara, o que eu havia feito com minha vida, o que estava demonstrado na minha silhueta no espelho. Eu, que passei a juventude inteira no interior, entre peladas de futebol, aventuras de bicicletas, brincando de pique salva e, nos intervalos, estudando e trabalhando, agora era um homem da casa dos quarenta, visivelmente envelhecido, barrigudo e obeso.

Seis meses depois, insatisfeito com minha incompetência para gerir tudo ao meu redor, radicalizei: pedi demissão para cuidar de mim, o que, efetivamente, só consegui começar na data de 21 de maio de 2001, depois de seis meses de terapia para tentar entender o que se passava com a minha cabeça, adestrada por 25 anos vinculado a um emprego.

Naquele 21 de maio, com a ajuda de uma educadora física, fui para a pista da Ufes iniciar meus testes físicos. Trotei 300 metros e abri o bico. Algum tempo depois, quando o pior já havia passado, ela comentou comigo: “Você estava muito mal”.

Para conseguir motivação para suportar aquilo por que Julius, Marcela e Thierry estão passando agora, inscrevi-me num concurso para a Polícia Rodoviária Federal junto com meu filho. Havia feito a prova e corria risco de passar e não queria fazer tão feio na prova física (não fazer feio, sinceramente, significava não morrer de infarto no meio dos exames). Umas quatro semanas depois, saiu o resultado, eu não havia passado e ela perguntou-me: “E agora, qual seu objetivo?”

Esta é uma pergunta que a maioria das pessoas prefere não ouvir. Eu também não estava preparado. Por outro lado, sabia, melhor do que personal alguma, que sem objetivos eu não pagaria o preço. Respondi: “Que tal as Dez Milhas?”. Ela sorriu e respondeu: “Faltam 100 dias, vai doer um pouquinho, mas dá para ser”. Doer um pouquinho, uma ova!!!! Só doía quando respirava.

Julius, Marcela e Thierry, não se desesperem. Se eu consegui, vocês conseguem. Encarei uma dura rotina de treinos. De manhã, academia. De noite, correr na praia. Comemorava cada progresso como se tivesse vencido as olimpíadas. Lembro-me de quando corri meus primeiros dois quilômetro e comentei com um empresário, cliente de consultoria, e ele riu: “Correu de carro?”. Como diriam os meninos de hoje: “Yeeeesssss!!!!” Eu já estava superando os limites da maioria das pessoas ao meu redor.

Para encurtar conversa, 100 dias depois eu estava participando da primeira de muitas provas que encarei desde então. Era minha primeira Dez Milhas Garoto, que conclui às lágrimas, com minha família me esperando na linha de chegada. Concluí a prova de 16km, salvo engano, em 1h50 minutos. Depois disso, “viciei”.

Com a ajuda do programa nutricional que adotei e que há sete anos eu continuo utilizando e que, pelos benefícios que me trouxe, passou a fazer parte de minha vida para sempre, emagreci 23kg e foram muitas provas, como Maratona de Revezamento e Meia Maratona do Rio, Volta da Pampulha, diversas corridas rústicas no Estado. Minha vida virou uma festa.

 Hoje, sou uma pessoa renovada aos 50 anos de idade e desejo isso para meus colegas Julius, Marcela e Thierry. Cuidem bem das lesões, encontrem o ponto de equilíbrio, respeitem vossos limites, mas jamais deixem de dar um passo à frente. Se parar, o vento do fracasso empurra para trás e tem que começar tudo de novo. As dores fazem parte do crescimento do novo ser que nasceu dentro de vocês no momento em que decidiram encarar o desafio.

Minha aventura mais recente foi percorrer 22km na Serra do Caparaó, da 6 da noite de um sábado às 10 da manhã do domingo, sem dormir, e três dias depois estar em Ecoporanga, com um grupo de amigos, percorrendo mais 18km.

Zona de conforto nenhuma substitui a qualidade de vida que adquiri e, melhor ainda, passei a compartilhar com minha família, contribuindo para uma mudança completa em nosso padrão existencial.

Depois de superar o desafio de minha primeira Dez Milhas, escrevi e publiquei um artigo que foi o mais impactante de minha vida. Um ano depois, ao final da prova, na qual voltei a participar, as pessoas vinham falar comigo que decidiram mudar a vida delas depois que leram meu artigo “De zero a dez milhas em 100 dias”.

Melhor do que mudar a si mesmo é perceber que, com isso, você está mudando o próprio ambiente ao seu redor e contribuindo para que o mundo seja feito de pessoas mais felizes. Sucesso, sempre.

 José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor no Departamento de Geografia da Ufes

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One Comment leave one →
  1. Thierry Gozzer permalink
    11 de julho de 2010 12:40

    Fala Jose, que bacana o texto. Nao liga para a minha escrita, estou em um notebook do centro de imprensa da Fifa, sem nossa gramatica hehehe…e final de Copa, e antes do jogo dei uma procurada no meu nome pelo google. Achei seu texto. Obrigado pelo apoio. Quem sabe nao nos encontramos nas Dez Milhas. Um abraco!

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