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TJES: A ESPERANÇA AINDA NÃO NAUFRAGOU

15 de dezembro de 2011

José Caldas da Costa, jornalista, escritor, licenciado em Geografia

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto” (Rui Barbosa)

Lembro-me bem daquele dia.

Nossa casa era muito pequena. Meu quarto só cabia a mim e a mais ninguém, a não ser, coladas na parede, as dezenas de pôsteres de times de futebol, um grande do Flamengo ao centro, como um astro-rei cercado de satélites; de meus artistas preferidos e de mulheres bonitas, todas em trajes comportados, indicando minha pudicícia (quando cheguei à universidade, descobri, e adorei, a palavra pudico), como a projetar meus sonhos de vencer a pobreza material que nos cercava e de conquistar reconhecimento por talento e mérito, não por favores.

Cheguei a casa com vários ovos numa sacola e minha mãe perguntou onde eu havia conseguido aquilo. Falei que tinha achado num ninho de galinha, no meio do pasto – e era verdade.

Como a casa era pequena, nossa área de lazer era a rua. Jogávamos bola com “traves” demarcadas com pedras, brincávamos de pique salva até altas horas nos períodos de férias, jogávamos bolinha de gude (se bem que nunca fui bom nisso, mas meu irmão Eduardo chegava com uma boleba e saía com cem), queimada mista, quando aproveitávamos para flertar com as meninas mais bonitas, e soltávamos papagaio nos pastos para evitar os fios da rede elétrica (hoje, tudo que levantam na ponta de uma linha é pipa, mas na minha época, em Alegre, havia diferença entre papagaio e pipa).

Em tempos de cheia do pequeno córrego Conceição, pendurávamos uma corda na árvore grossa cujos galhos pendiam sobre o leito barrento e saltávamos na correnteza, com um espetacular rodopio no ar, imitando os trapezistas dos circos mambembes que sempre passavam por Alegre, despertando nossos sentimentos de liberdade e de descoberta de novos mundos. Quero dizer, saltávamos, não; meus amigos saltavam, porque eu não tinha essas habilidades.

Essa turma era a que me influenciava. Este era meu meio. Meninos que brincavam soltos, que trabalhavam nas horas vagas engraxando sapatos, vendendo frutas, verduras e picolés para ganhar dinheiro honesto – mas que também “achavam” ninhos perdidos no meio do pasto.

“Volta lá e coloca no lugar…”
“Mas, mãe…”
“Volta lá e coloca esses ovos no lugar” (a essas alturas, a mangueira vermelha já estava à mão pronta para deixar um caminho nas nossas pernas, que somente água e sal eram capazes de atenuar. “O ninho está no pasto, mas a galinha tem dono. Os ovos são do dono da galinha”.

E foi assim que aprendi a não lançar mão do que era dos outros, mesmo se estivesse perdido no meio das pastagens. Todos os meus irmãos receberam o mesmo ensinamento, alguns deles com um pouco mais de rigor, sob a autoridade do “rei” pendurado no caibro da cozinha lá da roça. O rei era um chicote de umbigo seco e retorcido, de boi.

Hoje, compreendo que a virtude pode ser conquistada mais com diálogo e menos com o poder natural dos açoites de outras eras, mas há que ser apregoada.

Um dia ouvi nas aulas de Sociologia que o homem é produto do meio, mas logo contrapus, mentalmente, que não há meio sem o homem, que cria o meio onde vive. Algumas coisas chegam a ser engraçadas. Esbarro em nomes de alimentos de culturas italianas, mas navego fácil naqueles de culturas negras, meio no qual fui criado por força da origem de meu padrasto. Se o homem cria o meio, este é mais fruto daquele do que aquele é deste.

O Estado moderno regula as relações e os interesses de cidadãos oriundos de diferentes meios, criando uma base de convivência. As leis existem para isso, substituindo os umbigos de boi e os açoites do passado, mas há quem insista em burlá-las ou utilizá-las somente em benefício próprio.

O sistema republicano do Estado moderno comporta três instâncias de poder – Executivo, Legislativo e Judiciário. Em alguns momentos, essas esferas são assaltadas por malfeitores. Delas, o Judiciário sempre foi visto como o mais independente e uma espécie de tábua de salvação quando o cidadão sentia-se ultrajado em seus direitos, pelos seus semelhantes ou pelos outros poderes.

O juiz de Direito sempre foi um semideus, alguém de conduta ilibada, contra quem nada se assacava, homens de caráter irretocável. Conheci um assim, que presidiu a máxima Corte do Estado e terminou seus dias num pequeno apartamento de três quartos no Parque Moscoso, sem grandes posses e muito orgulho no peito: Sebastião Sobreira, que atacou o Esquadrão da Morte capixaba nos anos da ditadura militar.

De algum tempo para cá, entretanto, até mesmo os doutos magistrados foram atingidos pela mácula da corrupção inerente ao sistema capitalista, como costuma dizer meu amigo marxista Celso Lungaretti, deixando sobre a horda cidadã uma nuvem escura e tenebrosa. Tudo parece estar se perdendo, até o orgulho de ser do Judiciário – seus servidores passaram a ser olhados com suspeita pela sociedade, marginalizados até.

Nesta quinta-feira, dia 15 de dezembro, um dos quadros mais jovens e idealistas chega ao poder máximo dessa instância no Espírito Santo. Com ele – o desembargador Pedro Valls Feu Rosa -, o vento da esperança volta a soprar na terra de Maria Ortiz, trazendo a brisa da independência e da segurança jurídica por sobre os capixabas. Tem-se dito: se com ele o Judiciário não sair das páginas policiais, dificilmente terá uma nova chance.

Resta à sociedade abraçar a causa, porque é dela e por ela. É melhor ter um fio de esperança do que a esperança por um fio. A esperança ainda não naufragou, porque, no dia em que isso acontecer, a sociedade perderá seu bastião, a Justiça, e corremos o risco de voltar a viver na guerra de todos contra todos.

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