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PEQUENO ENSAIO SOBRE A MORTE OU O JARDIM NO INFERNO

5 de julho de 2010

José Caldas da Costa

Sempre pensei em minha morte não como aquele momento em que as pessoas caíssem em prantos, mas como uma solenidade, onde as pessoas pudessem refletir sobre o que fiz e se inspirassem nisso para continuar vivendo. Penso em minha morte não como um fim, mas como recomeço, para mim e para quem fica.

O problema é que nunca havia encontrado algo semelhante ao que idealizei. Nunca havia encontrado até o último domingo, quando deixei de ir ao culto matinal para levar minha esposa a um bairro da periferia da Grande Vitória para um funeral.

Na véspera, havíamos recebido o comunicado de que o pai de nossa diarista havia morrido. Primeiro, estranhei o fato de ter sido comunicado. Segundo, fomos alertados por nossa filha de que, se ela havia insistido em informar o fato e, depois, o horário do sepultamento, é porque fazia questão de nossa presença. Rumamos, então, por insistência de minha esposa, para o endereço do falecido.

Meia hora depois, estávamos em Planalto Serrano, bairro nascido nos anos 80 da invasão de um conjunto de casas populares, que estavam prontas, mas que o governo não distribuía – e olhem que era um período no qual demanda não faltava.

Numa noite, milhares de pessoas, organizadamente, invadiram as casinhas e deram ao lugar o nome de Marajá. Nada mais apropriado para denominar um bairro pelo qual, diretamente, nada se pagara, diante da conotação que havia obtido no Brasil o nome da abastada casta de indianos.

Alguns anos depois da invasão, os ocupante passaram a vender para terceiros aquilo que nem mesmo eles possuíam. Estrangeiros de sociedades mais organizadas, e mesmo brasileiros das novas gerações, talvez não entendam bem como alguém pode vender algo que não tem, mas não se espantem: o Brasil, até alguns anos atrás, era assim mesmo. Se é do governo, é meu; se é meu, ninguém tasca, eu vi primeiro.

Não me venham discriminar os pobres e atribuir-lhes esta anomalia. Quem primeiro tomou o que era dos outros por aqui não tinha nada de pobre. E não precisa ir muito longe, aos tempos de chegada dos portugueses e, logo depois, na distribuição das Capitanias Hereditárias.

Já no século XX, até dias bem recentes, as chamadas terras devolutas, assim denominadas as porções do território nacional sobre as quais nenhum particular possui título de posse, eram invadidas.

Quando por levas de pobres desapossados, eram posseiros; quando por ricos donos de outras propriedades, guarnecidos ora por jagunços, ora por agentes públicos, eram os grileiros. Se sobre as terras já houvessem posseiros, eram expulsos com violência pelos novos invasores, em busca de mais propriedades que lhes conferissem ainda mais poder político.

Esses conflitos eram muito comuns nas grandes porções de terra existentes no Norte do País e, aqui no Espírito Santo, nos vastos platôs do extremo Norte do Estado, próximos às divisas com a Bahia e Minas Gerais. Então, os invasores do Marajá não inventaram nenhuma novidade.

 Foi uma dessas casas que Anivaldo comprou no início dos anos 90, quando veio de Pancas, na região Noroeste do Espírito Santo, para a região de Vitória. E foi nessa casa que viveu com sua companheira, completando 51 anos de casamento, até morrer aos 78 anos de idade.  

Quando chegou, Anivaldo foi morar no meio do inferno. Muita gente decente, como Anivaldo, foi morar no Marajá, mas a invasão e a ausência do Estado criaram o ambiente social adequado ao controle do bairro por grupos marginais, assaltantes, traficantes de drogas, pistoleiros, desocupados em geral.

Mesmo depois que trocaram o nome de Marajá para Planalto Serrano, como fizeram com o Cantinho do Céu, que virou Central Carapina, o problema não acabou. Esses bairros periféricos são a escória da explosão industrial do Espírito Santo, ocorrida nos anos 70 e 80, que elevou a população da Grande Vitória de 200 mil habitantes para os atuais 1,6 milhão de moradores. Crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) sem acompanhamento do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Pois lá fomos nós para o funeral de Anivaldo, em homenagem à nossa diarista. Fui recebido na nova pracinha bem cuidada do bairro (sinal dos tempos?) pelo Zé, marido dela. Cheguei como um estranho à casa, olhei o corpo inerte do homem que não conheci em vida e adentrei a casa humilde, sendo “puxado” para o quintal. Foi, então, que encontrei uma maravilha surpreendente.

