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ABRAÇA, COLOCA NO CHÃO E FINALIZA

23 de novembro de 2011

ENSAIO SOBRE EXPERIÊNCIA NO CURSO DE RECICLAGEM DE CONDUTORES DE VEÍCULOS AUTOMOTIVOS

Por força de atos cometidos porte rceiros, o que não justifica minha imprudência de permitir a utilização de meu nome, acabei dentro de um curso de reciclagem para recuperar a Carteira Nacional de Habilitação, suspensa por excesso de pontos, após longa pendenga com o Detran, que rejeitou todos os meus argumentos em contrário. Como o poder
está com eles, melhor cumprir as regras e resolver o problema.

No primeiro dia de aula, lembrei meus tempos de escolar e fui sentar-me no fundão. Em minha frente, um rapaz desses fortes, praticantes de artes marciais, e na sua camiseta a inscrição que me inspirou a tirar o máximo proveito dos seis dias que passaria cinco horas “atualizando-me” após 30 anos de habilitação: “Tá no inferno, abraça o capeta, bota no chão e finaliza”.

Então, aproveitei para ouvir, sim, as observações dos instrutores, mas, principalmente, observar os participantes. Primeira constatação: de 25 alunos, havia 22 motociclistas, punidos por não cumprir regras como usar capacete, levantar a viseira ou fazer manobras perigosas – exemplo: empinar a moto. Um motorista foi pego com álcool na veia e dois, dentre eles eu, com pontos demais na carteira.

Somente uma mulher dentre os alunos, uma motociclista. “Elas não estão aqui porque dirigem nossos carros”, brincavam os homens, para fugir da pecha de agressividade no trânsito e não reconhecer que a maior cautela feminina é reconhecida até pelas seguradoras, que dão a elas benefícios extras.

O curioso desses ambientes é a forma defensiva como os alunos chegam à sala de aula, obviamente, contrariados, mas, pouco a pouco, vão reconhecendo que ainda há muito a aprender em quesitos, principalmente, de novas regras e boas maneiras no trânsito. Um jovem motorista de caminhão, extremamente na defensiva, “quebrantou-se” ao final do período de curso.

Triste é verificar que, muito provavelmente, a afirmação de uma das instrutoras seja, absolutamente, verdadeira. Ao perguntar quem havia aprendido algo novo, todos levantaram as mãos. E quem, durante a semana, começou a perceber mais as falhas dos outros. Mais uma vez, todas as mãos levantadas. “Pois saibam que daqui a 30 dias a maioria de vocês voltará a cometer os mesmos erros que trouxeram vocês aqui”.

Afinal, então, para que servem os cursos de reciclagem de trânsito? Para punir ou para educar? Parece que a maioria entende que é para punir. E o pior é que tem mesmo esse conceito, o que leva ao baixo aproveitamento do aprendizado, a curto prazo. Então, logo a maioria estará de volta à sala, pagando mais uma série de reciclagem, e fazendo movimentar a máquina financeira por trás do sistema.

O que fazer, então? Sei lá. Para isso são eleitos nossos representantes políticos. De uma coisa eu sei: não quero voltar a estar na sala, seja justamente, seja não.

A propósito, quem me disser quesou mau motorista vai receber um brigueiro. Agora, sou “pós-graduado” em segurança no trânsito, legislação e boas maneiras. Coloquei no chão e finalizei. Fui.

José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@hotmail.com

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