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ESPÍRITO SANTO PODE VIRAR ESCONDERIJO

29 de novembro de 2010

Durante esta última semana acompanhei com atenção o noticiário dos fatos no Rio de Janeiro, refleti muito, escrevi e reescrevi este artigo várias vezes. A maioria dos bandidos, acuados pela polícia, evaporou, misteriosamente, do Morro do Alemão, quando a região foi ocupada pelas forças de segurança. Para onde foi essa gente?

É bom lembrar que não faz muito tempo que foi descoberta a atuação do traficante Fernandinho Beira-Mar como “investidor” no Estado, tendo contas bancárias em nome de “laranjas” em bancos locais e um empreendimento imobiliário em Guarapari, um prédio cujos apartamentos, na maioria, eram ocupados por policiais militares.

Costumo guardar na memória as informações que me parecem relevantes. Mania de jornalista. Morávamos no Rio há mais de 20 anos quando vi um policial militar, sargento, parente de conhecidos meus, dissimulado atrás de uma gôndola de supermercado, passando uma caixa de munição para uma pessoa que eu não conhecia. Pano rápido.

Há alguns meses, fui a um posto policial num dos bairros de Vitória levar para um amigo, policial militar, um pote de chá verde que ele havia me encomendado. Cheguei num carro que não era o meu e, quando entrei no posto policial, ele se assustou. “Estava vigiando para você não parar na boca de fumo e você aparece em outro carro, meu irmão!”

Com a liberdade de amigos, ri e falei: “Onde é a boca?” E ele apontou para uma casa um pouco mais abaixo, numa curva. Ironizei: “Se você sabe que ali é um ponto de tráfico, por que não fecha?” Agora foi a vez de meu amigo e de seus colegas caírem na gargalhada e me ironizarem: “Inocente! Isso não é assim”.

Então, aquele amigo me relatou que recentes ocupações que haviam sido feitas por policiais em outros bairros, ameaçados por guerras de quadrilha na Grande Vitória, eram apenas uma fachada. Por trás, garantia-me aquele policial, estava a preocupação com o negócio, que pertencia a superiores hierárquicos. E que uma quadrilha inimiga pretendia tomar o ponto – possivelmente, com outros líderes encastelados em algumas posições importantes do Estado.

As informações vão se juntando. Afinal, os últimos anos não deixam dúvidas de que há uma banda podre dentro de todas – eu disse todas – as instituições. De erros em erros, cometidos por autoridades, intencionalmente ou não, e vacilos em vacilos, cometidos pelos cidadãos, como relatado pelo jornalista Cláudio Tognoli no livro “O século do crime”, vai se esgarçando o tecido social. E chega-se a tragédias como as, recentemente, registradas no Rio de Janeiro.

Cada carreira de pó aspirada nas baladas da classe média ou nos escritórios de executivos, cada baseado fumado nas varandas de apartamentos de bairros nobres ou nos becos das favelas, cada pedra queimada nos malditos cachimbos da morte, nos lixões e nas mansões, cada “bala”, cada CD pirata comprado na esquina, cada produto barato de origem duvidosa adquirido pela sociedade de consumo, cada ato desses retroalimenta a cadeia criminosa exposta na guerra civil que se vê nas ruas do Rio de Janeiro.

A pergunta é: quanto tempo vai levar para esse tipo de terrorismo chegar até nós? Imprevisível, como imprevisível é onde será o próximo ataque dos terroristas que descem dos morros, acuados, para espalhar o pânico na população e estabelecer o caso, como admite o secretário José Maria Beltrame, do governo fluminense.

Fato é que, se a reação da bandidagem carioca é uma represália às ações dos órgãos de segurança daquele Estado, como reafirmam os especialistas ouvidos pela mídia, na verdade, então, o Espírito Santo está dominado e imobilizado. Porque aqui os problemas não são menores do que lá. Já se vai o tempo em que a polícia entrava em qualquer bairro e era respeitada até pela bandidagem. Qualquer Zé Mané hoje se acha no direito de receber a polícia a tiros, como ficou evidenciado esta semana no município de Serra.