Nos fundos da casa, um quintal bem cuidado, com um jardim misturando flores, árvores frutíferas e hortaliças de uso diário. Surpreendi-me, especialmente, com a limpeza e organização. A passarela, igualmente limpa, feita de blocos hexagonais de cimento, atravessando o paraíso e levando ao portão da divisa com a enorme área comum d´além muros.

Uma mangueira esguia erguendo-se sobre as demais plantas. Os canteiros, de forma irregular, sem quinas, cercados com garrafas pets enterradas pela metade. Havia flores em algumas plantas, mas a principal orquídea que parasitava a mangueira estava bem cuidada e sem flor alguma. Sobre o corpo inerte, três flores lilás, filhas de uma das muitas mudas de orquídea que ele havia presenteado a quem gostava. As três flores murchariam junto com ele. Somente vi isso mais tarde, ao voltar à pequena varanda onde ocorria o funeral.

Ainda no quintal limpo e bem cuidado, perguntei ao Zé quem cuidava daquilo e ele respondeu, lacônico: “Era ele”. E completou dizendo que do alto daquela mangueira o Anivaldo caiu há sete anos sobre uma lata de terra e, devido ao acidente, ficou impossibilitado de andar. Sua preocupação, confidenciou-nos a filha, não era com os danos que sofrera na queda, mas com os danos causados à planta que estava na lata sobre a qual despencara.

Após vários dias no hospital, Anivaldo passou a circular em uma cadeira de rodas. Assim, entendi as “ruas” largas entre os bem cuidados canteiros. Anivaldo não desistiu de seu projeto, mesmo sobre a cadeira de rodas. Passava o dia em seu jardim. Estendia a enxada e tirava cada mato que teimasse em invadir o ambiente. Aos lugares onde a cadeira de rodas não podia entrar e que seus braços não alcançavam para tirar as plantas invasoras, Anivaldo chegava arrastando-se sobre muletas. Foram sete anos assim e seu jardim continuava bem cuidado.

Os últimos meses foram de extremo sofrimento. Foi acometido de um câncer no estômago, que se espalhou por metástase. Sofria com dores e a falta de alimentação. Não conseguia mais ingerir nada, mesmo assim achava forças no imponderável para cuidar de seu jardim. Seus últimos quatro dias foram no leito de um hospital, mas nesse período não nasceu um mato sequer em seus canteiros. Talvez reverentes à ausência forçada do jardineiro.

Zé, o genro, observou: “Acho que ele construiu aqui o paraíso dele”. Sim, um paraíso com um jardim em meio ao inferno do caos urbano. Uma doce homenagem à vida, que valorizou em cada gota de suor ou lágrima, e a cada suspiro ofegante, e a cada centímetro quadrado de seus canteiros.

A história de Anivaldo, e sua fiel companheira de tantos anos, levou-me a refletir também se fazemos bem em abrigarmos, em nossas próprias casas, os nossos pais em sua velhice, em vez de destinar-lhes um espaço somente seu, onde possam viver e encontrar sentido para isso.

Refleti se a nova cultura de os filhos abrigarem em suas casas seus pais na velhice não seria uma forma de purgar a consciência social diante da indigesta medida do modo de produção da Revolução Industrial de reunir em asilos os idosos depois de passarem a vida inteira produzindo riquezas para os outros.    

Refleti se melhor não seria um sistema que lhes permitisse assistência constante, num espaço somente seu, onde pudessem ir e vir sem se sentirem incomodados, onde as coisas pudessem lhes fazer sentido. Onde pudessem construir um jardim somente seu, conversar com as plantas, dando e recebendo cuidados.

Um sentido existencial somente possível aos que compreendem que, acima e além de tudo, o bem maior é a vida, que nos é dada e tirada aleatoriamente ao nosso desejo; a quem adota a simplicidade; aos que vivem pela vida como um fim em si mesmo.

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