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CAPARAÓ E ARAGUAIA: DUAS GUERRILHAS DA MESMA BARRIGA

31 de março de 2011

José Caldas da Costa, jornalista, escritor, autor de

“Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”(*)

Quando os generais tomaram  o poder em março de 1964, houve um grupo que ainda pensou em resistir. Dentre seus integrantes, alguns estudantes, líderes políticos, notadamente do Sul do País, e militares que, imediatamente, foram expulsos das três Forças – Marinha, Exército e Aeronáutica, todos acusados de vínculos com o comunismo internacional. Bastava ter ligações com movimentos sociais ou de classe para receber esse carimbo dos inquilinos que tomaram de assalto o poder central da República.

Tentativas de agrupamento aqui e acolá, tanto a oposição quanto a situação estavam muito desarticulados nos primeiros anos do regime militar brasileiro, que acabou por durar mais de duas décadas. Na medida em que a repressão apertava, esses brasileiros inconformados com o regime de exceção buscavam abrigo em outros países ainda sem intervenções militares, principalmente o Uruguai, tido como “a suíça latino-americana”.

E foi no País vizinho do Rio Grande do Sul que se abrigaram os resistentes sulinos, sob a liderança do ex-governador Leonel Brizola e do ex-presidente João Goulart, apeado do poder pelos militares de 1964. O tempo foi passando e aumentando a pressão pela resistência armada, principalmente por parte daqueles que eram oriundos da Marinha, Exército e Aeronáutica. Um dos principais líderes desse grupo era o sargento expulso do Exército Amadeu Felipe da Luz Ferreira.

Inspirados pela doutrina do foco guerrilheiro, acabaram convencendo Leonel Brizola a buscar apoio de Cuba para a instalação de três frentes de resistência no Brasil.

Uma das frentes seria onde hoje encontra-se o Estado de Tocantins, que seria entregue à AP – Ação Popular, organização política mais ligada à Igreja Católica; outra no Mato Grosso, a ser liderada pelos marinheiros oriundos dos movimentos reivindicatórios pré-64, e que seria incumbida de fazer a ligação entre a guerrilha brasileira e o movimento de Ernesto Che Guevara, na Bolívia; e uma terceira frente, sob a liderança do proscrito PSB, mas com liderança operacional dos sargentos, no centro do País, escolhendo-se a região da Serra do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais.

A guerrilha do Mato Grosso caiu antes de se instalar, quando um de seus líderes foi preso numa viagem a São Paulo. A outra, do Norte do País, não se instalou porque a AP, organização à qual pertenciam líderes estudantis, como José Serra, ex-presidente da UNE, não se mobilizou – Serra preferiu exilar-se no Chile, onde conheceu sua atual mulher, mas também onde passou grande aperto quando o general Pinochet derrubou o governo constitucional de Salvador Allende e Serra foi salvo da repressão por intervenção de Fernando Henrique Cardoso, que era sociólogo e filho de general.

Sobrou o terceiro movimento, o do Caparaó, instalado sob a liderança de Amadeu Felipe e para onde Leonel Brizola mandou também os marinheiros que fariam a guerrilha do Mato Grosso. Caparaó acabou se constituindo, portanto, na primeira guerrilha contra a ditadura. Essa resistência armada nasceu com Caparaó e teve seu ocaso com a guerrilha do Araguaia, mais tarde assumida pelo PC do B e extinta, com um banho de sangue, em meados dos anos 70.

Portanto, Caparaó e Araguaia foram gestadas na mesma barriga, o refúgio da resistência à ditadura no Uruguai, embora o movimento do Araguaia tenha se efetivado alguns anos mais tarde. Caparaó durou cerca de nove meses e foi abortada com a prisão de seus últimos remanescentes, em março e abril de 1967. Envolveu cerca de 120 pessoas, entre os que foram para a frente de treinamento na Serra do Caparaó e os que participavam do apoio urbano, mas seu grupo final estava restrito a dez pessoas, apenas uma delas civil – Milton Castro, morto sob tortura menos de 30 dias depois de sua prisão, numa cela em Juiz de Fora (MG).

Nesta sexta-feira, 1º de abril de 2011, faz 47 anos que os generais derrubaram o presidente João Goulart (eles comemoram no dia 31 de março, data em que as tropas do general Mourão Filho começaram a se deslocar de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro) e 44 anos que as forças públicas prenderam o grupo comandado por Amadeu Felipe da Luz Ferreira na Serra do Caparaó.

(*)”Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”, Editora Boitempo (SP), 2007, Prêmio Vladimir Herzog de Melhor Livro-Reportagem e finalista do Prêmio Jabuti na mesma categoria.

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