Skip to content

NOSSOS JOVENS DELINQUENTES

8 de fevereiro de 2011

José Caldas da Costa

Confesso que me assusta ver a quantidade de jovens de classe média metidos na delinquência. Na maioria, delinquência ligada ao tráfico de drogas, em busca de dinheiro “fácil” no mundo do hedonismo.

E meu susto é o de toda uma geração, porque crescemos ouvindo que a criminalidade está, diretamente, associada à má distribuição de renda, à pobreza, à ausência do Estado. Claro, isto também, mas não apenas, estou a concluir.

Com quase 30 anos de casado com a mesma mulher, três filhos, a cada dia me convenço de que acertei quando tomei a direção oposta ao comum em alguns momentos de minha vida. Andei renunciando a sucesso profissional e até acadêmico por pura intuição de que meus filhos precisavam de um pai presente.

O discurso de que, o que conta, não é a quantidade, mas a intensidade do tempo que se passa com os filhos, é muito bom para aliviar a consciência da classe média, o tempo inteiro pensando em consumir, consumir, consumir. E o Brasil se ufana de ter uma nova classe média. Pena que ela chega apenas com o desejo de manter o sistema consumista em funcionamento.

Meus amigos marxistas mantêm o discurso de que a delinquência dos jovens, de classe média ou pobres, é mais uma das mazelas do capitalismo. Pode ser, mas não acredito numa causa única. Sei que vai soar piegas para alguns, mas há uma crise de valores.

Tenho muitas amizades com pessoas mais velhas que eu, e também mais jovens, basicamente, pessoas com a idade dos meus filhos e até mais novas ainda, porque gosto de conversar e conhecer os novos signos da linguagem, além das experiências de todos. Creio, sinceramente, que a sociedade contemporânea é a média das experiências das pessoas que nela estão a viver.

Numa de minhas muitas atividades, desenvolvidas ao longo do tempo, conheci, recentemente, algumas pessoas bem jovens, na faixa dos 20 aos 30. Compartilhando com uma delas minha inquietação, esse menino comentou algumas de suas experiência e falou-me que, por força de atividades recentes, teve muitos contatos na periferia e lá encontrou adolescentes que moravam em casebres caindo os pedaços, mas se orgulhando de ter comprado um chinelo de 200 reais.

Ou seja, o ser humano está buscando reconhecimento por vias transversas. Busca mudança de status. Aprendi em minha atividade recente, num dos treinamentos que recebi, que status é comprar o que você não precisa, com o dinheiro que não tem, para mostrar às pessoas que você não gostal, quem você não é.

Os cientistas sociais e políticos adoram tergiversar sobre esses fatos, mas a realidade das ruas costuma ser diferente das elocubrações acadêmicas. Ao tergiversar, muitos deles defendem teses que acabam servindo apenas a dois propósitos: acrescentar-lhes títulos e, conseguinte, status, poder e mais dinheiro, e entulhar os arquivos das bibliotecas das universidades. Na prática, acabam não tendo valor nenhum para a sociedade, que, em última análise, é quem custeia seus novos status.

Os pais, acreditando na tese da intensidade dos relacionamentos de uma hora por semana, passam os dias, as semanas, os meses e os anos trabalhando feito loucos em busca de posição social e dinheiro para satisfazer às mazelas do consumismo familiar, enquanto vêem seus filhos somente na horizontal – quando essa horizontalidade é apenas vê-los dormindo ainda estão no lucro, porque muitos já estão tendo a tristeza de vê-los na horizontalidade das sepulturas.

E, como se isso não bastasse, seus filhos são educados por babás e empregados domésticos cujas bases éticas e familiares nem sempre são as mais desejáveis. Para compensar a falta de afeto paterno/materno, enchem-lhes de presentes da moda, sem nem mesmo perceber que estão apenas retroalimentando o círculo vicioso da competição exibicionista que não escolhe classe social e deixa um vazio de significado existencial, compensado, muitas vezes, na recorrência às drogas e outros vícios.

Sem opções, muitos desses jovens entram na delinquência pelo sabor da aventura tão comum na descoberta da vida e, depois que entram, não conseguem mais sair. A adrenalina sempre corre mais e os empurra mais para o olho do furacão, enquanto a indústria da desgraça social cresce e enche os bolsos de meia dúzia de cidadãos não menos vazios de valores pessoais e humanos, a não ser o da simples aquisição de coisas, ainda que essas coisas um dia tenham sido chamadas de humanos.

Há que se parar para pensar nossos valores: nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nos clubes de serviços, nas associações de toda espécie, nas instituições públicas e privadas, nas grandes corporações, em todas as instâncias de poder.

Deus não fará aquilo que compete ao homem fazer, como alguns apregoam por aí, sem se aperceberem de que reproduzem um modelo baseado na corrupção de valores e na falta de assunção de responsabilidade de cada um de nós por si e pelos que nos são próximos. Isso é um processo, jamais se terá uma família ou uma sociedade perfeita, mas há de se ter a coragem de começar a mudança, cada um em seu próprio proceder, em sua própria vida.

TERGIVERSAR X TANGIVERSAR

tergiversar

ter.gi.ver.sar

(lat tergiversare, corr de tergiversari) vint 1 Voltar as costas. vti e vint 2 Usar de evasivas, rodeios ou subterfúgios; inventar desculpas ou pretextos; procurar maneira de se escapar; hesitar: “Não tergiverseis com as vossas responsabilidades” (Rui Barbosa). Tergiversar na aplicação da justiça. Sem mais tergiversar, tentemos a experiência.

Depois que ouvi o professor Pasquale justificar o neologismo “imexível”, cunhado pelo ex-ministro Rogério Magri, no Governo Collor, sinto-me no direito de criar outra palavra, que meu guru Zakeu Zengo estranhou de sopetão: “tangiversar”. Foi o que usei no original publicado no site Século Diário.

Houais registrou o “imexível” de Magri, o que nunca foi assimilado pelos intelectuais brasileiros, e eu reivindico o registro de meu tangiversar, com um sentido um pouco diferente do culto tergiversar. Justifico: meu tangiversar tem um sentido que vai além dos rodeios e subterfúgios da outra palavra. Para mim, quem tangiversa não usa evasivas, mas sai mesmo pelas tangentes da vida.

Eu bem que poderia ter sido mais cauteloso e ter grifado o neologismo com aspas, mas, agora, se preferis, podeis trocar meu verbo pelo outro que o sentido da ideia não terá nenhum prejuízo. Nossos doutores continuarão com suas elocubrações sociológicas enquanto nossos nossos jovens matam e morrem nas ruas das grandes cidades.

Claro, a linguagem culta não pode engolir a mosca de um neologismo talvez sem raízes no latim, mas a nossa sociedade continua engolindo o camelo da delinquência de nossa juventude.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: