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REGINALDO HORTA, O GUERREIRO CONTRA PARKINSON

8 de março de 2011

Capa da nova edição de "Êta, Nóis", que pode ser comprada no site da Editora Livro Novo

José Caldas da Costa

Eu curto o Carnaval. Notadamente, o silêncio da minha rua, a paz no trânsito da cidade esvaziada, o aconchego de minha casa, ao lado de minha família. Curto o telefone sem tocar, algumas presenças amigas. Pela televisão, acompanho os flashes da festa popular, tomando balneários e sambódromos. Cada um do seu jeito.

Admiro-me, especialmente, da força coletiva das escolas de samba produzindo uma arte inigualável. Depois de passar a adolescência me esbaldando na festa profana, dei uma guinada e, como em todas as mudanças, fui um dos que censuravam essa movimentação de comunidades pobres em torno do luxo carnavalesco, enquanto eu me recluía em retiros espirituais.

Continuo recluindo-me em meu próprio retiro, quando durmo, medito, oro, leio, converso, vejo filmes, reponho as energias para o ano, que, verdadeiramente, começa agora, porém, estou mais tolerante com as diferenças. Não vejo mais a tudo com censura, compreendo mais, escuto mais, julgo menos. Talvez como fruto da experiência de vida, que a torna mais feliz.

Aproveitei a paz das ruas desentupidas de carro para visitar um velho amigo, o meu “cumpadi” Reginaldo Horta, tomar um chá e aprender com sua paciência. Régis, como carinhosamente o chamamos, serve-me de inspiração. Quando o conheci, na redação de A Tribuna, logo houve empatia e nunca mais nos desgrudamos. Sonhamos e nos frustramos juntos algumas vezes.

Régis é um ótimo cozinheiro e eu um ótimo apreciador da boa comida. Logo, casamento perfeito de amizade. Ao lado dele, a eterna companheira, Lígia, vivendo as alegrias e as dores de toda caminhada. Compartilhamos nossas aflições como seres humanos e como pais, desejosos do sucesso de nossos filhos e, de vez em quando, sobressaltados pelas peripécias deles.

Desenvolvi o hábito de visitá-lo de vez em quando desde que ele morava de frente para a Praça dos Namorados. Nunca o vi de mau humor, nem quando as coisas não dão muito certo. Reginaldo tem sempre uma frase de resignação, uma piada com as agruras da vida e uma gostosa gargalhada para fechar suas irônicas observações de contador de causos, agora eternizados no livro “Eta, Nóis!”, um velho sonho. (http://www.livronovo.com/ta-nois.html)

Há dez anos, Régis foi assaltado pelo medo ao descobrir-se com o inexplicável Mal de Parkinson. Fiquei triste por ele, mas em nosso primeiro encontro aprendi muito. Sua alegria não mudou e aflorou, mais que nunca, seu espírito guerreiro, talvez aprendido com os índios nos tempos em que foi aprendiz de indigenista. Talvez venha daí sua paciência com o ser humano, e também dos pescadores com os quais conviveu quando se aventurou pelos mares.

Régis é assim: um aventureiro pela vida. Sua biografia é a mais rica que jamais conheci. Sossegou um pouco somente quando, já na meia idade, resolveu formar-se em jornalismo e focar numa direção. Foi sorte minha que ele fez isso, porque foi assim que a vida permitiu-me conhecê-lo.

Volto há dez anos, quando apareceram os primeiros tremores em uma das mãos. Desde então, Reginaldo não tem descansado em busca de soluções. Um dia, quando eu estava na assessoria do Tribunal de Contas, recebi a visita dele e o incentivei a escrever sobre sua experiência com a doença, antes que ela o impedisse de fazê-lo. Menos de 48 horas depois o Reginaldo estava de volta com o texto, um livro pronto, que um dia ainda haverei de ajudar a publicar para servir de inspiração a todos os que se desesperam por tão pouco.

Ao ler aquele texto, lágrimas misturavam-se com gostosas gargalhadas ao perceber o absurdo senso de humor do Reginaldo para lidar com a irreversível e incômoda doença degenerativa das células nervosas. Uma das mais engraçadas narrativas era a que mostrava como Reginaldo fazia para enganar o cérebro e continuar servindo cafezinho para os amigos, colocando a xícara na mão espalmada. Na visita da segunda-feira de Carnaval, perguntei a ele se continuava servindo cafezinho na palma da mão. “Agora, jogo café em todo mundo”, e soltou mais uma de suas gostosas gargalhadas.

Confessei a ele, meio envergonhado, que não conseguia encontrar o texto de “Tremores e temores”, perdido em muitas das pastas de meus arquivos digitais no computador. Bons tempos aqueles em que a gente perdia papéis e conseguia encontrá-los usando todos os sentidos – tato, visão, olfato… Agora, ficamos dependentes de buscas eletrônicas nem sempre muito eficientes. E quando dá pau? Ai, Jesus!

Em vez de aborrecido, Reginaldo me consolou: “Tem problema não, cumpadi. Vou aproveitar que minha memória ainda está boa e escrevo tudo de novo”. Eu não duvido. Mas não quero que esqueça nada, cumpadi. Do banho de lama assustando a cumadi, da visita à benzedeira, de nada. Pena que você não pode contar como é que ainda existe gente capaz de explorar uma pessoa de tão boa fé como você. Mas essa pode deixar que um dia eu conto.

Vida longa, cumpadi. Vamos tomar muito chá e ainda nos divertir muito. Quem sabe nessa caminhada Deus não inspira algum cientista para descobrir a cura definitiva dessa tremedeira! E aí vai ser a sua hora de dizer: “Essa bosta dessa doença pensou que iria me derrubar, mas fui eu que derrubei ela”. Vaso bom também não quebra, cumpadi.

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2 Comentários leave one →
  1. Marta Silva Braga permalink
    13 de julho de 2013 19:11

    Reginaldo voce e mesmo uma pessoa de admiracao.e corajoso .
    estou com parkinson tb. gostaria de conversar com vc p/ email. estou com depressao e nao sei como lidar com a doenca . Sera que voce poderia me ajudar??.
    Muito obrigada e que DEUS ABENCOE.

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