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O PSD, ENIVALDO DOS ANJOS E A VELHA POLÍTICA

15 de maio de 2011

Enivaldo discursa na visita de Kassab no lançamento do PSD

José Caldas da Costa (*)

Aventuro-me, mais uma vez, pelos campos minados da política para falar dos mais recentes fatos criados pela re-fundação do PSD, em nível nacional, pelo prefeito Gilberto Kassab (SP) e, em nível estadual, pelo ex-um-pouco-de-tudo Enivaldo dos Anjos.

Primeiro, permitam-me a remissão à história para lembrar que em 17 de julho de 1945 fundou-se no Brasil o Partido Social Democrático (PSD), extinto pelo Ato Institucional Número Dois (AI-2) em 27 de outubro de 1965 pela ditadura militar, ao instituir o bipartidarismo e a oposição consentida no Brasil (Arena, para sustentar o governo militar, e o MDB).

O PSD antigo foi formado sob os auspícios de Getúlio Vargas, pai dos pobres e mãe dos ricos, para reunir antigos interventores federais nos estados, como Benedito Valadares (MG), Fernando de Sousa Costa (SP), almirante Ernani do Amaral Peixoto (RJ) e Agamenon Magalhães (PE).

O PSD foi a legenda do lendário Juscelino Kubtscheck, médico mineiro que chegou à Presidência da República, lembrado por três coisas: seu plano de governo de fazer o Brasil crescer “50 anos em5”, a instalação da indústria automobilística no Brasil e a construção de Brasília, um projeto que já era aventado 100 anos antes pelos pensadores das estratégias de segurança da capital federal.

Em sua tese de doutorado publicada sob o título “A invenção do coronel”, o cientista político capixaba João Gualberto demonstra que o velho PSD, no Espírito Santo, era a sigla que abrigava antigos coronéis da política do Estado, alguns deles cujas famílias ainda prevalecem dando as cartas até hoje, bastando para isso observar alguns sobrenomes em evidência.

Isto posto, volto à re-fundação do PSD. Primeiro, quero manifestar minha descrença nos partidos brasileiros, o que, sinceramente, eu desejaria, profundamente, que fosse diferente. Creio que a política deveria ser fundada em ideias e não em nomes. Por isso, ainda que não seja nem tenha sido nunca seu seguidor, admiro os “velhinhos” do Partidão com suas discussões quase solitárias com cheiro de naftalina.

Os partidos políticos brasileiros, todos, são siglas de aluguel e de ocasião. Nem o PT, a última agremiação a ter uma identidade nacional, é mais o mesmo. Ou o PV. Alguém, em sã consciência, por exemplo, acredita que o deputado Sarney Filho (PV-MA) seja mesmo um verde? Os partidos crescem e decrescem dependendo de sua presença ou não no poder.

Segundo, acho muito estranha a estranheza dos “especialistas” com a ascensão de Enivaldo dos Anjos à condição de presidente estadual do PSD. Minha estranheza fundamenta-se, principalmente, no fato de um ex-governador recente ter construído sua fama no movimento estudantil, escolado no velho Partidão (PCB) e, no projeto de ascensão ao poder, ter feito alianças até com o diabo, a ponto de ser o controlador de fato do DEM, sigla herdeira da Arena da ditadura militar.

Tanto é que, graças a esse controle, elevou à presidência regional do partido um político que, embora de uma geração posterior à dos políticos da ditadura, traz todo o DNA dos piores arapongas dos anos de chumbo e foi fabricado pelo ex-governador, que copiou tanto seus antigos algozes que incentivou até mesmo a criação de uma entidade que, em tempos democráticos, traz todas as características da Oban paulista.

Enivaldo dos Anjos, de fato, não é cara nova na política capixaba, mas quem é? O PSD sobreviverá e será uma alternativa ideológica? Longe disso. É mais uma sigla fundada para abrigar grupos, como tantas outras Brasil afora, dentre elas todas as que sustentaram o governo passado e sustentam o governo presente do Espírito Santo, que tem no comando um socialista eleito com alianças inimagináveis nos tempos em que seu partido era proscrito pela ditadura (não entra aqui juízo de valor, mas análise histórica pura e simples).

Partidos como o PMDB, que deu ao PT da ex-guerrilheira Dilma Roussef um vice-presidente que o próprio PT torce o nariz para ele, a ponto de alguns parlamentares pensarem na ideia de uma emenda constitucional que transforme o vice num elemento estranho ao governo, tão estranho que, em caso de falta definitiva da titular, o novo presidente seja eleito indiretamente e não seja dada posse ao atual vice.

Algo como o que fizeram os militares golpistas, que em 1961 não queriam a posse de João Goulart em lugar de Jânio Quadros e, com a morte de Costa e Silva, em 1969, colocaram no poder uma Junta Militar formada pelos ministros das três Forças Armadas em vez de darem posse ao vice Pedro Aleixo.

