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O LULA QUE FICARÁ NA MINHA MEMÓRIA

23 de dezembro de 2010

O blog reproduz o belíssimo artigo do jornalista Sylvio Costa, diretor do site político Congresso em Foco, por considerar que poucos conseguem revelar tão bem o personagem em foco, o Presidente Lula da Silva, a uma semana do final de seu segundo mandato. De minha parte, a lembrança mais viva que tenho de Lula foi de quando ele ainda sequer era candidato a Presidente da primeira vez.

Eu chefiava a sucursal de A Gazeta em Colatina e Lula foi participar do Dia do Trabalhador Rural em Pancas, em 1988. Fui cobrir o evento e, depois de uma caminhada pelas ruas da cidade, sentamo-nos num boteco tosco, desses onde os assentos são feitos em troncos de madeira fincados no chão. Tomei um guaraná e Lula, no meio daquele calor, saboreava uma cerveja gelada com um miliante de São Mateus.

Conversamos como em roda de boteco. Foi quando Lula disse-me que preparava sua candidatura nas Diretas de 1989. A Gazeta publicou a matéria sem destaque, em uma coluna, na parte inferior da página de política, com uma foto pequena, que se salvou de minha câmara que eu havia acabado de comprar do Fernando Zanotelli e que estava dando entrada de luz, velando parte do filme, ainda em preto e branco naqueles tempos.

Mas já naquele tempo a personalidade de Lula era magnética. Ele sabia porque estava ali. Algum tempo depois, era assassinado o sindicalista rural Francisco Ramos, o “Chico Ramos”, a nossa versão do Chico Mendes. Ramos viva em conflito com fazendeiros de Pancas, uma cidade marcada pela pistolagem e por crimes os mais diversos nessa área. Passaram-se os anos, e o fazendeiro acusado de ter mandado matar Chico Ramos também foi assassinado.

Posto este preâmbulo, vamos ao artigo de Sylvio Costa, que pode ser conferido no site Congresso em Foco.

 

Diversas faces de Lula: do sindicalista ao Presidente do Brasil

 O LULA QUE FICARÁ NA MEMÓRIA DE CADA UM

Sylvio Costa

 Tomando emprestadas as palavras usadas pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) para se referir ao ex-ministro José Dirceu, ele inspirou – e inspira – em alguns “os instintos mais primitivos”. Entre outras coisas, foi muitas vezes chamado de “anta”, “apedeuta” e “analfabeto”. É admirado por outros tantos por razões e de formas bastante diversas.

Na base da pirâmide social, seu prestígio pode ganhar ares de devoção religiosa, e ele é saudado vez por outra como uma espécie de Messias, protetor dos pobres e desamparados, ao qual tudo se deve perdoar. No topo, manifestações de reconhecimento com frequência se fazem acompanhar de conjunções adversativas. “Ele fez um bom governo, mas também, pô, encontrou o terreno já preparado por Fernando Henrique”. Ou então: “O cara não estudou, aliou-se ao que existe de pior na política, mas tem uma intuição e uma capacidade de comunicação extraordinária”. Ou ainda: “É um político demagogo e medíocre. Porém, terminou fazendo um bom governo porque teve a sorte de pegar uma conjuntura interna e externa favorável”.

 Ex-pau-de-arara, ex-engraxate, ex-metalúrgico, ex-sindicalista, Lula se tornará ex-presidente da República no próximo dia 1º deixando para historiadores e cientistas sociais o desafio de decifrar uma das mais fascinantes personalidades políticas do Brasil das últimas décadas. Há vários Lulas, e cada um guardará na memória o Lula que mais lhe marcou, ou convém.

