Skip to content

“O TUPI NOSSO DE CADA DIA”, POR ARAKEN VAZ GALVÃO

19 de agosto de 2011

A partir desta edição, periodicamente, publicarei crônicas do eterno combatente Araken Vaz Galvão, que foi um dos guerrilheiros de Caparaó e hoje dedica-se à cultura em Valença, na Bahia. É um pesquisador irrequieto e está produzindo uma obra, que promete muito: “o tupi nosso de cada dia”.

Vamos acompanhar o que já tem o nosso Araken. A seguir, a introdução de suas crônicas.

 

Introdução

Morubixaba. Com uma longa digressão sobre esta palavra, começo a publicação das minhas crônicas relacionadas com o tupi e, ocasionalmente, com o guarani e outros idiomas americanos que lhe são próximos.

Antes, porém, dois esclarecimentos sobre esse meu atrevimento de publicar algo com o título de “Tupi Nosso de Cada Dia”. Não sou especialista neste idioma, sequer um estudioso. Com muita boa vontade, posso dizer que sou minimamente curioso. Ainda assim, ao longo destes últimos 20 anos, fui colecionando algumas palavras, de forma atabalhoada, primeiro por mero passatempo, depois por ver que muita coisa indígena era atribuída aos negros (jamais vi algo dos negros ser atribuída aos índios), e como sou partidário do princípio: “a César o que é de César” – e ninguém irá negar a grande contribuição que os negros deram (e dão diariamente) a nossa cultura – passei a empregar maior atenção aos termos desse belo idioma quase esquecido.

Porém, a gota d’água, por assim dizer, que me levou a esta publicação, foi ter conhecido, no Conselho Estadual de Cultura, da Bahia, uma índia tupinambá: Nádia Acauã, uma mulher que luta pelos direitos do seu povo; uma líder admirável sobre todos aspectos. Uma dessas pessoas simples e sensíveis que traz o Brasil nas veias, essas mesmas veias que foram sangradas através dos séculos. Acauã não exibe a arrogância visível em alguns membros de outras minorias étnicas, cuja cobrança pelos erros e injustiças históricas estão sempre a exigir que todos paguemos por um passado que não vivemos, que não concordamos e, tão-pouco, concordaríamos se nos fosse dado a oportunidade de manifestar-nos livremente, sem a ameaça de Leis impostas por uma elite hipócrita que finge buscar a igualdade entre pessoas social e economicamente desiguais, além de culturalmente diferentes, para melhor discriminá-las.

Conversando com Acauã – nome tribal que encarna o som onomatopaico emitido por uma ave(1), cujo costume de comer cobras fez com que os índios tivesse-na como protetora(2) – descobrimos que são imensas as dificuldades que ela e sua gente tupinambá enfrentam para conseguir material em tupi com o intuito de manter viva a cultura do seu povo. E desta constatação nasce o segundo dos dois esclarecimentos prometidos linhas acima. Essa série de crônicas – que um dia quiçá será publicado em folheto ou livro – é dedicada a ela, Nádia Acauã, ao seu povo e a todos aqueles que lutam, fraternamente e pensando no futuro, sem ódios rançosos, contra as injustiças do passado, as quais, por pertencer à História, não podem nem devem ser varridas para debaixo do tapete da contemporização e da falsa igualdade. Ademais, o passado histórico não pode ser julgado com os valores do presente.

