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RETALHOS DO ESPÍRITO SANTO

30 de abril de 2012


José Caldas da Costa

 Ainda me lembro de uma de minhas primeiras e únicas aulas de História no antigo Nacional do Clube Vitória, no Parque Moscoso. Fiquei apenas um mês no cursinho, dois meses depois que cheguei do Alegre para trabalha n´A Tribuna e sonhava com o modelo que aprendi: fazer um curso superior, ter um bom emprego e mudar a minha história. Depois, descobri que as coisas não são bem assim, mas isso é conversa para outro momento.

Fato é que só pude pagar um mês de cursinho, tempo suficiente para encontrar o Juarez Campos, que era professor de Química e filho de dona Terezinha, uma dedicada professora do Alegre, e conhecer o professor Durval Soares, que viria a ser meu colega de crônica esportiva por muitos anos. Durval era professor de História e, confesso, a única coisa que aprendi em um mês de cursinho foi a versão do Durval sobre “porque o Espírito Santo não dá certo”.

O Brasil foi dividido em capitanias hereditárias, dizia ele, e a capitania do Espírito Santo coube a Vasco Fernandes Coutinho, um português devasso que “fumava, cheirava e dava, o que era dele e ninguém tem nada com isso”. A turma caiu na gargalhada, mas aprendeu que temos um problema de DNA em nossa história.

O tempo passou e esta semana, quando li as 201 páginas da decisão de um desembargador sobre denúncias do Ministério Público acerca da malversação de dinheiro público no Estado, fiquei estupefato e me lembrei de novo da aula do professor Durval. A decisão, documento maior do que a própria denúncia, é uma radiografia da corrupção no Espírito Santo e não sobra pedra sobre pedra. Da página 136 em diante, então, caem todas as máscaras.

Nota-se que o nosso Estado foi retalhado. Parece um ninho de cobras, onde em cada canto existe uma serpente chocando seus ovos. Teatro de horrores! Compreende-se, enfim, porque nossa população vive refém da insegurança. Quem devia dar exemplo, está de lama até a cabeça, apesar das aparências.

O velho Stenka Calado, jornalista dos tempos da imprensa composta de cidadãos vindos dos combates da vida e não frutos das elucubrações intelectuais acadêmicas, morreu sem ver descer o último pano. Talvez tenha sido melhor assim, camarada.

Como bem diz o texto do magistrado, ele ainda não sabe se são, totalmente, verdadeiros os relatos adicionais ao que já apurou o Ministério Público, mas são robustos os documentos de que dispõe e inseridos no inquérito que a Polícia Federal tem mais 30 dias para concluir. Ou seja, muitos mais que Lee Oswald deve vir por aí, com a força tarefa já prometida pelo Ministério da Justiça.

Amigos meus que me consultam sobre entrar na vida pública sempre escutam a mesma coisa: se você quer ficar rico, não entre. Dinheiro público é dinheiro dos outros. Se quer fazer reverência, faça com seu chapéu.

Infelizmente, a história é velha: municípios pequenos, com grandes arrecadações de royalties de petróleo, tornam-se paraísos de corrupção e manipulação das carências populares. No atual momento, em que o Espírito Santo luta para manter seus direitos sobre a exploração das novas reservas de nossos mares, essa gente presta um desserviço à causa que é de todos os capixabas.

No decênio de 50 do século passado, Rubem Braga já escreveu, sobre o abandono do Estado pelo governo central: queremos ser golfo. Ou seja, tirem o Espírito Santo do mapa. Mas parece que tem gente levando isso muito a sério! Será que é mesmo herança de Vasco Fernandes Coutinho?

***

Após a publicação desse artigo em minha coluna semanal no Século, recebi uma correção de um leitor. Para ele, as 201 páginas da decisão do desembargador não são uma radiografia, mas “uma tomografia da corrupção no Espírito Santo”. Faz sentido!

 

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia pela Ufes. Este artigo foi publicado, inicialmente, na revista eletrônica http://www.seculodiario.com.br

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