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“QUE SAUDADES DA PROFESSORINHA!”

23 de junho de 2011

José Caldas da Costa

Não sei exatamente quantas são, mas o Espírito Santo possui cerca de 700 escolas públicas distribuídas em 78 municípios – somente considerando aquelas sob gestão direta da Secretaria de Estado da Educação. Há alguns dias, com fins de conceder o prometido bônus aos professores, as autoridades da Educação divulgaram o ranking das 50 melhores escolas estaduais: todas elas são do interior.

Curioso perceber que alguns municípios se destacam, como São Gabriel da Palha, que tem três escolas entre as cinco primeiras. Os especialistas tentaram dar uma explicação para o “fenômeno”. Não sou especialista, mas estudei em escolas públicas a maior parte de minha vida. Fiz apenas o ensino médio em escola privada por uma razão muito simples: eu tinha que trabalhar para ajudar a sustentar nossa casa e não conseguiria acompanhar o ritmo do ensino médio público.

Em minha cidade havia uma escola que já nos anos 70 se dizia que era PPP – papai pagou passou. No caso, eu mesmo tinha que pagá-la e, réu confesso, admito que meu objetivo era mesmo receber meu certificado de segundo grau. A despeito disso, ganhava todos os concursos de redação da cidade e escrevia com texto final minhas matérias como correspondente de jornal grande da capital (meu diferencial sempre foi ler muito e estar antenado com a realidade). E passei no meu primeiro vestibular na Ufes, mesmo sem dinheiro e tempo para frequentar um cursinho.

Atualmente, cumpro a última etapa de um propósito a que me desafiei: como fiz numa universidade pública meu curso superior, intimamente, me propus a para lá retornar um dia como voluntário para retribuir um pouco do que a sociedade fez por mim, movido pela consciência de que a grande maioria das pessoas, que, com seus impostos, pagaram para que eu estudasse, jamais se beneficiariam, diretamente, de minha formação.

Justificada minha intromissão em assunto que não é de minha alçada, julgo-me no direito de meter-lhe o bedelho e acreditar que as escolas públicas estaduais do interior vão melhor porque o modo de vida do interior é diferente e mais comunitário do que na metrópole ou nas cidades maiores, mesmo fora do eixo metropolitano, mas também contaminadas pelo urbanismo e suas mazelas.

Sempre defendi a tese de que uma das causas da violência é o descompromisso com o coletivo. Ouvi pela primeira vez algo a respeito quando José Rezende veio ser secretário de Segurança do Espírito Santo, no final do decênio de 90, depois de ter passado pela mesma pasta em Minas Gerais, e mencionar que os menores índices de violência dos mineiros estava, justamente, naquela que sempre foi identificada como a região mais pobre daquele Estado, o Vale do Jequitinhonha.

A violência explodiu no Espírito Santo junto com o crescimento urbano desenfreado. E isso se reflete na escola. Perdoem-me os professores da Região Metropolitana, mas seus colegas do interior sentem-se mais parte do processo, assim como os próprios alunos e seus pais. Não é sem razão que o ensino privado se cria muito mais na metrópole e nas grandes cidades do interior. Costumo dizer que no interior todo mundo se conhece e ainda existe um respeito maior pelo outro – ou a vergonha de aprontar alguma e depois ter de encarar o professor ou quem quer que seja em sua própria comunidade. As notícias correm rápido e quem se queima, fica queimado mesmo.

Na cidade grande, as pessoas parecem se sentir apenas mais um na multidão e, costumeiramente, reagem às coisas, que lhes demandam responsabilidade, com uma expressão muito vista em filmes americanos: “funk you”. Ademais, o professor no interior é visto, de certa forma, como uma autoridade. Até hoje eu trato com reverência dona Celeste, dona Elza, dona Rizete (enquanto ela viveu) e dona Nadir, minhas quatro professoras do antigo Primário. No lançamento de meu livro em Alegre, elas estavam lá para se orgulharem de mim e eu delas.

Estamos, a rigor, pagando juntos a fatura de uma sociedade cuja opção foi pela urbanização visando à criação das bases do capitalismo consumista internacional. Os valores que nos regem nas grandes cidades não são os mesmos das comunidades do interior, a despeito de elas serem, fortemente, influenciadas pela máquina de propaganda dos meios de comunicação de massa, que criam a aldeia global. Há, entretanto, nichos de resistência cultural e isso ainda nos salva e salva as escolas.

Muito se tem discutido sobre o papel da escola e o seu modelo ideal, mas duas tentativas foram as mais marcantes nas últimas décadas no Brasil: a primeira, a que foi criada pelo governo de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, nos anos 80 e que forçou o governo federal a adotá-la, ainda que sem o devido crédito. Essa tentativa de Brizola foi fruto de seu gênio pensante, o professor Darcy Ribeiro, que a ditadura quis execrar. Outro modelo, que acompanhei à distância, mas que sempre me chamou muito a atenção, foi o criado por um padre em Anchieta(ES), a Escola Família Agrícola, que leva o ensino para o contexto do aluno. Algo meio que adaptado das teses de outro educador execrado pela ditadura militar brasileira: Paulo Freire. Nesse modelo, os alunos passam 15 dias na escola e 15 dias em casa, aplicando o que aprenderam.

Coincidentemente, a região de São Gabriel da Palha, onde estão as melhores escolas do ranking da Sedu, tem Escolas Família Agrícola. Será que isso tem algo a ver com o bom nível das escolas estaduais? É de se pensar. Por fim, por mais que um segmento o condene, parece que a política do governo de bonificar os professores das escolas por sua qualidade de ensino vai estabelecer uma competição positiva, valorizando os professores mais dedicados e comprometidos com os bons resultados de seus alunos. Afinal, como diz um amigo meu, a parte mais nervosa do ser humano é seu bolso. Pelo bem ou pelo mal.

***

Quem será que andou (des)aconselhando o governador Renato Casagrande na questão dos estudantes? Realmente, o governador não precisa de adversários políticos.

ARTIGO PUBLICADO, ORIGINALMENTE, NA REVISTA ELETRÔNICA SÉCULO DIÁRIO

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