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Testemunho da saúde pública que funciona

6 de novembro de 2012

José Caldas da Costa

Iríamos passar o sábado em treinamento de empreendedorismo. Estávamos nos preparando quando o telefone tocou e, do outro lado, em prantos, a namorada de um sobrinho comunicava que meu irmão de 59 anos havia sofrido um AVC no amanhecer do dia e estavam “tentando” uma vaga de UTI para ele.

O que lhe passaria na cabeça uma hora dessas? Meu irmão, aposentado como metalúrgico, a exemplo de 95% dos brasileiros, não suporta, financeiramente, arcar com plano de saúde na idade em que está. Como mora em Cariacica, meu sobrinho o levou ao hospital mais próximo, o Meridional. Não sei quanto a vocês, mas na minha cabeça veio a informação que mais se ouve: Meu Deus, chegou à nossa família. Ele vai ficar no corredor? Vai minguar até morrer?

Quem de vocês, se tivesse um amigo médico, não ligaria para ele? Eu também liguei. Aliás, chega a ser uma crueldade. Como trabalham esses médicos!!! Liguei para Dr. Anphilófio, médico empreendedor, que conheci numa causa humanitária. Pedi desculpas, mas ele, como todo bom médico, é treinado para ouvir almas desesperadas.

Tranquilizou-me. Falou da boa qualidade do hospital Meridional e passou-me a segurança de que meu irmão teria toda a assistência da área pública. Apenas isso, nenhuma interferência. Logo, minha filha ligou para uma prima minha, também médica, que descansava da dura jornada, e as mesmas palavras. E orientações de praxe, tipo, sai de lá numa ambulância pública, etc, caminhos que os profissionais do setor conhecem bem.

Precisávamos ser solidários e, ao mesmo tempo, não deixar a vida parar, porque ela para quando quer, como estava acontecendo com meu irmão. Então, fomos para nosso treinamento de empreendedorismo e deixamos todos os celulares, educadamente, no vibra-call para acompanhar a situação.

Ainda surgiu um pico de tensão, quando o Meridional falou da necessidade de um medicamento de alto custo, que o médico meu amigo intuiu tratar-se de anticoagulante, e precisava de autorização para uso. Apenas falei com meu sobrinho e minha cunhada: Autorizem tudo. É direito dele. Se der problema, vamos à Justiça.

Tenho acompanhado o esforço dos magistrados em garantir, cautelar e meritoriamente, o direito à assistência à saúde a qualquer cidadão que encontre entraves no Estado, mas foi inevitável relembrar de uns 25 anos atrás, quando meu sogro foi internado num hospital conveniado de Colatina, que, graças a Deus, não existe mais, chegou andando e saiu em coma.

Quando, finalmente, transferi meu sogro, por minha conta e risco, para um hospital público da cidade, a médica me informou que ele tinha que ter tomado potássio e que seria, então, difícil salvá-lo, o que, de fato, mostrou-se impossível e ele veio a óbito na minha frente. E a lembrança foi de que, num hospital, privado e conveniado, não administraram o medicamento por ser caro, e no outro a médica consciente administrou, mas depois recebeu reprimenda do diretor do hospital, também um médico, por tê-lo feito. Ou seja, e o direito à vida?

Mas desta vez, parece que o funcionário do Meridional queria apenas se precaver. Meu sobrinho deu autorização verbal e, depois do pior ter passado, no primeiro “boletim” médico ouvi do acerto do procedimento.

Mas vamos continuar a história de um serviço público que funciona. Fomos monitorando por telefone e, no início da tarde, meu irmão saiu do Meridional, numa UTI Móvel da Prefeitura de Cariacica, transferido para o Hospital Central, onde já o esperava uma equipe médica para o procedimento cirúrgico necessário. Mais uma vez, monitorávamos pelas duas referências que tínhamos, meu amigo e minha prima, médicos. Ambos passaram-nos a maior segurança.

No final do dia, cumprido o compromisso profissional, dirigimo-nos, eu, minha esposa e uma filha para o Hospital Central. E que surpresa! No antigo São José, minha filha nasceu e meu filho mais velho foi operado de apendicite. Quanta diferença!