Dito isso, podemos agora ver o significado do verbete a que dei início este texto: Morubixaba – que pode ser grafado também como morubixava, tubichá, tabicha, mburubichá –, representa a eloqüência, ou seja, é, pelo poder da palavra, o chefe, na acepção do homem branco. Vem a ser o Principal – como é chamado por alguns autores. E, para ser o principal deve “ser um bom orador”, pois a palavra reveste-se de fundamental importância entre os índios. “Cada um administra a si mesmo(3), em concórdia com sua família elementar, sua família grande e sua comunidade. Em princípio, são considerados Principais os representantes masculinos das famílias grandes; mas, na prática, o grupo é influenciado e, de certa forma, dirigido, em suas tomadas de decisão, pelos companheiros mais hábeis no domínio da palavra. A eloquência, como já foi dito, é considerada como a virtude básica para o surgimento e a afirmação de um autêntico Principal (ou líder, na nossa acepção)”. Mas, por respeito a quem o escuta, ninguém deve mal-gastar inutilmente o dom do Kaiuá. Kaiuá não gosta de tagarelice, admira apenas a fala direta e objetiva, nada mais desagradável aos seus ouvidos do que o blablablá (o nhenhenhém) inconseqüente.

Como será registrado oportunamente, fala e alma são a mesma coisa, daí a importância do seu domínio. A oratória é o objetivo supremo de quem deseja um posto eminente na consideração de seus concidadãos. Sampaio, entretanto, depois de dizer que CHABA ou CHANA, são palavras de significados idênticos, afirma: “ação de ver, vigilância, inspeção. Morubichaba seria, então, o inspetor da guerra ou aquele que vigia a guerra”, no sentido de dirigi-la, organizá-la. Cacique, entretanto, ao contrário do que muitos pensam, é uma palavra estranha ao idioma da maioria dos nossos índios, senão de todos. Este era o nome dos chefes dos mexicanos antes da conquista espanhola. Em guarani  e,conseqüentemente, em tupi, segundo os autores que consultei, não existia este termo, o correto seria, pois, morubixaba.

Tomando ainda como guia o livro de Lessa, como promessa de futuras incursões no mito da “Terra-sem-Males”,  registremos, porém – antes de uma citação que ele faz de Galeano(4) –, queo mais curioso e emblemático, sobre o mito da Terra-sem-Males é que na teogonia tupi (ao contrário do que ocorre nas religiões de outros povos ditos mais civilizados, como é o caso das religiões judaico-cristãs), o homem não veio de um paraíso perdido, de onde foi expulso por faltas abomináveis, razão pela qual vagará por “este vale de lágrimas” até encontrar a redenção – se a encontrar – depois da morte; o homem Tupi sai de um mundo de lutas e sacrifícios e vai em direção da Terra-sem-Males. Não é por acaso que na Terra-sem-Males que Galeano registra: “E não serão necessários o castigo e o perdão, porque não haverá proibição, nem culpa”. E Lessa(5) completa: “Esse, ao menos, é o ideal da Terra-sem-Males”.

Valença, BA, 7 de novembro de 2008

Araken Vaz Galvão

arakenvaz@gmail.com

http://arakenvaz.blogspot.com


(1) Segundo o Aurélio, “ave falconiforme, falconídea (Herpetotheres cachinnans)”, que habita vários países da América do Sul, em particular, o espaço compreendido entre o Panamá e a Argentina, “de coloração pardacenta mais escura no dorso e na cauda, esta com faixas claras transversais; tem o lado inferior branco, uma mancha clara circundando o pescoço, uma faixa negra em torno dos olhos, prolongando-se até a nuca, e o alto da cabeça branco”. Pode aparecer com os nomes de acaná, acanã, cauã, macaá, macaguã, macauã, nacauã, uacauã.

(2) Há uma “lenda amazônica que a Acauã se apodera do espírito das mulheres e as obriga a cantar com elas as três sílabas do seu nome” (Sampaio, pág. 191).

(3) LESSA, Barbosa, A Era de Aré – Raízes do Cone Sul, Ed. Globo, São Paulo, SP, 1993, pág. 66.

(4) “Nenhum outro pássaro, porém, o iguala no fulgor das penas; Quarahyava, cabelo-de-sol. É o beija-flor, o colibri. ‘Quando morre um menino guarani, ele lhe resgata a alma, que jaz no cálice de uma flor, e a leva, em seu longo bico
de agulha, até a Terra-sem-Males’.” (págs. 19 e 67).

(5) Idem, ibidem.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: