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CORONEL X CORONEL: A ELITE DA TROPA NO ESPÍRITO SANTO

11 de outubro de 2010

José Caldas da Costa

Em tempos de aclamação popular, com votação recorde para deputado estadual dada a um investigador da Polícia Federal transformado em paladino do combate ao crime organizado no Espírito Santo, e de lançamento da super-produção cinematográfica Topa de Elite 2, que, segundo seu autor, se propõe a penetrar as entranhas dos relacionamentos entre políticos x crime x instituições de segurança, ouso colocar o tema em discussão, aproveitando um outro viés.

O governo José Ignácio estava no fim. A única coisa que parecia lhe salvar era o programa de segurança elaborado por um grupo de jovens oficiais idealistas da Polícia Militar, que conseguiu restabelecer o controle do Estado sobre os presídios e acabar com a onda de assaltos a banco na Grande Vitória com seus “corredores de segurança”, depois copiados Brasil afora.

As tais UPPs (Unidades Policiais Pacificadoras), do Rio de Janeiro, nada mais são do que uma versão aperfeiçoada e adaptada daquilo que os oficiais policiais militares do Espírito Santo haviam implantado no conturbado governo ignacista. Tudo a partir da visão de polícia comunitária ou polícia interativa adotada por ideologia do, então, capitão Júlio Cezar Costa com o seu “laboratório” na companhia da PM em Guaçuí, no Sul do Estado. O resto é história.

Pois bem. Por força de situações diversas, uma delas o trabalho voluntário que eu exercia em benefício daquilo em que eu sempre acreditei, a prevenção antes da repressão, passei a ter um contato muito forte na, então, cúpula da PM. Foi por isso que, já eleito o novo governo, que agora está se findando, recebi uma mensagem do, então, vice-governador eleito Lelo Coimbra, nos últimos meses de 2002: ele queria que eu mediasse um encontro com os oficiais da PM. O futuro governo temia ser sabotado pelos oficiais.

A essa altura, eu já não trabalhava na redação de A Tribuna, mas, sim, com uma pequena empresa de consultoria em comunicação. Fui falar com o, na época, tenente coronel Júlio Cezar, que mandou um recado ao vice: “Diga ao vice-governador que somos servidores do Espírito Santo e não de um governo. O povo do Espírito Santo continuará tendo a lealdade da Polícia Militar no futuro governo”.

Promovemos um encontro no Hotel Senac, na Ilha do Boi, de todos os oficiais do grupo com o vice-governador Lelo Coimbra. Eu e Lelo, hoje deputado federal reeleito, éramos os únicos civis no encontro e testemunhei um momento histórico: a garantia de lealdade daqueles que, logo no início do novo governo, começariam a ascender aos postos mais importantes da PM capixaba. O tenente coronel Júlio Cezar, talvez por respeito à patente dos coronéis e lealdade ao governo que estava se findando, não foi. Mas tinha impressionante ascendência mesmo sobre oficiais de patente superior à dele.

Foi graças a esse relacionamento, baseado na busca do interesse comum da população capixaba, que recebi algumas semanas depois novo recado de Lelo: estaria sendo fechada, a toque de caixa, por alguns milhões de reais, a compra de um equipamento chamado “guardião” e que seria capaz de não deixar tranqüilo quanto à privacidade mais nenhum usuário de telefone no Espírito Santo.

Encontrei numa solenidade o, então, tenente coronel Antônio Carlos Coutinho e perguntei o que estava havendo, falando-lhe da preocupação de Lelo. “Quem sabe disso é seu sobrinho”, remetia ele ao Júlio Cezar Costa, casado há décadas com uma de minhas sobrinhas. Procurei, imediatamente, o Júlio, que me disse não saber de nada, mas me pediu 24 horas. Em menos tempo que isso ele me procurou: “Avisa ao vice-governador que a operação está desmontada. Ele pode ficar tranqüilo”.

Eu havia conhecido o grupo de oficiais por ocasião das reuniões do Pro-Pas e, mais ainda, quando alguns deles assumiram pontos estratégicos na Prodest, empresa de processamento de dados do Estado, com a finalidade específica de colocar fim ao que estaria ocorrendo – segundo o que corria nos bastidores, seria a Prodest uma central de lesa pátria no Espírito Santo: diziam que era lá que, à base de corrupção, sumiam do sistema da Secretaria da Fazenda vultuosas quantias devidas ao fisco estadual por contribuintes desonestos. Uma sangria desatada, que os jovens oficiais da PM, tendo à frente Júlio Cezar, deveriam neutralizar caso fosse mesmo verdade, o que depois soube ser não verdadeiro.

Foi nesse processo que conheci um dos braços direitos de Júlio Cézar, o então major Antônio Carlos Coutinho, único engenheiro de telecomunicações da Polícia Militar do Espírito Santo. Coutinho foi o tempo inteiro prestigiado pelo seu colega Júlio. Trabalhavam e andavam juntos, inclusive em viagens a serviço no Brasil e no Exterior. Frequentavam juntos, muitas vezes, a mesma igreja. Mas nada como o tempo e o poder para colocar (des)ordem nas coisas.

