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POVO COMUM NA POSSE DO NOVO PRESIDENTE DO TJES

15 de dezembro de 2011

Pedro Feu Rosa fez discurso de aproximação da Justiça com a população, prometendo por um fim à impunidade no Espírito Santo, e pediu desculpas pelas falhas do Judiciário (Foto: César Inácio Nunes)

Na primeira fila, nada de autoridades ou empresários de paletó e gravata, mas pessoas do povo, comuns, familiares de vítimas da violência que coloca o Espírito Santo como um dos estados de maior índice de homicídios do País há um bom tempo, terra dos crimes sem solução, embora pelos cantos se comente, a boca miúda, as suas autorias – geralmente, crimes de mando, executados por pistoleiros.

Durante a cerimônia, com mais de 500 pessoas ocupando o auditório do plenário do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, a quebra do protocolo na hora em que o novo presidente assumia. Do meio do povo, um cidadão comum gritou: “Desembargador Pedro, nós, evangélicos, abençoamos o senhor e sua administração em nome de Jesus”. Alguns disseram amém e alguns outros aplaudiram, enquanto o desembargador saldava, com um aceno de mão e um sinal de positivo, a manifestação.

Quando terminou a cerimônia, uma multidão de repórteres cercou o desembargador, que não recorreu a qualquer aparato de segurança ou de assessoria para organizar os profissionais de imprensa. Igualmente, não se importou com a multidão subindo à parte mais alta do plenário, misturando populares e autoridades disputando um abraço no novo presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Este foi o clima da mais surpreendente cerimônia da história da, quase sempre, sisuda Justiça capixaba. Quebrava-se um tabu: 15 de dezembro de 2011 foi o dia em que o povo “invadiu” o Tribunal de Justiça para dizer que ainda tem esperança. Aliás, o fato foi observado pelo presidente que saía, desembargador Manoel Rabelo, ao registrar que o TJ recebia o maior público de sua história, “demonstrando o prestígio do desembargador Pedro”.

Esperança e fé foram as palavras mais ouvidas na posse do novo presidente do TJES, também o mais jovem de sua história – 45 anos. Olhando nos olhos das mães, dos órfãos, das viúvas de crimes não solucionados da crônica capixaba, sentados na primeira fila do Tribunal. O discurso de Pedro Valls Feu Rosa foi interrompido várias vezes por aplausos, a partir do que chamou de seu “primeiro ato”, que foi pedir desculpas:

“Peço desculpas aos que, com fome e sede de justiça, nós não saciamos e não temos saciado. Curvo-me, neste momento, diante da memória daqueles que tombaram vítimas do crime organizado, deixando para os entes queridos a herança amarga daquela humilhação que a impunidade traz. São irmãos, esposas, filhos e pais que amargaram e amargam 20, 25, 30 anos de espera não por uma condenação, mas por uma resposta. Uma simples resposta que seja. Um sim ou um não.

Questionados, costumamos colocar a culpa nas leis ou nos advogados. Isto não é verdade. Não há Código de Processo, não há defesa neste mundo que possa atrasar um julgamento por décadas a fio! Não, aqui a culpa é nossa. Nossa culpa, nossa tão grande culpa.(…)

Peço desculpas aos torturados. Desculpas aos que foram devolvidos às ruas sem uma perna, sem as duas, paraplégicos, aleijados e, o pior de tudo, sem brilho nos olhos. Vivos estão, mas morreram para a vida. Será que já foram indenizados? Ou perambulam por aí, passando fome? A todos eles eu peço desculpas em nome do Poder Judiciário do Estado do Espírito Santo. (…)

Peço desculpas, sinceras desculpas e doídas desculpas, às mães de presos que receberam seus filhos de  volta esquartejados, embalado sem caixotes, vítimas de chacinas impunes praticadas sob os olhos do Estado. Quanto horror, meu Deus! Quanto horror! E, sim, eu sei: ninguém aqui é mau. Mas quanto mal foi feito! Quanta crueldade impune!”

 

Feu Rosa pediu, ainda, desculpas às crianças que morrem nas favelas, aos pobres e miseráveis, aos empresários que perdem suas empresas e aos chefes de famílias que perderam seus empregos, lamentando a morosidade no andamento dos processos que envolvem “uma corrupção e improbidade assassinas, porque praticadas às custas do sangue de tantos inocentes”.

 

Pediu desculpas “aos nossos semelhantes que foram esquecidos pelas prisões afora, sem processo ou julgamento”. Pessoalmente, disse ter encontrado um trancafiado há seis anos, mas o Conselho Nacional de Justiça encontrou outro há 11 anos preso sem julgamento. E questionou: “Será que foram indenizados ou vagam por aí passando fome?”

O novo presidente do TJ anunciou uma série de medidas a serem adotadas para enfrentar os problemas do Judiciário capixaba, dentre elas os painéis eletrônicos prestando contas à sociedade de crimes de pistolagem, corrupção, improbidade, violação dos direitos humanos, pedofilia, torturas, que começaram a funcionar imediatamente. E assinou convênios e protocolos de intenções com o Executivo, o Ministério Público e a OAB para atacar os problemas.

Feu Rosa quer, também, instalar em São Paulo, bairro da periferia de Vitória, a Vila da Justiça, para concentrar todos os fóruns num só local, a fim de facilitar o trabalho dos advogados e, simbolicamente, ficar mais perto da população mais carente da capital.

Ao final de seu discurso de quase uma hora, acompanhado com incomum interesse, foi aplaudido em pé pelo público que lotou o auditório do Pleno e, depois, abraçado por mais de uma hora, esperando, pacientemente, cada pessoa que com ele queria tirar foto ou deixar-lhe uma mensagem, enquanto no salão vip esperavam por ele. Mas Pedro Feu Rosa, o desembargador do povo, queria mais é ficar perto do “Zé Povinho”, como diria seu pai, Antonio Miguel Feu Rosa, que também foi desembargador e presidiu o TJ.

 

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