Ah, tá… minha memória me alerta: não devemos nos preocupar, porque elegemos, com recorde de votos, um xerife para a Assembléia Legislativa. Temos o nosso Rambo e, na emergência, podemos chamá-lo. Como diz minha santa mãezinha, já quase nonagenária, vá lamber sabão prá ver se é bão…

Onde está a inteligência policial, que deveria estar agindo em todas as frentes, mas que foi aparelhada pelo Estado para a todos espionar? Sabiam que o tal “guardião” foi desmembrado e mandado, parte para a Polícia Militar, parte para a Polícia Civil? Os bisbilhoteiros da vida alheia não querem ser apanhados.

Ninguém se iluda. Já existem muitos bandidos no Espírito Santo cooptados por chefões malucos de outros Estados, principalmente do Rio. Quando a coisa por lá apertar de vez, eles vão tomar aqui. A base já está feita, mas nossa segurança apenas reage. E quando o bicho pegar, é bom não estar por perto para ver como é que fica.

Já tivemos exemplos por aqui. Lembram dos ônibus incendiados? Lembram dos carros incendiados em diferentes pontos da cidade, mas com as causas sendo minimizadas pelas autoridades? Lembram que ao final do governo de Vitor Buaiz os presídios eram dominados pelos seus moradores?

Jamais esqueçamos a história para não reviver seus erros. Nos anos 60 e 70, o regime militar, que se apoderou do poder político brasileiro, fez-nos o favor de juntar presos políticos a presos comuns em presídios pelo País afora. Dediquei um capítulo inteiro a esse tema no meu livro “Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura”.  

Os presos comuns aprenderam muito com os presos políticos, principalmente em termos de organização e de tática de guerrilha. Daí nasceu a primeira organização criminosa com sinais desse aprendizado: a Falange Vermelha, que veio a ser constituir no Comando Vermelho. Essa história pode ser melhor conhecida no livro “Quatrocentos contra um”, de William da Silva Lima, o “Professor”, criador da organização, depois de conviver com os presos políticos na Ilha Grande. Agora, o livro virou filme.

Essa lambança foi feita num momento crítico do regime militar, quando criou-se a Lei de Segurança Nacional, na qual estavam incluídos os assaltos a banco, numa tentativa do regime de vender para a opinião pública internacional a ideia de que não havia presos políticos no Brasil, mas, sim, assaltantes de bancos.

O equívoco foi reconhecido pelo brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, um dos expoentes dos anos de chumbo, ele mesmo idealizador de algo que deixaria muito longe as ações terroristas com a qual os atuais bandidos cariocas apavoram a população. Planejou explodir o gasômetro para colocar culpa “nos comunistas”. Coisa de louco, denunciada pelo capitão “Sérgio Macaco”, do Para-Sar, grupo de salvamento que seria utilizado na operação.

Há, circulando na internet, uma carta, que teria sido publicada no jornal O Povo (RJ) – não vi o original e não posso provar -, que, supostamente, teria sido distribuída entre as organizações cariocas, chamadas por eles de “partido”, convocando a uma união contra o Estado. Os termos da carta não valem nem a pena serem reproduzidos para não servir de propaganda, mas, se hoje as organizações criminosas do Rio não se parecem muito com partidos, o mesmo não se pode dizer da principal organização paulista, o PCC.

Vale lembrar que vários chefões do crime passaram pelos quartéis brasileiros. A sigla PQD anexada ao nome de alguns, por exemplo, significa pára-quedista. O crime, hoje, infiltra jovens no serviço militar para serem treinados e até financiam estudantes de Direito para serem advogados do crime, posteriormente.

Faz alguns anos, salvo engano ainda no governo de FHC, que o Exército Brasileiro dispensou 10 mil sargentos antes que completassem dez anos de serviço e adquirissem estabilidade.

Agora, pergunto: num País onde boa parte da população não consegue ter acesso aos frutos do chamado desenvolvimento econômico, jovens de 18 a 26 anos ingressam no Exército como sargentos temporários. Hoje, passam oito anos lá dentro, convivendo com técnicas e táticas militares, e depois serão dispensados. O que eles aprenderam para se reencaixar no mercado de trabalho? Quem vocês acham que adora esse curso especial de formação de quadros?

No meu livro “Caparaó…” narro duas histórias dramáticas: a de Avelino Capitani, um dos líderes da Associação dos Marinheiros do início dos anos 60, e a de Josué Cerejo, sargento pára-quedista da Aeronáutica, ambos expulsos após o golpe militar. Avelino tem uma incrível história de ação armada depois que saiu da prisão pela guerrilha do Caparaó. Quando já estava de volta para a sua terra, em Porto Alegre (RS), depois da anistia de 1979, foi procurado por líderes criminosos cariocas para prestar serviços de planejamento para essas organizações.