O novo governo assumiu e um de seus primeiros atos foi comprar o tal “guardião”, que passaria a ser o centro das atenções nos oito anos de comando político que se seguiu no Espírito Santo. E Júlio Cezar passou a ser alvo de uma implacável perseguição, boa parte dela capitaneada pelo, então, secretário de Segurança, Rodney Miranda, hoje eleito deputado estadual mais votado da história política capixaba. Enfrentou processos mil de tentativa de desmoralização, mas saiu-se de todos.

Eu me afastei do grupo. Fui cuidar de minha vida, deixei por um bom tempo os meandros políticos. Mas pude acompanhar, ainda que à distância, ao fim da amizade de Júlio e Coutinho, principalmente depois que este, já coronel, foi feito comandante da Polícia Militar do Espírito Santo. Pelo contrário, da amizade anterior nada mais resta a não ser dois inimigos dentro da mesma corporação.

O capítulo mais recente dessa rixa foi escrito há poucos dias, quando vazou para a imprensa a gravação de um telefonema dado pelo coronel Júlio, quando de serviço, à Central de Comunicação da PM, operada por terceirizados, em julho último, na qual fica demonstrado que, num momento de perda de controle verbal, o oficial adotou formas pouco usuais para se referir aos membros da corporação que tanto defende. Este foi seu pecado. Tão logo percebeu a lambança, pediu desculpas publicamente aos seus subordinados. Talvez pela primeira vez na história da quase bicentenária Polícia Militar um oficial superior tem a humildade de desculpar-se publicamente pela televisão diante de seus comandados.

O escândalo que se armou diante da intervenção do coronel em socorro de um advogado, que se sentia ameaçado em sua integridade física e moral, escondeu o verdadeiro calcanhar de Aquiles e o crime principal: o vazamento para a imprensa da gravação feita pelo Ciodes (leia-se: 190, da Polícia Militar) do telefonema dado pelo coronel, quando de serviço estava. Não se vê, em nenhuma parte da intervenção, exceto pelo bravo destempero verbal num dado momento, qualquer fala que sugira que o advogado ficasse sem ser punido pela irregularidade de trânsito. Tomou várias multas, segundo se noticiou na imprensa, e perdeu vários pontos na carteira.

Na gravação, preocupava-se o coronel, tão somente, com a integridade do cidadão, mas irritou-se com o oficial do outro lado da linha e soltou algumas palavras não condizentes com sua posição, mas que são comuns nos treinamentos que recebeu para chegar ao oficialato e no dia-a-dia da caserna.

Pergunto: eu, ou você, ou qualquer cidadão, tendo um contato direto com qualquer oficial, sentindo o iminente risco de arbitrariedade policial, pediria socorro a quem? Ou vamos cantarolar Chico Buarque? “Chama o ladrão, chama o ladrão…”

O destempero verbal do coronel foi, repito, seu pecado, mas ninguém questionou o fato de uma gravação, que é segredo de Estado, ter sido tornada pública de forma clandestina. Isto sim é um crime e a mais absurda ilegalidade, que precisará de investigação do comando da PM, com igual ou maior rigor com que são anunciadas as investigações sobre a conduta verbal do coronel. Quem ousará ligar para o 190 a partir de agora para fazer qualquer denúncia? Estamos todos expostos ao mesmo risco de termos o sigilo quebrado clandestinamente.

A segurança pública no Espírito Santo é caótica. Nunca é demais lembrar que nos últimos oito anos foram assassinadas quase ou mais de 15 mil pessoas no Espírito Santo. Mais de 90% delas com idade entre 13 e 25 anos e de periferia. Esse volume de homicídios significa que nesses últimos oito anos sumiu do mapa uma população de uma cidade como Jerônimo Monteiro. E a comparação é emblemática, pois a cidade leva o nome do maior governador da história do Espírito Santo, segundo o historiador Gabriel Bittencourt.

As páginas dos jornais dos últimos dias revelam crimes cometidos por policiais, ou seja, agindo em nome do Estado. São crimes cometidos pelo Estado capixaba. Estaria o advogado com medo de ser mais uma dessas vítimas, como teria sido um seu colega de OAB, após desastrosa abordagem por um oficial da PM? Mais que luta pelo poder, numa antecipação da disputa de espaço no governo de Renato Casagrande (pelas propostas anunciadas nos programas eleitorais do senador para a área de segurança, Júlio Cézar talvez fosse o homem para comandar a PM), há defesa da honra em jogo.

As manifestações recebidas pelo coronel Júlio, que fez uma série de denúncias de abuso de poder contra seu desafeto e ex-comandante Antonio Carlos Coutinho (notadamente, crimes eleitorais, já que o coronel Coutinho foi candidato a deputado estadual), demonstram que a sociedade está atenta aos fatos. Mas uma das mensagens salta aos olhos.

Chegou de um coronel da reserva, ex-comandante da corporação e não propriamente um aliado de Júlio Cezar: “Acho que você conseguiu junto à opinião pública se sair bem. A quebra do sigilo do sistema operacional da Sesp passado para a mídia corporativa, você estando em serviço, é algo muito sério. Muito mais grave do que qualquer destempero que você possa ter tido. Impressionante como a mídia foi orquestrada para esmagá-lo Coronel. Lembre-se: o juiz Alexandre ousou enfrentar essas forças… e deu no que deu”.

Para bons entendedores, meia palavra basta. E não tem m… que dê jeito na morte.

PUBLICADO, ORIGINALMENTE, NA REVISTA ELETRÔNICA SÉCULO DIÁRIO

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