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DE VOLTA DA MONTANHA, COPA E ELEIÇÕES

4 de julho de 2010

José Caldas da Costa

Desci da montanha. Lá no alto permite-se uma visão privilegiada somente a quem ousa pagar o preço da subida. Na planície, somos todos iguais. E estamos de novo na planície. A Copa do Mundo não existe mais para nós, brasileiros. Começa, agora, a caminhada para uma coisa sem a menor importância: as eleições, que nos apontarão quem governará o País e o Estado pelos próximos quatro anos. Mas isso não tem a menor importância.

Acostumamo-nos com a ilusão do indulto, aquela estranha euforia, descrita por Vicktor Frankl, que acomete, na última semana de vida, a todos os condenados à cadeira elétrica. A maioria deles senta-se na cadeira elétrica eufóricos, porque mantém a ilusão de que, antes de a chave da morte ser acionada, receberá o indulto do presidente da República, o único, a essas alturas, a ter a autoridade sobre a vida do condenado (pelo menos é assim nos Estados Unidos).

A nossa Seleção jogava um futebol trivial, mas acreditávamos que dava para sermos campeões. Afinal, a sorte nos acenava com o cruzamento com selecionados, teoricamente, sem muita competência para nos derrotar. Mas foi só encontrar a competência adversária para cairmos fora.

Há alguns dias, assisti a um documentário na TV Brasil sobre a vida do Zico, para mim, o maior jogador de futebol brasileiro depois do Pelé. Para tornar-se o especialista que era, Zico, além de árduas sessões de fortalecimento muscular, ficava sozinho, ele, a bola, a baliza e uma barreira móvel, horas e mais horas em campo, depois que todo mundo já tinha ido embora. Anoitecia e ele estava lá.

 Zico colocava sua camisa no ângulo reto formado entre o travessão e o poste da baliza e desafiava-se, com a barreira móvel como obstáculo, a tirar a camisa dali chutando a bola de média distância. Na hora do jogo, era só mentalizar e repetir aquilo que já havia feito exaustivamente. E foi assim que se tornou o grande atleta que foi, aliado ao grande ser humano que é.

Amanheço neste sábado chuvoso de Vila Velha e minha mulher repassa-me a história do grande jogador de basquete norte-americano Michael Jordan, contada por um desses pregadores eletrônicos.  Disse o pregador ter ouvido a história do próprio Jordan.

Quando decidiu que queria jogar basquete na escola, Michael Jordan foi desprezado pelo técnico. Não conseguia acertar a cesta e ainda era alvo de chacotas por ser muito magro. Ele não se curvou à dificuldade. Passou a ir de madrugada para a quadra da escola, onde somente tinha como companheiros os ratos, as baratas e o silêncio quebrado pelo quicar da bola no piso frio e pelo barulho da tabela agredida ou da cesta ultrajada inúmeras vezes.

Michael Jordan treinou intensamente, sozinho, os arremessos de todas as distâncias. Insistiu com o técnico que queria jogar no time e estava no banco de reservas de uma das partidas, só para fazer número, igualzinho a vários jogadores de nossa Seleção ou a inúmeros candidatos que estão nas listas das próximas eleições. Somente para fazer figuração.

Acontece que as coisas foram ocorrendo, e Michael estava lá. De repente, jogo duro, o time da escola perdeu mais um jogador contundido e não havia mais ninguém para o técnico colocar em quadra, a não ser Michael Jordan. E vieram as instruções: “Quando você receber, passa a bola, não arremessa, porque você não sabe arremessar”. Na quadra, jogo disputadíssimo, Michael Jordan recebeu a bola, a decisiva bola. E o técnico berrava: “Passa, passa…”

Naquele momento, Michael Jordan lembrou-se de suas madrugadas, dos seus companheiros ratos e baratas, dos exaustivos arremessos, das inúmeras vezes em que errou até começar a acertar. Cheio de confiança, que somente acompanha aos preparados, arremessou. Cesta. E o time venceu, sem que ninguém, a não ser ele e seus companheiros de solidão das madrugadas, soubesse como aquele “menino incompetente” havia conseguido encestar, de tão longe, uma bola tão difícil. Quando a oportunidade apareceu, Michael Jordan estava preparado. Quando a oportunidade apareceu, Zico estava preparado. 

Desci da montanha. Na planície somos todos iguais. Preparar-se é uma decisão de cada um de nós. A Seleção perdeu a Copa da África do Sul porque havia algum time mais bem preparado, sob todos os aspectos, para aquele momento. E assim têm sido as lições da África.

 Como explicar o atacante ganês chutando no travessão o pênalti no último minuto da prorrogação contra o Uruguai? Como justificar a aparente falta de ética esportiva e “irresponsabilidade” do atacante uruguaio, no último minuto da prorrogação, salvando com as mãos o gol certo do ganês?  Expulso, o jogador uruguaio entrou em desespero, mas saiu dele em exatos 74 segundos, quando a bola chutada pelo atacante explodiu contra o travessão e se perdeu fora da meta.

O desfecho da história, sabemos: veio  a série de pênaltis e os descomprometidos uruguaios, sem a carga de ter que levar nas costas um continente inteiro, saíram-se melhores. O aparente erro do atacante, agindo como goleiro, transformou-o num heroi. Errar faz parte da preparação para a vitória. Há que se estar disposto a perder para se conseguir ganhar.

Desci da montanha. Confesso que não acredito no que encontrei, o aparente antagonismo das candidaturas postas para o governo do Estado. Jamais posso me esquecer de uma frase que ouvi do, então, prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas, quando eu respondia por uma coluna política num jornal do Estado e, ingenuamente, acreditava na aparente divergência entre ele e o então senador Paulo Hartung: “Engana-se quem aposta que eu e o Paulo venhamos a brigar”.

Hoje, depois de tudo o que já vi, ouvi e vivi na política capixaba, não quero me enganar de novo. Há uma máxima da concorrência comercial que diz que, antes que seu verdadeiro concorrente apareça, crie você um. As pessoas são movidas pela emoção de ter que se posicionar. 

O senador Renato Casagrande deu sorte – ou, na verdade, apresentou-se preparado quando a oportunidade lhe surgiu? – ao colocar-se na fila para disputar o governo do Espírito Santo. Exerceu gravidade e usufrui da velha máxima: antes que o verdadeiro concorrente apareça, crie um. Para quem quiser entender.

 Assim como os candidatos, os eleitores também precisam estar preparados quando surge a oportunidade de escolher seus dirigentes. Este ano as eleições são pesadas. Além de Governo e Presidência da República, vamos dar dois votos para o Senado e mais um para deputado estadual e federal. Com os inúmeros canais de informação de hoje em dia, não há mais desculpa para votar em gente com ficha suja.

ESTE ARTIGO, E MUITOS OUTROS, PODE SER VISTO TAMBÉM NA REVISTA ELETRÔNICA WWW.SECULODIARIO.COM.BR

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