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GUERRA SUJA: REFLEXÕES SOBRE MEMÓRIAS DE EX-DELEGADO DO DOPS

16 de maio de 2012

Quando criança, a gente não percebe a real amplitude das coisas, mas sente que algo está errado. Também é, facilmente, influenciável pelas circunstâncias. Eu somente percebi que algo estava, realmente, errado quando cheguei para trabalhar na Redação d´A Tribuna em 1979 e encontrei um ambiente diferente daquele em que vivi em Alegre.

Em março daquele ano em que cheguei a Vitória, fiz loas ao regime militar ao escrever uma matéria especial sobre o fim das atividades do Santos de Barra de São Francisco. Chamei de “Revolução Democrática” o golpe militar de 1964 e levei uma dura, discreta, do João Luiz Casér, meu editor de esportes. Foi assim, pouco a pouco, que descobri que havia outra verdade por trás daquela que eu aprendi nos bancos escolares.

Essa outra verdade eu senti bem em dois atentados sofridos pelo jornal. Um, ganhou maior repercussão porque explodiram uma bomba nos arquivos de A Tribuna, numa época em que a direita explosiva estava em plena reação à anistia concedida pelo regime em 1979. O outro passou mais discreto, mas hoje não descarto nada: uma bala de grosso calibre atingiu minha cadeira na editoria de esportes. Por sorte, naquela época eu saía sempre um pouco mais cedo. Do contrário, talvez não estivesse aqui hoje.

Naqueles tempos, a redação era dirigida pelo paulista Sérgio Alves Ferreira, mas a superintendência do jornal era ocupada pelo coronel Edmar Eudoxio Telesca, que havia comandado o 38º BI, em Vila Velha. O Grupo João Santos tinha estreitas relações com o regime militar. Cordeiro de Farias, um dos golpistas de 64, ocupava uma diretoria na empresa. Era assim que a ditadura estendia seus tentáculos.

Lembro-me bem que o coronel Telesca, após o atentado a bomba, reuniu a Redação, que era repleta de gente de esquerda, e chorou diante de todo mundo. Cena rara. E por que chorou? Eram fortes os rumores de que gente da própria Redação havia colocado a bomba, mas Telesca assumiu o risco: “Eu tenho certeza de que não foi gente da Redação. Eu confio em vocês. Se for algum de vocês, eu peço demissão”.

Certamente, Telesca sabia do que falava. E hoje a sociedade capixaba também sabe, com as revelações do ex-delegado Cláudio Guerra no livro “Memórias de uma guerra suja”, que já estão mudando o rumo das percepções sobre o período militar no Brasil. Sabem quem presidia o Sindicato dos Jornalistas quando a bomba explodiu n´A Tribuna? Rogério Medeiros, um dos autores do livro-reportagem com Cláudio Guerra.

Hoje, por causa das revelações do ex-delegado, numa espécie de busca de perdão psíquico, sabemos que, possivelmente, Telesca, se não sabia, pelo menos sentia no ar de onde viera a bomba nos arquivos da Tribuna, na mesma época das bombas que explodiam em bancas de jornais de todo o País, no Conselho Federal da OAB e na lambança do Riocentro. O livro revela: Cláudio Guerra explodiu a bomba em A Tribuna.

É inevitável que eu me recorde de meus tempos de menino em Alegre, do sofrimento da família Cassa, principalmente, de dona Rita. As senhoras da cidade, e numa dessas vezes a minha mãe também estava lá, cercavam-na de solidariedade ante o seu sofrimento com o misterioso desaparecimento da filha Rita de Cássia, estudante de Medicina na UFES. Ritinha sumiu dentro de Alegre, no trajeto entre a casa de uma irmã, na Rua do Norte, e a casa da mãe, na Rua Sete de Setembro.

Se o corpo de Rita nunca apareceu, não custa especular que, quem sabe, ela possa ter sido incinerada nos fornos da usina de açúcar de Campos, conforme relato de Cláudio Guerra em relação à participação dele no jogo sujo, como delegado da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) e como agente do Serviço Nacional de Informação. Outro rapaz, que namorava uma moça de Alegre, também sumiu numa viagem para são Paulo. Nunca mais eles foram vistos.

