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A FARSA DO CRUZEIRO DO PICO DO ITABIRA

7 de outubro de 2011

O pico do Itabira (ao fundo) pode ser visto de vários pontos de Cachoeiro e é um símbolo da cidade

José Caldas da Costa

Em minhas andanças pelo interior, reencontro velhos amigos e trocamos gostosas gargalhadas acerca de episódios em nossas histórias. O mais recente desses reencontros foi em Cachoeiro de Itapemirim com o Toninho Miranda, misto de advogado, intelectual, agitadorcultural, jornalista e militante político em constante revisão de suas posições, como compete a qualquer ser humano, minimamente, sensato.

Almoçamos juntos no Shopping Sul, que ocupa parte da área, antigamente, da fábrica de calçados Itapoã, hoje apenas uma grife e oferece ao mercado, em lojas com sua marca, produtos fabricados por seus ex-funcionários, instalados em pequenas unidades industriais, quase artesanais, a maioria em fundos de quintal.

Tratamos de negócio, mas somente em 20% de nosso tempo. O restante ocupamo-nos em recordar histórias de mais de 30 anos de relacionamento. Toninho era o presidente da Casa do Estudante de Cachoeiro, onde eu almoçava quando trabalhei, com 16 anos, na sucursal Sul de A Tribuna com Paulo Garruth. Naquela época, Miranda fazia parte daquele grupo de jovens líderes estudantis filiados ao PCdoB, que acabara de sofrer um duro golpe na eliminação da guerrilha do Araguaia. E eu não tinha a menor noção do que era isso.

Reencontrar velhos amigos é uma rara experiência somente permitida a quem os cultiva como quem cultiva flores – tem que nutrir e regar todos os dias. E, quando surgem as ervas daninhas, adquirir a habilidade de removê-las com o mínimo de danos à planta que se quer preservar.

Compartilho, porque vale muito a pena, uma das histórias que Toninho me contou, sem pedir segredo. Aconteceu em 26 de junho de 1987, na Festa de Cachoeiro, quando ele era o secretário deCultura da administração de Roberto Valadão e colocou a cidade na rota cultural capixaba. Dentre os eventos promovidos na época, um marcou sobremaneira, por vários fatores: a iluminação do cruzeiro no alto do Pico do Itabira. Foi um evento épico, do qual se orgulhou, por muito tempo, Roberto Valadão até descobrir a verdade por trás do fato e não ter mais coragem, por foro íntimo, de continuar compartilhando a história por onde andava.

Surgiu a ideia de comemorar a “conquista” do Itabira, ocorrida por um grupo de alpinistas do Rio de Janeiro, em 1935, reacendendo o cruzeiro no alto da fálica montanha. Foi-se, então, à procura dos pioneiros, encontrados no Rio de Janeiro. Óbvio, aceitaram, prontamente, o convite para participar daquele momento histórico, em que as luzes do cruzeiro seriam acesas, por controle remoto, pelo prefeito e pelo então governador Max Mauro, direto da ponte que interliga as duas partes da cidade, às margens do rio que lhe empresta o nome.

Toninho, entusiasmado e criterioso, tomou todas as precauções para que nada falhasse e Roberto Valadão estava em estado de graça. Era uma festa da cidade com muita pompa, marcada por show do filho ilustre Roberto Carlos no estádio do Sumaré e, naquele momento único em que o cruzeiro voltaria a brilhar no alto do Itabira, pela participação de uma escola de samba do Rio de Janeiro, que havia homenageado o “rei” no desfile carnavalesco carioca daquele ano.

Na época, Toninho Miranda havia parado de beber, fosse porque a função que ocupava demandava sobriedade 24 horas por dia, fosse porque ele vira o que a bebida havia feito na vida de dois velhos amigos, Luiz Noventa e o próprio Garruth, os quais eu também conhecia bem e admirava.

Faltavam apenas duas horas para acender o cruzeiro quando a Escelsa avisou que não seria possível fazê-lo da forma como antes havia garantido fazer, por controle remoto, para imitar o gesto do papa que acendeu, do Vaticano, as luzes do Cristo Redentor no início do século passado, no Rio de Janeiro.

O coração de Toninho Miranda parou. Como falar isso com aqueles “alpinistas velhinhos” emocionados? Como frustrar o prefeito? Como frustrar o governador? Como falar aquilo para a multidão que já tomava conta da ponte e de todas as ruas de onde se era possível visualizar o cume do pico?

Toninho decidiu que aquele cruzeiro seria aceso, com ou sem controle remoto. Era preciso agir rápido, sem que ninguém mais soubesse do que estava de fato acontecendo – Roberto Valadão somente saberia muito tempo depois, em Brasília, quando falava com todo mundo sobre o fato e Miranda não aguentou mais suportar aquela, digamos, mentira e chamou o prefeito no canto para pedir-lhe que não mais falasse daquilo, contando-lhe toda a verdade.

Quando a Escelsa deu a má notícia, Toninho Miranda contou com seu prestativo motorista, quase sempre sob efeito de algum “suco de cana”, para agilizar as providências. De tal modo que, quando começou a contagem regressiva, transmitida ao vivo pela tradicional Rádio Difusora de Cachoeiro, e gravada pela emissora de televisão recém-instalada na cidade, o coração de Toninho parou por 10 segundos, o tempo de uma corrida de 100 metros rasos. Foram os 10 segundos mais longos da existência daquele coração comunista revisionista.

Quando o locutor falou “zero”, Toninho empurrou as mãos de Valadão e Max Mauro junto com a chave que acionava o controle remoto e a luz brilhou no cruzeiro, iluminando o alto do pico do Itabira, enquanto lágrimas desciam dos olhos dos velhinhos alpinistas pioneiros, cachoeirenses bairristas se abraçavam, Valadão e Max vibravam e o mestre da bateria da escola de samba, com uma garrafa de cachaça na mão, dizia: “C.., bicho, você é demais”. Toninho tomou-lhe a garrafa de cachaça da mão, quebrou seu voto de abstinência, e deu uma boa talagada para colocar o coração para funcionar de novo. Se não fosse assim, ele confessa, teria um infarto na hora

Muito tempo depois, ele estragou o conto de fadas de Valadão revelando-lhe em Brasília, cansado de ouvir uma história que não era bem assim, que na verdade o controle remoto não funcionou,que a chave de acioná-lo era de mentirinha e que, para não estragar tudo, quem acionou as luzes do cruzeiro no Itabira foi um alpinista que lá estava acompanhando a contagem regressiva pelas ondas da ZYL-9 Rádio Difusora Cachoeiro de Itapemirim, por onde brilharam Roberto Carlos, Newton Braga, JeceValadão e também as luzes do cruzeiro no alto do pico do Itabira.

Mas, vamos combinar uma coisa: não contem isso para os cachoeirenses antigos e apaixonados, como Darinho Cruz e José Lopes. Marcos de Alencar, nem pensar. E nem para o Doutor Hércules da Silveira, senão ele é capaz de aprovar uma moção de repúdio a esse colunista na Assembleia Legislativa. Na verdade, dizer que Papai Noel não existe é mesmo uma covardia com os mais puros sonhos e as mais sinceras fantasias infantis.

Desculpe, Toninho! Não resisti.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia pela Ufes. Este artigo foi publicado, originalmente, em sua coluna semanal, como colaborador, nna revista eletrônica www.seculodiario.com.br

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One Comment leave one →
  1. Samuel Almeida de Souza permalink
    23 de novembro de 2011 13:52

    Cara !!! Amei !!!!! Típico das Forças Especiais…

    Típico da Capital Secreta…

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