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CIDADES FORA DE LUGAR

9 de maio de 2011

José Caldas da Costa

Na décadas de 70 e 80, as conversas que mais chegavam ao interior, e até eram motivos de diversão, davam conta do cidadão que, movido pelas propagandas de imobiliárias, que só não vendiam lote na lua, compravam terrenos na Grande Vitória, onde a prosperidade era anunciada como mercadoria ao alcance de todos.

A boa propaganda propalava as maravilhas do milagre econômico brasileiro, que haviam chegado ao Espírito Santo, até então um Estado pobre e sem inserção nas eras de crescimento brasileiras. O regime militar havia feito o patinho feio descobrir-se um belo cisne no lago azul do Brasil que vai prá frente (“E, se ele foi, foi Deus, foi Deus…”, cantaria Gonzaguinha).

O desprezo pelo Espírito Santo era tal que chegou a suscitar de nosso cronista mais nobre, Rubem Braga, uma crônica em que defendia a tese de que, já que isso aqui era solenemente ignorado pela Federação, que se extinguisse o Estado, fazendo em lugar de seu território um golfo. “Queremos ser golfo”, dizia o cronista cachoeirense radicado no Rio de Janeiro.

A ideia era brilhante e, por que não, profética. Por golfo, lembre-se o Golfo Pérsico, com petróleo jorrando por todos os cantos e profundidades. E Rubem Braga nem sabia ainda que, na verdade, o ouro negro deitava eternamente no esplêndido berço da bacia do Atlântico brasileiro. Além disso, ele lembrava, Minas Gerais resolveria seu maior recalque, realizando o sonho de, finalmente, ter mar.

Pois bem, nesse mesmo tempo, os iludidos compradores de lotes na Grande Vitória preparavam com a família uma viagem para conhecer a nova propriedade, onde toda a prole moraria no futuro, usufruindo das maravilhas do progresso do Brasil gigante. Chegavam e eram recebidos com honras pelos corretores, que com eles se encaminhavam rumo à beira mar.

No princípio, a imaginação viajava. As crianças sorriam alegres porque o pai, certamente, havia feito um grande negócio e a família deixaria a vida dura no interior para morar na cidade grande, pertinho da praia. Que beleza!, gritaria o moço do pedalinho navegando nas águas barrentas de Cristovão Colombo, Vila Velha, na chuvarada da última semana.

Logo descobririam que, realmente, morariam bem perto do mar. De tão perto, teriam de construir pontes de tábuas para ligar suas “casas” ao continente. O corretor encaminhava-se com o novo proprietário em direção ao mangue, atravessava com a família sobre aqueles caminhos de tábuas, pegava uma pedra, atirava na maré e dizia: “Seu lote é mais ou menos ali”.

E assim nasceu a expansão imobiliária da Grande Vitória, mar adentro, por sobre mangues e marés, em palafitas e casas edificadas sobre alagados aterrados sob os olhares da irresponsabilidade e da conivência dos administradores públicos.

Mais de 80% das áreas ocupadas por moradias nos municípios da Grande Vitória nas décadas de 70 e 80, notadamente Vitória, Vila Velha e Cariacica, jamais poderiam dar lugar a residências. Por acaso vocês já viram habitação indígena ser alagada ou destruída por inundações? Eles convivem de forma harmoniosa com a natureza, e têm respeito por ela, ao contrário dos descendentes e colonizados pelos europeus que aqui chegaram a partir de quinhentos anos atrás.

Na nossa história recente, o próprio governo liderava esse tipo de situação. Basta que o morador da capital, por exemplo, procure a margem litorânea da Praia de Santa Helena, por exemplo, ou os contornos das ilhas de Santa Maria, Monte Belo e do Príncipe.

Sempre esteve muito clara em minha memória a imagem de gente misturada a urubus, cães e porcos, disputando o mesmo lixo que era depositado na Grande São Pedro, onde proliferavam as palafitas sobre a maré. Amilton de Almeida, sensível jornalista, hoje já não mais entre nós, teve problemas com a ditadura militar ao realizar o documentário “Lugar de Toda Pobreza”, que tão bem retratava aquela coisa!

Eu estive um dia lá, como repórter da Rádio Espírito Santo, acompanhando uma visita do então prefeito Berredo de Menezes. Tive vontade de chorar com tanta miséria, mas era assim que o ser humano era tratado pelo milagre econômico. Mas o Espírito Santo crescia a passos largos rumo ao futuro, com depósitos de gente na periferia, trazendo o ambiente para o caldo de violência que hoje “ninguém entende”.

Lembram do filme “Cidade de Deus”, uma espécie de abertura da recente série antológica do cinema nacional que se concluiu com Tropa de Elite I e II? Pois saibam que o mesmo processo que originou a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, deu-nos de presente bairros como Feu Rosa, Rosa da Penha, Rio Marinho e, principalmente, Itanhenga, onde foram depositadas, sem qualquer assistência do Estado, as famílias que perambulavam pela Grande Vitória ao final da etapa de construção civil de nossos grandes projetos industriais.

Hoje, quando eu vejo minha casa e as de meus vizinhos sendo invadidas pelas águas barrentas, que misturam chuva e esgotos de canais transbordados, em Vila Velha e todos os demais lugares impróprios para moradia no Estado, fico pensando como esse mar de lama traz junto com as sujeiras de hoje todas as nojeiras do passado e do presente de nossa sociedade e seus líderes políticos.

É o rescaldo da corrupção sob todas as suas formas, e presente em todos os podres poderes, nas grandes e pequenas cidades. Valha-nos, Deus!

José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor substituto-voluntário no Departamento de Geografia da Ufes. Escreve como colaborador nos finais de semana na revista eletrônica http://www.seculodiario.com.br 


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