Naturalmente, estávamos ansiosos. Meu casal de sobrinhos e uma namorada dele estavam “de plantão” no corredor do Centro Cirúrgico. Sou partidário de que, uma vez nas mãos dos médicos, e de Deus, já não tenho mais nada a fazer na porta de um centro cirúrgico.

Meu comportamento padrão, com o qual minha mulher não concorda, mas respeita, é perguntar ao médico quanto tempo vai levar a cirurgia, entregar a equipe nas mãos de Deus e ir cuidar da vida até a hora de receber o resultado. Mas não reprovo quem acha que deva ficar lá esperando. Apenas penso que somente aumentamos a nossa e a tensão dos outros, quando ficamos por ali esperando.

Bem, quando chegamos, os meninos desceram. Estavam inseguros. Meu sobrinho me abraçou apertado e chorou em meu ombro, num desabafo. Senti que o quadro era mesmo grave, o que constatei quando subi para conversar com a enfermeira da equipe. Fiz uma prece de entrega, derramei dois fios de lágrimas, lembrei-me, rapidamente, de nosso convívio desde a infância pobre na roça em Alegre, de quando ele me apresentou a uma bola de futebol e foi paixão à primeira vista… nessas horas, nossa memória é pródiga em nos trazer, rapidamente, lembranças que pareciam apagadas.

Quando terminou a cirurgia de mais de cinco horas, todas as informações eram de sucesso, mas somente meia hora depois o cirurgião-chefe, Derval de Paula Pimentel, conseguiu vir falar-nos. E a forma clara que ele utilizou para dar as informações, combinado com aquilo que já havíamos visto e ouvido, e o ambiente do novo Hospital Central, deu-nos algumas certezas: meu irmão havia sofrido algo, extremamente, grave, havia batido na porta do céu pelo menos três vezes ao longo deste sábado, 3 de novembro, mas tudo que havia acontecido após o AVC era o melhor que um ser humano poderia desejar.

Desde o socorro rápido da família até o profissionalismo de todos que o atenderam, no Meridional, no serviço público municipal de Cariacica e no serviço público de saúde estadual, no Hospital Central, a capacidade técnica da equipe, a capacidade instrumental do hospital… tudo o que havia de melhor havia sido colocado à disposição dele.

E o melhor veio no final do relatório realista do médico. Como deixou dito Napoleon Hill, “toda adversidade traz a semente de uma vantagem equivalente”. Não apenas todo o atendimento fora perfeito, mas a própria reação orgânica e neurológica de meu irmão, numa escala de 1 a 10, merecia nota 11, como disse o mesmo médico que havia nos informado que, por três vezes, ele havia estado perto do óbito, dado à gravidade da ocorrência.

Ainda fiz uma última visita à UTI, ao lado de minha filha, e pude constatar a capacidade do serviço público estadual de atender a este tipo de necessidade. Depois, fomos todos para casa descansar, com a certeza de que o melhor havia e estava sendo feito. Claro, ele ainda não está livre de consequências, mas agora é com o organismo dele e com a soberania divina. E com paciência.

E por que contei tudo isso? Porque é muito fácil sair chutando os serviços públicos, demonizando-os. E é possível que muitas pessoas tenham tido experiências negativas e, quando as temos, externamos nossa revolta. É justo, porém, que testemunhemos os bons exemplos, porque sempre desconfio de uma “conspiração” da ganância de lucro contra o que é público e universal, o direito líquido e certo de todo cidadão ao retorno de suas contribuições impostas para a manutenção do Estado garantidor do equilíbrio social.

Por fim, mantenho minha fé em que nem tudo está perdido e a convicção de que a sociedade precisa se levantar para defender o que é seu, antes que as aves de rapina devorem o que ainda existe. E rogo a Deus todos os dias que abençoe aqueles que entendem sua missão e fazem o público com o seu melhor, em todas as áreas.

José Caldas da Costa é jornalista, autor de livro, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

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