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NÃO, EU NÃO LI CARLINHOS DE OLIVEIRA…

4 de agosto de 2011

Poderia escrever hoje sobre o debate que fizemos sobre o problema de infraestrutura no Espírito Santo, na volta das gravações do programa OportunidadES, da TVE, mas não iria mudar nada. Penso que falta governo, aqui e acolá, para se antecipar às nossas necessidades.

Prefiro algo mais concreto, que mexa com outra “infraestrutura”, que talvez determine aquela que todo mundo gosta de discutir, porque mexe com o órgão mais sensível do corpo humano em nossos dias, o bolso. Prefiro falar da infra-estrutura dentro de cada um de nós.

Não, eu não li Carlinhos de Oliveira. Confesso meu pecado. Ouvi falar dele, mas não li. E me arrependo, sem culpa. Eu estava nascendo, e não me ensinaram.

Dizem que foi um cronista tão grande quanto Rubem Braga, este, sim, eu li muito. Acho que a diferença entre um e outro era a mídia que havia por trás. Braga tinha suas crônicas lidas no jornal da uma da tarde, da poderosa Globo, que nos transformava em membros de uma aldeia só; Carlinhos escrevia no JB, que hoje nem há mais.

Agora, eu li Carlinhos de Oliveira, graças ao bem-vindo “Pensar”, suplemento do ex-jornalão A Gazeta. Digo bem-vindo porque os dois principais jornais do Estado abandonaram, por quase três décadas, esse verbo. E pensar que eu fiz parte disso. Quando conjuguei esse verbo, abandonei o lugar onde estava.

Fiquei pensando no Adão de Barros, ressuscitado pelo biógrafo do cronista, Jason Tércio, 30 anos depois de publicado no JB. E criei certa identidade com o personagem, até porque cheguei a conhecer os cafés daqueles tempos, pois acabara de chegar de Alegre em busca do sonho de ser alguém na vida. Num deles sentei várias vezes para conversar com um amigo daqueles tempos, o Agnelo Netto.

Só que, ao contrário do Adão, eu sobrevivi e descubro em mim um sentimento pouco nobre para alguns: a vingança. Também eu nasci sem dinheiro e sem futuro, pelo menos aos olhos dos normais, mas dotado de algo absurdamente grande: o desejo de me vingar de cada negativa a que eu continuasse a minha jornada.

Espanto-me com a lucidez e transparência de Carlinhos de Oliveira ao narrar a história de seu amigo “Adão de Barros” e tremo quando identifico os mesmos traços em minha trajetória: também ganhei meus primeiros vícios e os mais recentes – álcool, fumo, antigos; gordura, açúcar e sal, mais recentes – e depois tive de sustentá-los e aos seus fornecedores.

Também me frustrei ao ter que exercer amor platônico em minhas paixões juvenis por falta de “algo” no bolso. Também desejei ir ao cinema com aquela que roubara meu coração adolescente e a perdi para quem podia pagar o ingresso. Também fiz o curso, socialmente, menor e sonhei com o anel de formatura que nunca veio. Também quase encontrei minha colina, escondido que fiquei por algum tempo no suicídio lento do álcool.

Ah, mas eu me vinguei! Que sentimento menor, dirão alguns. Mas eu o confesso; e quem o “enruste” e fica obeso, de corpo e de alma, por causa disso, viciado que está em gordura, açúcar e sal, de ódio, rancor e egoísmo?

Pobre, bastardo, eu não tinha futuro, mas me recusava a acreditar nisso e cheguei até aqui. E vou mais além.

Faço meus os versos de Valsema Rodrigues: “Eu – Rio que sou / Rio sozinho, às vezes doce, / às vezes nervoso, teimoso, / persistente… / Descendo vales e circulando montanhas / Enfrentando invernos e verões, / vem seguindo o destino / despoluindo e unindo povos / ao ritmar o cantarolar dos sonhos / no itinerário do viver… (…) Tentando alcançar o MAR/ que um dia, por certo, virá / marulhar e morar em mim! / Eu – Rio que sou.”

Que importa a infra-estrutura física, que drena o ouro de alguns, se o ser humano está esquecido na periferia do crescimento econômico? Que importa o crescimento do Produto Interno Bruto, se é bruto o interno produto da alma sem educação de qualidade e a felicidade da maioria da gente se esvai pelas mesmas artérias cobertas de asfalto, símbolo maior de um modo de vida que a todos escraviza?

Que importa esse tipo de riqueza, se todos somos pobres de liberdade, vigiados por olhos e ouvidos eletrônicos que nos tornam prisioneiros de nós mesmos e do próprio Estado controlado por uns poucos?

Agora, eu li Carlinhos de Oliveira…

PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA ELETRÔNICA WWW.SECULODIARIO.COM.BR

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