Quando mergulhei nas pesquisas de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” tive que fazer exercícios mentais para manter o equilíbrio psíquico, a isenção e a motivação jornalística. Talvez eu seja um dos mais jovens autores de obras sobre a época da ditadura, porque elas, geralmente, estão associadas a quem viveu, intensamente, a história, como Cláudio Guerra, como agente da repressão, e Rogério Medeiros e Marcelo Netto, como jornalistas da época.

Detenho informações que dariam outro livro, se contasse seus bastidores. Mas é inevitável a conexão com a narrativa de Cláudio Guerra. Sobre Caparaó, a conexão está no planejamento do atentado a Leonel Brizola, que era mantenedor da guerrilha, a partir do Uruguai. O tema “financiamento” cubano para a guerrilha, bem como as suspeitas de que Brizola ficara com parte do dinheiro, era recorrente. Pois agora, se não esclarece, pelo menos o depoimento de Guerra lança mais um facho de luz sobre os fatos.

A ditadura plantou a notícia de que Brizola recebia dinheiro de Cuba para a guerrilha e desviava os recursos. Era o pano de fundo para o atentado que mataria Brizola no apartamento dele em Copacabana. O plano era matar Brizola e divulgar que ele havia sido “justiçado” pela própria esquerda por ter “roubado dinheiro da resistência”. E quantos outros “justiçamentos” não foram praticados da mesma forma pela própria direita explosiva? O tema do dinheiro de Cuba, e sua destinação, eu abordo em um capítulo inteiro de  “Caparaó…”.

Por fim, quero lembrar algo emblemático: Alegre, a cidade onde cresci, sempre foi tomada por políticos de direita. E um antro de espionagem, como principal cidade da Região do Caparaó. Depois que lancei o livro, ouvi de um oficial de alta patente da Polícia Militar do Espírito Santo que havia na cidade um praça da PM, que era agente do Serviço Nacional de Informações (SNI) e o único policial militar no Estado com autorização de ter uma empresa de distribuição de adubos para que pudesse percorrer toda a região do Caparaó, de forma insuspeita, “vendendo” adubo e, na verdade, espionando para o regime.

A casa desse policial era freqüentada, assiduamente, por agentes da ditadura, sempre preocupados com possíveis remanescentes da Guerrilha do Caparaó, que foi instalada em 1966 e debelada em 1967. Não foi sem motivos que Alegre sediou, a partir do início dos anos 70, o primeiro batalhão da Polícia Militar no Sul do Estado, apropriadamente, denominado “Sentinela do Caparaó”, a exemplo do batalhão da PM de Minas Gerais em Manhuaçu, que já existia nos anos 60 e para onde foram levados os guerrilheiros presos entre o final de março e início de abril na divisa dos dois Estados.

E imaginar que eu participava da diretoria da Casa do Estudante de Alegre, e editava o jornal “Tribuna Estudantil”, que publicou com destaque a morte de Juscelino Kubistschek em 1976, num acidente suspeito na Via Dutra, possivelmente vitimado pela mesma Operação Condor que matou tantos outros líderes latino-americanos, dentre eles, suspeita-se, o ex-presidente João Goulart, que se exilou no Uruguai após ser deposto em 1964. E era correspondente do jornal A Tribuna desde 1974, com 14 anos.

Mas naqueles tempos éramos ingênuos, como toda uma geração, cujo senso crítico foi mutilado pela propaganda da ditadura militar, enquanto monstros eram fabricados em seus porões. Cláudio Guerra, e todos os desvios que cometeu posteriormente, a exemplo de tantos outros, como o bicheiro Capitão Guimarães, é fruto do regime de exceção. A ditadura militar tirou o gênio da garrafa em 1964 e não soube colocá-lo de volta depois. A fratura foi exposta. A liberdade não tem preço e somente pode ser conquistada, democraticamente.

O depoimento de Cláudio Guerra ameaça o conceito de muita gente que esconde seu passado de contribuição com a guerra suja no Estado, enquanto usufrui das liberdades políticas e individuais conquistadas a sangue, suor e lágrimas por quem enfrentou o regime que eles defendiam. Gente que posa de democrata depois de usufruir da ditadura.

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