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GOVERNO FEDERAL QUER LEVAR O MUSEU DE SÃO MATEUS PARA SALVADOR

1 de setembro de 2012

O ministro Mercadante, da Educação, colocou esta condição para apoiar o AfricaBrasil. Maciel resiste, mas, sem apoio no Estado, pode aceitar.

Dez prédios foram adquiridos por Maciel ao longo de 30 anos e reformados no Porto de São Mateus. Somente dois estão prontos.

O Espírito Santo, enquanto investe milhões no Cais das Artes, pode perder uma obra pronta na área cultural, que colocaria o Estado como referência mundial e que não tem um tostão de financiamento público:  o AfricaBrasil Museu Intercontinental, construído ao longo de 47 anos com recursos próprios graças ao idealismo do jornalista, poeta e agitador Maciel de Aguiar, em São Mateus, no Norte do Estado.

O museu está pronto há um ano e meio para ser inaugurado, mas não é aberto ao público por falta de apoio. É o maior acervo do mundo em arte tribal africana, que inspirou o movimento cubista e a arte moderna, conforme admitiu, entre uma sangria e outra, o pintor basco Pablo Picasso, segundo o pesquisador capixaba.

Em recente visita a Brasília, Maciel foi levado pela deputada capixaba Rose de Freitas, vice-presidente da Câmara Federal, ao ministro Aloísio Mercadante, da Educação, que lhe fez uma proposta, mais do que irrecusável, mas indecorosa: condicionou o apoio do Governo Federal à transferência do museu para Salvador, na Bahia.

“Eu perco minha identidade, se fizer isso, mas, por outro lado, tudo o que ganhei na vida eu investi nesse museu, para socializar com a humanidade aquilo que ela produziu e me possibilitou aprender. O governador Renato Casagrande já visitou o museu, achou tudo muito bonito, mas nada de apoio. E abrir o museu tem um custo com o qual eu não conseguiria arcar. Se eu tiver que levar o museu para Salvador, vou colocar na conta do Governo do Estado”, alertou Maciel.

O prédio principal, com o acervo do Museu: pronto, mas há mais de um ano esperando apoio para abrir ao público

Figuras em tamanho natural para representar os 300 anos de história da escravatura no Norte do Espírito Santo

Uma ideia de gênios

Maciel de Aguiar conta 66 anos de idade e desde os 19 trabalha com essa ideia de montar um museu que conte a história de um povo que construiu não apenas a cidade, mas a região, ao longo de 300 anos da história da escravidão no Brasil.

Do convívio com gênios brasileiros como Darcy Ribeiro, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Miguel Arraes (do Espírito Santo, os grandes incentivadores foram Hermógenes Fonseca e Rogério Medeiros) firmou-se a convicção, não apenas de que o museu seria um legado à humanidade, mas teria que ficar em São Mateus por uma razão histórica, que poucos sabem: a história da escravidão no Brasil nasceu e morreu no Porto de São Mateus.

O primeiro navio a trazer uma carga de escravos para o Brasil foi a fragata portuguesa Costa dal Mar, em 1630, com um carregamento de negros angolanos para o dono de sesmaria José Trancoso. No meio deles, estava Zacimba Gaba, princesa africana de Cabinda, baía de Angola.

“Os historiadores angolanos achavam que ela foi para Salvador, mas ela veio para São Mateus, porque as terras do José Trancoso eram aqui, na sesmaria de Porto Seguro, que se estendia até o rio Doce”, assegura Maciel de Aguiar.

E o último navio a trazer escravos para o Brasil também chegou a São Mateus:  o Mary Smith, em 1856, apreendido pelo brig de guerra “Olinda”, da Marinha brasileira. A essas alturas, o mundo combatia o tráfico negreiro e a fragata há havia sido perseguida pelos ingleses em duas ocasiões, mas escapou, por ser muito rápida. Os 350 negros a bordo foram devolvidos à África.

“Nossa região tinha famílias escravocratas poderosas, os Abreu Sodré, Faria Lima, Santos Neves, que se projetaram no Rio, São Paulo, Paraná. Durante 21 anos, sem poder comprar escravos, eles criaram 16 fazendas de reprodução de gente, para produzirem mão de obra escrava, com empresas registradas em cartório. Isso perdurou até 28 de setembro de 1871, quando foi outorgada a Lei do Ventre Livre. Antes mesmo da proibição da compra, eles já reproduziam escravos. O museu tem vários cintos de castidade dessa época”, acentua Maciel.

O ÁfricaBrasil Museu Intercontinental está, desde o ano passado, concorrendo ao título Memória do Mundo,  criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e cujo resultado será anunciado neste mês de setembro. Ao longo de sua vida, Maciel escreveu 140 livros, um deles “Pelé: o Rei da Bola”, de repercussão internacional. Tudo o que ganhou na venda dos livros reinvestiu no museu, que , agora, o Espírito Santo corre o risco de perder.