O Lula que brilhou na cena internacional, ora ajudando a viabilizar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, ora sendo enaltecido por estadistas estrangeiros e pelos mais importantes veículos da mídia global. O Lula que frustrou democratas e defensores dos direitos humanos pelo mundo afora ao se omitir em relação às crueldades de ditadores amigos, em Cuba, no Irã ou alhures. O Lula que se disse traído e que condenou os métodos usados para a compra de apoio político, no auge da crise do mensalão, em 2005. O Lula que agora promete empreender uma cruzada nacional para provar que o mensalão não existiu. O Lula que fez o país avançar na economia e na área social. O Lula que desdenhou preocupações éticas antes preconizadas pelo PT para dar respaldo a aliados colocados sob suspeita, fossem eles Sarney, políticos transformados em réus em processos criminais ou parlamentares flagrados na vexatória farra das passagens aéreas.

Sua biografia combina de tal forma o inédito com o imponderável que, tirante a aposentadoria política (algo impensável), qualquer especulação em relação ao seu futuro soa crível. O presidente mais popular, e certamente um dos mais atacados, da história do país. O político dado como morto na crise política de 2005 e que deixa a Presidência da República com mais de 80% de aprovação.

O homem que deixou Caetés (PE) para fugir da fome e que governou a república por oito anos, fazendo a sucessora e mantendo suas digitais em grande parte do (velho) novo ministério. O primeiro presidente operário e sem curso superior trabalhará para se tornar também o primeiro a se eleger – em 2014 – pela terceira vez pelo voto direto? Ele e os amigos dificilmente admitirão, mas alguns sinais apontam para essa direção. Que o digam os planos que ele anunciou até agora para depois do dia 1º.

A cruzada contra o mensalão pode vitaminar suas relações com o PT. A criação de um instituto e a prometida pregação em favor da reforma política podem mantê-lo em evidência e no centro das articulações. Ou optará Lula por ser a eminência parda do governo Dilma?

É um caminho arriscado, já que a criatura precisará agora de liberdade para conquistar espaço próprio, mas quem pode assegurar que ele está fora de cogitação? Será o governo de Dilma Rousseff uma nova, e talvez não a derradeira, etapa da era Lula? Ou o presidente, contrariando as especulações hoje predominantes, passará a priorizar a atuação na arena internacional?

Perguntas desse tipo não têm neste momento respostas conclusivas. Mais fácil é reconhecer os pontos fortes e as fragilidades dos oito anos de governo Lula. Entre os destaques positivos, um vasto rol de indicadores econômicos e sociais, que incluem a elevação real do salário mínimo, o aumento do padrão de vida de milhões de brasileiros e o crescimento da economia e dos empregos sem colocar em risco a estabilidade de preços alcançada na era FHC.

Manteve-se assim o que o governo antecessor produziu de melhor, o controle da inflação, acrescentando-se novos ingredientes que tornaram mais efetivos os resultados obtidos em termos de redução das desigualdades. É falso, portanto, afirmar que Lula simplesmente colheu o que Fernando Henrique plantou.

 Frustrante, contudo, foi o desempenho do PT e do governo Lula em áreas nas quais eles despertavam maior esperança de transformações, como saúde e educação. No plano ético e político, não apenas se manteve a tradição recente (do Brasil pós-ditadura militar) de regar a maioria governista no Parlamento com o varejo do fisiologismo e da troca de favores como também se procurou desqualificar qualquer tentativa de inaugurar novos padrões de comportamento político.

A maioria do PT era contrária, por exemplo, à fundamental Lei da Ficha Limpa. Com outras palavras, pode-se dizer que Lula foi no governo bem melhor do que sempre alardeou a oposição, mas também não foi tão bom quanto tenta demonstrar a mistificação petista e lulista.

X X X X

Uma boa dica para quem deseja refletir mais sobre a era Lula é o já antológico artigo publicado em dezembro de 2009 pelo cientista político e jornalista André Singer na revista do Cebrap. Embora tenha atuado como porta-voz de Lula e não possa ser visto como antipetista, Singer faz uma análise equilibrada e até certo ponto crítica do lulismo, que ele associa ao conservadorismo do “subproletariado” beneficiado pelos ganhos econômicos assegurados às parcelas mais pobres da população brasileira a partir de 2003. Entre aqui para ler o estudo, denominado “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”.

Sylvio Costa é jornalista, criou e dirige o site Congresso em Foco.

Obama, presidente dos Estados Unidos: "Lula é o cara"

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