Avelino contou-me essa história e não quis revelar nomes, “porque os caras ainda estão vivos”, mas recusou a proposta e voltou para sua terra. Quantos mais foram abordados e não tiveram a mesma postura digna?

Josué Cerejo, por exemplo, seguiu caminho inverso. Fui descobri-lo numa favela em Mesquita, no Rio, vivendo de forma precária, com um monte de filhos, filhas, genros, noras e netos, depois de duas condenações por tráfico de drogas. Uma história dramática que fez chorar seu ex-comandante no Caparaó, Araken Vaz Galvão.

Os erros de avaliação são cometidos pela direita e pela esquerda. Em 1982, Leonel Brizola, que virou ícone da resistência ao golpe militar perpetrado nos anos 60, elegeu-se governador do Rio. Herdou uma polícia arbitrária, formada na ideologia da guerra fria e da repressão política dos anos anteriores, sem qualquer noção de cidadania. Essa polícia barbarizava nas favelas.

Os brizolistas vão me odiar, mas pouco me importa. Brizola, equivocadamente, em vez de corrigir os excessos, proibiu a polícia de entrar nas favelas nos quatro anos de seu governo. Os criminosos tomaram conta e subjugaram a população, estabelecendo um estado paralelo, que agora mostra sua face da maneira mais perversa. Somente agora o Estado organizado exerce seu papel de fato e de direito, para proteger aos cidadãos de bem: 400 mil pessoas, população do conjunto de comunidades da Vila da Penha, no Rio, não podem ser julgadas por causa de 1 mil deliquentes.

Esse breve hiato no artigo foi para mostrar como a sociedade constrói seus monstros. Hoje, em tempos democráticos, os tanques da Marinha e os soldados do Exército estão de volta às ruas, mas de forma regular e apoiando um movimento pela paz no Rio. Tanques se utilizam em tempos de guerra e não há outra palavra para o que está acontecendo na Cidade Maravilhosa, justamente, porque, pela primeira vez em muito tempo, o governo resolve agir, vigorosamente.

Cada metro de território conquistado é comemorado, enquanto o inimigo, antes tão corajoso, foge como rato, demonstrando ser covarde, assim como covarde é sua atitude de agredir a população desarmada.

Quando eu era criança, sempre que algum menino maior batia num menor, alguém gritava: “Covarde, por que você não bate em alguém do seu tamanho?” Quando encontraram alguém do tamanho deles, os ratos fugiram.

O que mais me preocupa é as autoridades capixabas acharem que por aqui está tudo bem. Não está nem um pouco. Nossas divisas são um queijo suíço. Somente no Sul e Sudoeste do Estado, há pelo menos cinco entradas não fiscalizadas pela Polícia Federal. Uma delas, liga duas cidades por uma ponte de 100 metros, em Bom Jesus (do Norte e do Itabapoana). Outra, liga Varre-Sai (RJ) a Guaçuí. Uma terceira vem de Carangola e entra na região do Caparaó. Isso somente para falar dos acessos principais, porque qualquer um pode usar estradas secundárias e atravessar a serra do Caparaó de Minas para o Espírito Santo e chegar a Vitória, praticamente, sem utilizar-se de estradas fiscalizadas.

É bem provável que antigos moradores do Sul do Estado, que um dia migraram para o Rio, possam estar entre os criminosos, como aconteceu com um tal “Foguinho”, que se refugiou em Anutiba (Alegre), onde havia nascido, agindo como benfeitor e promovendo churrascadas e cervejadas, quando o traficante Meio-Quilo o expulsou da favela de Jacarezinho. Algum tempo depois, Meio-Quilo morreu e Foguinho voltou para tentar controlar a favela, e também foi assassinado.

Há muito o que falar a respeito desse assunto, mas espero que nossas autoridades e a grande mídia diária entrem, fortemente, no tema, e não façamos como o avestruz, que enterra a cabeça na areia diante do perigo e deixa o corpo exposto. As coisas estão acontecendo a 6 horas de carro de nossa capital, ou a 3 horas de nossa divisa Sul. Por acaso alguém pensou nisso ou faltaram a essa aula de Geografia?

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