Skip to content

NATAL NO BERÇO DO ESPÍRITO SANTO

24 de dezembro de 2011

José Caldas da Costa

Movido pelo telefonema de uma amiga-quase-irmã, que lá estaria se apresentando, interrompi os preparativos de nosso Natal familiar para me dirigir à Prainha de Vila Velha para o concerto musical na noite de sexta-feira, 23 de dezembro. Fazia tempo que eu não dava ao período natalino a atenção deste ano. Acho que nada mudou, só eu mesmo mudei, como cantou Roberto Carlos – e, comigo, as circunstâncias que me fizeram valorizar, de novo, o espírito de época.

Tudo bem, andei um tempo endurecido pela fúria consumista do período, mas é possível viver o espírito de Natal do jeito que ele é; dá para manifestar amizade sincera, compartilhar a ceia, sem se desumanizar nas filas dos caixas das lojas dos shopping a criar uma tragédia financeira por todo o Ano Novo apenas para viver um jogo de aparências.

Estar na Prainha ao lado de meu amigo angolano Zakeu Zengo levou-me de volta ao mais puro espírito natalino, dos tempos em que, lá na roça, eu colocava o sapatinho na janela e me alegrava quando descobria que “Papai Noel” por lá passou e deixou uma canequinha de plástico azul para mim e uma vermelha para meu irmão. A gente sabia que, na verdade, o bom velhinho não tinha passado por lá, mas em nosso imaginário foi ele sim.

Tenho uma amiga que odeia Papai Noel, e talvez suas razões estejam na infância distante e sofrida. Quando criança, morria de medo do “bom velhinho”. “Odeio Papai Noel, esse velho f… da p…”, confidenciou-me ela há poucos dias, arrancando-me gargalhadas. Talvez o brasileiro Assis Valente também não tivesse qualquer apreço pelo personagem que tomou de assalto o espírito de Natal, a partir de uma boa intenção do Papa Nicolau.

Não fosse assim, e Assis não teria sido tão amargo ao compor “Boas Festas”, belamente interpretada pelo coral misto Santa Rita/Capela Milagrosa, na escadaria da Igreja do Rosário, na bucólica Prainha, onde nasceu não apenas Vila Velha, mas o próprio Espírito Santo – e a pequena igreja é dada hoje como a mais antiga do Brasil:

 

“Anoiteceu, o sino gemeu/ E a gente ficou feliz a rezar/Papai Noel, vê se você tem/ A felicidade pra você me dar/ Eu pensei que todo mundo/ Fosse filho de Papai Noel/ E assim felicidade/ eu pensei que fosse uma/ brincadeira de papel/ Faz tempo que eu pedi/ mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ ou então felicidade/ é brinquedo que não tem”.

 

E imaginar que Assis Valente nem chegou a viver os tempos em que a felicidade passou a ser, definitivamente, expressada pelo ter e não pelo ser. Assis morreu na sua terceira tentativa de suicídio, todas elas por causa de dívidas. Sentado num banco de rua, escreveu um bilhete de despedida e, pouco antes de ingerir formicida, deixou seu último verso para a posteridade: “Vou parar de escrever, pois já estou chorando de saudade de todos, e de tudo”. Hoje, quando os corais entoam, de forma belíssima, seu “Boas Festas”, poucos param para pensar no significado de sua poesia.

As duas praças da Prainha estavam iluminadas de um colorido especial e a brisa soprava do mar, depois do escaldante dia. Um pequeno, mas atencioso público, acompanhava a apresentação do início ao fim, intercalando coral, solos clássicos e balé, numa sincronia singela e terna, combinando com o ambiente bucólico. E o mais bacana de tudo: arte capixaba no palco da praça. Bonita, boa e barata, do jeito que tem que ser.

Terminada a apresentação, que me levou diversas vezes ao meu passado, da infância à fase da maturidade, trazendo-me recordações agradáveis para o espírito, fui ao encontro da Vânia, a nossa amiga, que me recepcionou com um caloroso abraço, bem ao gosto do momento.

Caminhamos passos suaves de volta para casa, eu e Zakeu, ao longo da Luciano das Neves, observando a arquitetura histórica e as pessoas sentadas, tranquilamente, nas calçadas a conversar, ou a caminhar calmas. Meu amigo observou como era larga a rua que percorríamos. Pelo menos naquela hora, em que os carros não a ocupavam em todos os espaços, empurrando-nos para calçadas estreitas. Quem dera se a vida corresse sempre assim! Feliz Natal.

 

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: