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ARAKEN AINDA SONHA AOS 75 ANOS

15 de agosto de 2011

Araken comigo no Centro de Alegre, quando foi participar do lançamento do livro "Caparaó - a primeira guerrilha contra a ditadura", em 2007

Reencontro, no Dia dos Pais, para dar-lhe um abraço, Araken Vaz Galvão, que completou 75 anos recentemente e recebeu amigos para a comemoração em Valença, na Bahia. Ara quem? Sim, Araken entrou para o Exército Brasileiro nos tempos de ebulição dos anos 50 e viveu o clima político que resultou na instalação do regime miliar em 1964.

Como fazia parte do Movimento dos Sargentos, a organização social que mais incomodava aos generais de direita, acabou incluído na lista dos defenestrados pelos novos donos do poder de mando na República do Brasil em 1964. Insurgiu-se, reagrupou-se com seus antigos companheiros de armas e foram para o confronto. Araken tornou-se subcomandante da Guerrilha do Caparaó, movimento de resistência que ousou dizer “não” ao regime militar e planejou enfrentá-lo a partir da região montanhosa na divisa do Espírito Santo com a Bahia, entre 1966 e 67, quando a guerrilha foi extinta com a prisão de seus líderes e agregados.

Pois bem, Araken continua sonhando com as transformações da sociedade. É membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia, onde participa de reuniões semanais, “trajado a rigor”, como atesta sua fiel Euzedir, capixaba de Vila Velha. “Eu sempre me vesti bem, e essa era uma bronca do Jelci (Jelci Rodrigues, outro subcomandante da guerrilha), que se achava bonito, mas só brilhou quando vestiu minha farda de gala (remissão a quando Jelci apareceu para discursar em uma das reuniões mais agitadas do Movimento dos Sargentos, no período anterior a 64)”, ironiza o sempre provocador ex-guerrilheiro, atual capitão da reserva do Exército Brasileiro.

Araken Vaz Galvão continua ativo aos 75 anos de idade. E agita, culturalmente, Valença, ao Sul de Salvador, mais conhecida porque é perto de Morro de São Paulo, amada pelos turistas. Criou uma Fundação Cultural com a indenização que recebeu há alguns anos como perseguido do regime militar, e nela inaugura uma galeria de artes no próximo dia 28.

Reencontrou um antigo companheiro de agitação cultural, Elísio Pitta, o primeiro negro a pisar o palco do Teatro Municipal de São Paulo na montagem de uma peça musical escrita por Araken quando morou na capital paulista antes de auto-asilar-se em Valença, depois dos anos de chumbo. Em companhia de Elísio, incentiva a dança em Valença, com o apoio do Governo do Estado. Em pesquisa de demanda por políticas culturais, a comunidade de seu município escolheu dança e já tem seus grupos, de balé clássico a manifestações afro. E Araken, que nunca foi muito fã do segmento, lá está a incentivá-lo.

Ademais, Araken passou a trabalhar em novo projeto numa das áreas que mais gosta: estudo da língua. E já escreveu 150 páginas do novo livro que pretende publicar: “O tupi nosso de cada dia”. Conversamos sobre o tema, e pelas histórias que ele me contou, a obra promete despertar muita curiosidade e interesse. Sugeri-lhe investigar a influência do tupi sobre a unidade linguística em nosso País continental.

Dentre outras coisas,  já descobriu, por exemplo, que Araken (nome do pai de Iracema, no romance do cearense José de Alencar) significa, em tupi, “pássaro que dorme”. Mas, no caso dele, é um pássaro que está bem acordado. Este é o Araken, eterno combatente das causas em que acredita. Vida longa ao guerrlheiro da cultura!

OBS:  Araken Vaz Galvão retifica que a fundação foi constituída com economias suas e de sua esposa Euzedir, professora aposentada. A indenização pela cassação após a instalação do regime militar ainda não saiu: há 10 anos a Justiça mandou a União pagar os atrasados aos militares cassados pela ditadura, mas até hoje Araken não recebeu o dele – virou precatório.

 

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3 Comentários leave one →
  1. Simone permalink
    15 de agosto de 2011 12:07

    Que resgate, Caldas!! Em pleno dia dos pais e você nos dando presente? rss

  2. 20 de agosto de 2011 7:45

    Caldas, obrigado por suas palavras amáveis. Você, em sua gentileza, não tem cura. Um pequeno reparo: Criamos, minha mulher e eu, uma fundação com nossas economias. E com muito esforço a estamos mantendo. Nunca recebi indenização. Espero, por mais de dez anos, por um precatório, fruto da decisão da justiça que mandou pagar-me os atrazados.

  3. 20 de agosto de 2011 7:48

    Atrasado é com S. Perdão.

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