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O que é isso, companheiro?

18 de novembro de 2012

José Caldas da Costa

Vira e mexe, alguém, saudosista de tempos recentes, que privilegiaram uma determinada casta social em detrimento de outra, manipulada o tempo inteiro por espertos ditadores, vem a público defender a tese de que o movimento militar de 1964 foi necessário para restabelecer a ordem e evitar que o Brasil caísse nas mãos da ditadura de esquerda. Ninguém defende mais o regime militar do que civis que se locupletaram naqueles tempos.
Nenhum historiador sério adota o “se” como premissa. “Se” não fosse assim, teria sido assado, como diz a minha mãe. Eu mesmo ensaiei algumas abordagens dessas, por curiosidade, quando entrevistei os militares que fizeram Caparaó, a primeira guerrilha contra a ditadura no Brasil, perguntando-lhes “se” tivesse sido ao contrário, o que aconteceria.
No recente seminário sobre Justiça de Transição, realizado aqui no Espírito Santo, o professor José Bittencourt, da Universidade de Brasília, fez uma abordagem cautelosa a esse respeito. Sempre salientando que a História não comporta o “se”, ele arriscou-se a dizer que, se não houvesse o golpe de 1964, o Brasil teria amadurecido sua democracia e poderia hoje ser um País com os mesmos avanços econômicos sem os retrocessos sociais.
Para o professor Bittencourt, as coisas têm uma clareza com a simplicidade evangélica: impossível imaginar que haveria uma radicalização para uma ditadura de esquerda quando quem estava no comando do País era um latifundiário gaúcho, João Goulart. O que, politicamente, se encaminhava era um projeto político nacional que passaria, fatalmente, pela nova eleição de Juscelino Kubtscheck em 1965 e o País construiria sua própria história.
O contexto geopolítico da guerra fria facilitou o projeto golpista construído na Escola Superior de Guerra, criada após a Segunda Guerra Mundial com o propósito de formar uma elite intelectual nacional. E foi essa elite que sustentou o projeto militar concebido pela Escola das Américas, onde estagiou a maioria dos oficiais de alta patente dos anos 60 e 70, criando vínculos com a geopolítica de controle político e econômico da maior potência do Ocidente.
O escândalo do mensalão apresentou-se como uma fratura exposta, cuja dor leva ao delírio muitas pessoas que acreditavam na utopia. O partido, que se apresentava como paladino da moralidade e apontava a “picaretagem” do Congresso Nacional, sucumbiu ao contexto. Seus órfãos, talvez por desespero, vêem golpe na condenação de seu ícone maior pelo Supremo Tribunal Federal. Lamentavelmente, quem pretendia fazer história enfrentando a ditadura acabou também por fazê-la pelo lado oposto, capitulando à corrupção do sistema político.
Um desses órfãos tentou argumentar comigo na última semana que “a história desses homens precisa ser respeitada”. Concordo, plenamente. Respeito o passado deles e abomino o presente. Também não os vejo como heróis de coisa nenhuma. Quando entrevistei os militares da guerrilha do Caparaó, eles me deram uma visão real do que aconteceu naquele período. Nenhum deles quis avocar para isso qualquer heroísmo. Fizemos o que tínhamos de fazer, como cidadãos dignos. Esta é a síntese que faço do que disseram a esse respeito, mesmo que com outras palavras.
Hoje, os antigos combatentes representam, no imaginário popular, a personificação do demônio da corrupção. Lamento, apenas, que os capetinhas que recebiam o dinheiro do mensalão estejam quietinhos em seu canto, morrendo de rir. Penso que esse processo, que está condenando os corruptores, deveria ganhar a dimensão da Operação Mãos Limpas italiana e fazer um arrastão com rede de malha fina. É hora de passar o Brasil a limpo e dizer, de forma bem clara, que precisamos ter mais dignidade em tudo o que fazemos, do mais graúdo ao mais humilde cidadão.
Gosto quando Norberto Bobbio, na sua “Teoria Geral da Política”, sintetiza a democracia como o “poder em público”. Estamos longe disso, uns 25 anos atrasados, mas é um sistema que se aperfeiçoa. Nesse ponto eu me arrisco a concordar com o professor Bittencourt para considerar que as contradições acentuadas pela renúncia de Jânio em 1961 faziam parte de nosso amadurecimento político e poderíamos, sim, ter construído uma democracia que vai muito além do direito de votar e ser votado.
A propósito, o que se viu nos últimos meses no Brasil jamais seria concebível em uma ditadura, da direita ou da esquerda. Ainda que a exposição da fratura sirva ao gozo das viúvas da ditadura militar e ao desespero dos órfãos da utopia, ela mostra bem que “o poder tem uma irresistível tendência a esconder-se” (Bobbio, idem).
Que ninguém se alegre sequer com a punição sentenciada pelo STF. Isso não orgulha a ninguém. Esses “culpados” fazem parte de um organismo chamado Nação, do qual somos todos partes. Como dizia o apóstolo Paulo, “quem está em pé, cuide para não cair”.
E mais: esses fatos não depõem contra o passado de resistência de seus personagens, mas contra seu comportamento político no poder. Igualmente, nada disso desmerece o esforço de brasileiros sinceros, imbuídos do propósito de restabelecer a conexão do Brasil com sua História.
Em tempo: “O que é isso, companheiro?” é o título do livro em que Fernando Gabeira conta o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em setembro de 1969, por um grupo de resistentes ao regime militar, que havia chegado ao seu endurecimento máximo com a edição do Ato Institucional nº 5. A ação resultou na libertação de 15 presos políticos, entre eles, o ex-líder estudantil José Dirceu de Oliveira, hoje condenado pela Suprema Corte como “chefe do mensalão” no Governo Lula.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

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