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AMOR E REVOLUÇÃO: PAPEL CUMPRIDO

13 de janeiro de 2012

"Amor e Revolução" ousou em abordar a ditadura militar brasileira e ao colocar um beijo gay, explícito, no ar

José Caldas da Costa, jornalista, autor de

“Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”

Sei muito bem que, no início, houve um certo preconceito com a novela “Amor e Revolução”. Chegou-se a dizer que a novela foi ao ar como parte de um suposto acordo entre Silvio Santos, dono do SBT, e a presidente Dilma Roussef, ex-combatente da ditadura, no conturbado caso do Banco Panamericano. Houve também deficiências técnicas, e eu mesmo aqui apontei algumas, houve críticas ao elenco, reações da caserna, incompreensões do pessoal da esquerda… mas, no final, acho que “Amor e Revolução” cumpriu o seu papel.

Acompanhei o início e o fim do folhetim. No meio, perdi um pouco o interesse, quando o autor parece ter se perdido um pouco no centro de um  bombardeio que a obra ficcional, baseada em fatos, sofreu de todos os lados. O início trouxe depoimentos dos que enfrentaram o regime militar, num estilo bem parecido com uma das novelas globais, mas que acabou abrindo também para que os defensores do governo militar se pronunciassem – e, embora o número de depoimentos da esquerda tenha sido, infinitamente, maior, o pessoal da esquerda achava que eles não deveriam falar.

Nos últimos dias, procurei estar atento ao final da novela, que centrou sua ação, principalmente, no período entre o golpe de 1964 e a dura época da repressão em 1970. Orgulho-me, particularmente, de ter contribuído para que um movimento esquecido por todos, a guerrilha do Caparaó, tenha merecido tamanha atenção, que parte da trama passou-se, ficticiamente, na serra do Caparaó, obviamente que sem locações lá, porque notou-se, flagrantemente, a falta de orçamento do projeto do SBT.

No período pré-lançamento de “Amor e Revolução”, fui consultado pela equipe do SBT sobre o movimento sobre o qual escrevi o livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” e pude indicar vários nomes para que eles tomassem os depoimentos. Óbvio, acabaram fazendo o mais econômico e não fizeram justiça a um dos principais personagens, Araken Vaz Galvão, que mora no interior da Bahia. Ele merecia ter dado seu depoimento, porque contundente, politizado e desengajado dos atuais movimentos políticos, mas totalmente comprometido com a cultura de sua gente e com uma visão histórica sempre atual.

O autor, Tiago Santiago, escolheu um final que levou da contraditória euforia brasileira com a conquista do tricampeonato mundial de futebol em 1970,quando mais duro era o regime, até a campanha das Diretas Já em 1984, tristemente abortada pelo senador capixaba Moacyr Dalla, que presidia o Congresso e não colocou em apreciação a emenda Dante de Oliveira, fazendo-se surdo aos clamores das ruas.

E, a partir da fuga de vários resistentes para o Exterior (o Chile, de Salvador Allende, era o principal destino deles na América do Sul), “Amor e Revolução” passeou pela história, passando pela morte de Vladimir Herzog em 1975, a lei da anistia em 1979, não deixando de lembrar que a lei anistiou também os torturadores, mas fazendo menção a leis internacionais que poderiam puni-los, e o atentado do Riocentro, quando uma bomba explodiu no colo dos representantes da direita explosiva.

O marinheiro que traiu seus antigos colegas, Cabo Anselmo, foi retratado pelo personagem ficcional Tenente Telmo, “que nem à sua companheira poupou” e acabou no exterior, fazendo uma plástica e ganhando documentos falsos novos, para viver normalmente no Brasil.

Quero ressaltar três momentos do último capítulo da novela, que se propõs, historicamente, a denunciar a ditadura militar brasileira: a cena de amor explícito dos guerrilheiros José e Maria, ao se reencontrarem no Chile, o quase beijo homossexual de duas jornalistas (que nem precisava, pois já havia ocorrido no meio da trama) e a fala do “Coronel Santos” e seu filho Jeová, o carcereiro boa gente, desejando que os torturadores do regime fossem punidos no futuro, profecia que jamais se cumprirá no Brasil do esquecimento e das acomodações. Coronel Santos representa a não hegemonia de pensamento das forças armadas na época da ditadura.

E, por fim, se soube que quem matou o delegado Aranha foi o psicopata do major Filinto, que acabou assassinado pelas suas duas ex-mulheres, duas de suas vítimas nos porões da ditadura.

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  1. Ana Carolina permalink
    30 de maio de 2012 22:25

    Eu particularmente acho que a novela foi boa, simples assim, boa, não tive a oportunidade de assistir pela televisão mas estou assistindo agora e estou terminando, se for comparado com as novelas da globo será apelação pois querendo ou não o elenco, o projeto, a preparação e o dinheiro tem muito mais prioridades que no sbt, portanto acho que essa novela mostrou que se o sbt se organizar melhor poderá futuramente ter uma novela que incomode o ibope das concorrentes, voltando a novela, concordo que erros foi o que não faltou, e o maior deles foi perder o enredo da ditadura e focar nos romances que em alguns casos não foram bem conduzidos, em muitos capítulos o que me prendeu foi a curiosidade sobre o final do romance entres as jornalistas pois pra mim a Luciana Vendramini foi a que melhor atuou em toda a produção, e admito que o inicio da novela foi surpreendentemente muito bom, imagine se essa novela fosse exibida com a qualidade que a rede globo produz suas novelas, seria um recorde de audiência que há muito tempo não se vê. Gostei muito da suas opinião sobre o folhetim.

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