Esculturas em fibra de vidro representam, em tamanho natural, várias pinturas de Rugendas e Debret, originalmente feitas a partir de 1823.

O Museu retrata a arte tribal de mais de 140 nações africanas. Começou a ser formado em 1965, com um pequeno intervalo durante os anos de chumbo da ditadura militar.  São 47 anos de pesquisa e mais de 30 anos de coleta de acervos. Algumas peças foram compradas, mas a grande maioria foi doada ou cedida em comodato.

Como fruto das pesquisas, Maciel produziu 40 livros com a história dos quilombolas da região de São Mateus. Em 2007, foi finalista do Prêmio Jabuti. Foi comprando e reformando prédios do velho e abandonado Porto de São Mateus. Dois estão prontos: o da secretaria do Museu e o do acervo. Nada no museu tem menos de 100 anos, e há peças com quase 500 anos, segundo Maciel, do século XVI até o início do século XX.

“Preciso reformar os outros prédios para expor o restante do acervo de 4.800 peças. O que há hoje é só um aperitivo de tudo o que há”, enfatiza Maciel.

Leia também: https://josecaldas.wordpress.com/2012/09/04/museu-africabrasil-ministro-da-educacao-manda-convocar-maciel-a-brasilia/

https://josecaldas.wordpress.com/2012/09/01/et-que-inspirou-spielberg-esta-no-espirito-santo/

José Caldas da Costa, jornalista, escritor de

“Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”,  

“Prêmio Vladmir Herzog 2007”

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8 Comentários leave one →
  1. Gabriela Corrêa permalink
    2 de setembro de 2012 18:33

    Vamos nos mobilizar meu povo!!! Não podemos deixar o ÁfricaBrasil Museu Intercontinental ser transferido para Salvador!!! Governador Renato Casagrande, tenha atitude!!!

  2. paulo henrique barreto permalink
    2 de setembro de 2012 19:18

    Como pode uma pessoa desta ter que pedir apoio ao governo do estado, Além do apoio era prá receber menção honrosa pelo trabalho desenvolvido. Com sua licença De Gaulle, mas esse não é um estado sério…

  3. 2 de setembro de 2012 23:52

    Jonas Lima Quirino(Composito e musico Banda Ato Público).Lamentável!Enquanto uns se desbravam fazendo de tudo para o êxito da memória histórica,autoridades Estatais fingem não ver a importância do processo.É como se não houvessem responsabilidades como o povo e com seu legado histórico!Triste,infelizmente se nada fizermos a cidade mateense fará jus ao codinome do”já teve”,que ao meu ver é pior do que quando dizemos “terá”.É responsabilidade do Estado efetivar direitos,e nos Mateenses temos o direito de valorizar a nossa cidade dando ao mundo este legado através dos implacáveis feitos deste grande visionários histórico e cultural Maciel de Aguiar.

  4. maria madalena queiroz permalink
    3 de setembro de 2012 11:55

    Sem dúvida, um movimento que toda a sociedade civil precisa iniciar imediatamente. São Mateus precisa e merece manter, conservar, preservar sua História. É inadimissível perder todo esse patrimônio histórico. Salvador já possui seu conjunto histórico e arquitetônico. Vamos nos mobilizar. Cadê a lista de assinaturas?

  5. Mirian Geraldino Franco permalink
    3 de setembro de 2012 15:26

    Estou aqui pra defender essa causa! Moro no Porto e sou Mateense de coração.
    Não podemos deixar que nossa cultura se perca!

  6. José hemerly permalink
    3 de setembro de 2012 19:02

    Não duvido que o museu acabe mesmo em Salvador. E talvez coloquem por lá uma estátua homenageando Maciel de Aguiar.

  7. 13 de setembro de 2012 10:16

    AMIGOS, SE PATRIMÔNIO MATERIAL NÃO TEM VALOR PARA POLÍTICOS BRASILEIROS, QUER DIRÁ O IMATERIAL..A CAPOEIRA, TEMA DO MUSEU, SOFRE!!!
    PROF. SIDRONIO SANTOS(CONTRA-MESTRE SID ZUMBI)PORTO -BRASIL

  8. jonas da conceiçao permalink
    1 de outubro de 2012 19:19

    Sou o ARTISTA priveligiado e contratado por MARCIEL DE AGUIAR amigo tao celebri escritor e pensante a causa negreira no brasil e no mundo inteiro , seria um grande ato libertador das nossas autoridades participar junto com nosso heroi , a manter o museu aqui no estado patrimonio da umanidade principalmete do ESPIRITO SANTO jonas da conceiçao

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