Pergunto: o que mudou na política brasileira?

O que conheço de mais profundo de Enivaldo dos Anjos é que ele nasceu em uma família pobre, filho de uma dona de casa e um folclórico funcionário público, num ambiente de tensão social e política (na época, Barra de São Francisco, sua cidade, era o principal palco das lutas entre Minas Gerais e Espírito Santo pelo território contestado ao Norte do Estado).

Sua formação política se deu nesse ambiente e cresceu no clima dos anos 60, onde quem  não era a favor da ditadura militar era contra. Seus colegas de infância passavam entre os Ciprianos (o mais notório dele, Perly Cipriano, combatente da ditadura e membro histórico do PT, mas tendo também o médico José Cipriano, que militou no PCBR).

A primeira filiação partidária de Enivaldo foi o MDB, mas logo encaixou-se. Foi para a Arena 2 e ali se criou, entre as atividades sociais e esportivas desengajadas que promovia em sua cidade. Criou vínculos com lideranças regionais, a principal delas Edson Machado, promotor de Pancas, eleito deputado com expressiva votação em Barra de São Francisco, graças ao apoio de Enivaldo. Foi nessa época que Enivaldo apareceu, pela primeira vez, na política estadual, ocupando a chefia de gabinete de Edson Machado, que se tornou presidente da Assembleia Legislativa.

O resto é história. Enivaldo sempre gostou de futebol e foi o melhor diretor de árbitros de todos os tempos na Federação de Futebol do Espírito Santo. Foi em sua gestão que se pôs fim ao hábito de trazer árbitros de fora para apitar os jogos decisivos quando o futebol capixaba ainda despertava paixões. Acreditavam os dirigentes que, trazendo árbitros de fora, estes não interfeririam nos resultados. Logo, certamente, isso era uma denúncia contra os árbitros capixabas. Enivaldo contou-me que o último árbitro trazido de fora, ainda no início de sua gestão, chegou e perguntou: “Diretor, qual é o resultado do jogo?” Naquele dia, ele decidiu que “árbitro de fora, nunca mais”.

Depois, Enivaldo perdeu sua primeira eleição de deputado, ganhou a seguinte nunca mais perdeu nenhuma. Deixou o primeiro mandato no meio quando ganhou a prefeitura de sua cidade. Nessa época, o conheci, politicamente, mais de perto. Fui chamado para assessorá-lo e o vi fazer uma administração com visão social e austera, que economizava cada centavo que podia, reduzia preços de obras sob ameaça de cancelar as licitações, fiscalizava pessoalmente servidores municipais e inaugurou a prestação pública de contas no Espírito Santo, com uma placa em praça pública e documentos contábeis à disposição do público na Prefeitura.

Conheci o grande articulador político, uma das peças fundamentais para a eleição de Albuino Azeredo governador em 1990 e, depois, de Vitor Buaiz em 1994 e exerceu forte influência política, nas devidas proporções, em todas as eleições posteriores. Foi secretário de Estado, voltou a ser deputado estadual duas vezes e a dominar a política do Noroeste a ponto de eleger seu filho, uma espécie de “poste político”, para a Assembleia Legislativa, quando ele, Enivaldo, já era conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo.

Foi como conselheiro que experimentou sua maior provação desde que se aventurou no mundo político. No processo de intimidação imposto na política estadual pelo ex-governador recente, Enivaldo teve seu nome envolvido num suposto esquema de corrupção no TCE, mas foi inocentado, à unanimidade, pelo Supremo Tribunal Federal. Já aposentado como conselheiro por completar 60 anos de idade e 35 de serviço público, deu sustentação a Magno Malta em sua região e elegeu-se segundo suplente de senador em sua chapa.

Este é o político que ancora o PSD no Espírito Santo. Novo? Digamos que não. Velho? Também não. Sempre interiorano? Sim. Ele não é herdeiro do coronelismo citado por Gualberto em sua tese publicada, mas fez seu nome político no momento criado pelo movimento municipalista que deu de novo importância aos políticos do interior, quando somente a metrópole dava as cartas em tudo.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor e professor substituto-voluntário no Departamento de Geografia da Ufes. Atualmente, leciona Geopolítica e Geografia Política. 

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One Comment leave one →
  1. edmilton moraes permalink
    24 de maio de 2011 9:45

    Envaldo dos Anjos é sim um politico novo em seus ideais e principalmente em suas atitudes que sempre buscou a austeridade e a responsabilidade na adminsitração dos bens pblicos. Ele tem a visão de JK e a sensibilidade de Getulio e tenho a certeza que o ES ganha e muito com o PSD.

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