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2012: BR 101 URGENTE!

31 de dezembro de 2011

José Caldas da Costa

Estava voltando da visita de fim de ano à minha mãe de 88 anos de idade em Alegre quando encontrei o tráfego, totalmente, parado na BR 101 Sul, entre Alfredo Chaves e Guarapari. Dizem que dei sorte: fiquei “apenas” 20 minutos retido, sem qualquer informação sobre o que havia acontecido, enquanto no sentido contrário o tráfego fluía.

Algumas pessoas desciam dos carros e caminhavam em direção ao bloqueio para ver o que havia acontecido. Somente depois da liberação foi que percebemos que a coisa vinha de longe. Trafegamos em condições desfavoráveis por mais de50 km, em velocidade baixa, com tráfego intenso. Depois da entrada de Guarapari, vimos alguns carros parados ao lado da rodovia e pensávamos que poderia ter havido ali um engavetamento.

Somente na manhã de quarta-feira ficamos sabendo que tudo aquilo estava acontecendo por causa de mais um acidente fatal na rodovia da morte em que se transformou a BR 101, cujo trecho Sul eu sempre procurei evitar nos últimos anos por causa dos riscos do traçado e do intenso tráfego de automóveis e caminhões, cada vez mais longos, com “cavalos” puxando duas carretas. E, desta vez, o acidente chamou mais a atenção por envolver nossa miss Brasil Débora Lyra.

Quando vitima uma celebridade, a situação chama a atenção, mas muito mais gente está morrendo. Eu estava preparando esta coluna, por exemplo, quando chegou o jornal do dia com mais uma tragédia bem próximo ao mesmo local onde morreu a mãe do namorado da miss Brasil.

O grande questionamento é: quantas pessoas mais precisarão morrer? Quantos filhos precisarão ficar órfãos? Quantos viúvos e viúvas mais? Quantos pais e mães a chorarem seus filhos? Quantos mutilados mais? Quantos danos materiais e emocionais? Quantos sufocos mais? Quantos relatos de “livramentos”? Enfim, o que mais será preciso acontecer para que as autoridades deste País elejam a duplicação da BR 101 como prioridade no Espírito Santo?

Curioso é que durante muito tempo a gente preferia utilizar as rodovias federais às estaduais no Espírito Santo, por uma questão de estado de conservação. Ironicamente, a situação está se invertendo. Dou como exemplo o trecho da antiga rodovia federal, hoje estadualizada, a ES 482, entre o trevo de Castelo e Alegre, no Sul do Estado, levando à Região do Caparaó.

Aquela rodovia sempre foi símbolo de problema. Lembro-me que Evandro Moreira, no seu “Mensagem”, a chamava, no decênio de 70, como a “Estra(ga)da Alegre-Cachoeiro”. Mas hoje está o que chamamos de “tapete”, com pista de rolamento perfeita, sinalização, sonorizadores, obras de arte, equipamentos de segurança… alguns trechos estão apresentando problemas, mas se vê a rápida mobilização do órgão estadual incumbido de suas obras.

Não vou falar aqui do fenômeno do derretimento de encostas, como se fosse chocolate, principalmente na região serrana do Sul, porque isso demanda outras ações, inclusive preventivas, mas, sim, do trabalho de recuperação da rodovia, que leva, diariamente, milhares de alunos de municípios vizinhos para as faculdades de Alegre, bem como milhares de visitantes para o Festival de Música.

Diariamente, a ES 482, é via de transporte de centenas de pessoas em busca de tratamento médico em Cachoeiro e Vitória, a exemplo do que acontece em todo o Estado, porque a saúde no interior só funciona para curativos. Média complexidade já tem que deslocar o contribuinte para outros centros maiores.

Querem medir a intensidade disso? As lanchonetes de beira de estrada em Ibiraçu são o melhor termômetro dessa situação caótica, que aumenta o sofrimento de quem já tem que enfrentar a saúde precária. São pessoas que precisam de tratamento especializado de câncer, hemodiálise e outras moléstias.

E a maioria dessas pessoas, doentes, é submetida à roleta russa das rodovias federais, de Norte a Sul, de Leste a Oeste do Espírito Santo, porque, desde que foi desmantelado o esquema de corrupção da gestão republicana no DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura Terrestre), que bancou muitas campanhas políticas Brasil afora, parece estar havendo um boicote claro à manutenção das rodovias.

Há buracos por toda parte. Muitas vezes o motorista tem que optar entre a frente do caminhão no sentido oposto e o risco de estourar um pneu num dos milhares de buracos da pista. Fizeram um tapa-buraco no trevo de Guarapari para iludir os turistas. O trevo de João Neiva (interseção BRs 101 e 259) tem crateras lunares. A recuperação do trecho em São Gabriel de Baunilha, na BR 259, nunca acaba e suspeito de que as obras feitas já estão se perdendo como as obras do aeroporto de Vitória. Uma das pistas do viaduto da 259 próximo ao Sesi de Colatina está desabando.

Uma vergonha! Mais que isso, uma atitude criminosa, que deve levar à responsabilização criminal por cada morte que ocorre nessas rodovias. Quando há algum reparo, o melhor fiscal é a chuva: na primeira chuva, os remendos desmancham como calda de caramelo, revelando novas crateras, causando danos materiais aos donos de carros, que já pagam pesados impostos, e colocando em risco todos os que trafegam pela malha rodoviária federal, aqui e acolá.

Há gargalos em vários trechos. Os motoristas que trafegam pelo trecho Norte da BR 101 já se cansaram das retenções entre Serra-Sede e o posto da Polícia Rodoviária Federal e na travessia de Fundão. No trecho Sul, a chegada e a travessia de Iconha desafiam a inteligência do mais dunga dos contribuintes. O que estão esperando para fazer os contornos dessas cidades?

Se o negócio é privatizar, que privatizem logo, mas acabem com essa desfaçatez de permitir às concessionárias fazerem as obras com o seu, o meu, o nosso dinheiro, arrecadado em postos de pedágio antecipados. Quem opera no sistema tem que entender que todo empreendimento importa em riscos, dos quais as concessionárias de rodovias parecem estar livres, porque têm autorização para captar o nosso dinheiro. Ou seja, nós pagamos e eles lucram.

Depois disso, tenham um feliz 2012, desde que evitem as rodovias federais abandonadas depois de serem dutos de escoamento de dinheiro de corrupção eleitoral.

 

Publicado originalmente em http://www.seculodiario.com.br. José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

 

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