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Capixaba retrata o lado humano de Oscar Niemeyer

17 de dezembro de 2012

Em 2007, Oscar Niemeyer completou 100 anos. A euforia de chegar ao centenário despertou no arquiteto o desejo de ver retratado em um livro, sob um olhar poético, o que realmente vivera até então e os anseios sobre o futuro. A poucos meses do aniversário, Niemeyer recebeu a visita do amigo e escritor Maciel de Aguiar em seu escritório no Rio de Janeiro. Durante uma conversa descontraída, enquanto falavam sobre política e filosofia, o mestre fez um convite especial a Maciel: “Naquele dia, eu o senti agitado, porque alguém havia publicado uma biografia sobre ele, mas era uma obra sobre a relação dele com a arquitetura, algo muito técnico. Ele me falou que queria ler algo sobre sonhos, desejos, utopias. Disse que eu escreveria essa biografia e deixou claro o desejo por um capítulo apenas sobre as mulheres”, recorda Maciel de Aguiar.

O pedido de Niemeyer foi uma ordem para aquele que seria o primeiro biografista autorizado a elaborar 284 páginas recheadas de impressões sobre o amigo. “Na hora, disse que eu estaria à disposição dele”, conta o escritor capixaba. A ideia era apresentar às futuras gerações e ao mundo fossem as curvas do arquiteto mais emblemático do Brasil, por meio de Niemeyer— O gênio da arquitetura. A fim de cumprir as ambições do próprio biografado, a obra foi disponibilizada em sete idiomas: português, inglês, francês, espanhol, alemão, italiano e russo. “Darcy (Ribeiro) dizia que Oscar seria o único brasileiro a ser lembrado daqui a 500 anos. Eu digo mais: ele será lembrado daqui a 5 mil anos pela sua genialidade”, acredita Maciel.

O escritor afirma que o livro nasceu graças também às histórias relatadas pelo arquiteto ao longo do período de gestação da obra. “Foi basicamente escrito a quatro mãos, pelas minhas e as de Niemeyer, e em apenas 30 dias”, contou o biógrafo. Durante a célere fase de elaboração da biografia, originaram-se capítulos que, com textos breves e em forma de poesia, expressaram as impressões do arquiteto sobre a vida, as mulheres, o exílio e os movimentos políticos. “Ele nunca me falou sobre a morte. Era convicto de que viveria até os 110 anos”, revela Maciel.

Finalizada a obra — que, segundo o autor, trata-se de um livro de arte para se colocar na mesa e não na estante —, Niemeyer pediu a Maciel que lesse o texto em voz alta enquanto se acomodavam no sofá do escritório do arquiteto. Foi uma manhã inteira até a conclusão da leitura. “Ele não fez nem sequer uma ressalva”, diz o biografista. Naquele dia, 6 de abril de 2008, já com 100 anos, Niemeyer assinou um documento autorizando a publicação da obra, registrado em cartório de Copacabana.

Conte sobre o processo de elaboração do livro Niemeyer— o gênio da arquitetura?
Foram quatro semanas sem dormir. Eu ligava direto para o Oscar. Lia para ele determinados capítulos por telefone mesmo, já que eu moro no Espírito Santo. Escrevi alucinadamente. Ele deixou claro que não queria muito texto, desejava algo sintético e poético, que comovesse as pessoas. Incluí fotografias, desenhos dele, obras. Confesso que foi difícil acompanhar o raciocínio dele. Fiz uma parceria com o fotógrafo Kadu Niemeyer, neto dele. Consegui imagens do Arquivo Público do DF. Para fazer o texto, não li nada sobre o Niemeyer antes. Foram 30 anos de amizade, trata-se de um livro de emoção.

A obra foi concluída em apenas um mês?
Tive uma explosão de vontade que se juntou com a do Oscar. Estávamos entusiasmados, em um momento sublime, e o livro fluiu. O próprio Niemeyer me impregnou de uma força que não pude evitar. Foi um trabalho intenso, que fugiu do conceito de biografia. Eu fui apenas um intérprete-datilógrafo do livro, pois tive que interpretar os sonhos do Oscar.

Como conheceu Niemeyer?
Fui apresentado ao Oscar por Jorge Amado, em 1980, no escritório dele, no Rio de Janeiro. Eu estava na casa de Jorge, em Belfort Roxo, e ele me falou que iria visitar Oscar e pediu que eu fosse com ele. Chegando lá, nos conversamos. A política e os conceitos da vida, que compartilhávamos, nos uniu. Depois desse dia, sempre que ia ao Rio, eu o visitava. Ele também nunca deixava de participar das atividades que eu desenvolvia na minha cidade (São Mateus, no Espírito Santo). A nossa amizade surgiu do partido comunista.

A diferença de idade entre vocês era de 44 anos. Como se deu essa amizade?
Parecíamos que tínhamos a mesma idade. Às vezes, ele se sentia na minha idade. Oscar não demonstrava diferença quanto a isso. A não ser quando ele dizia que a vida dele tinha passado muito rápido. Ele queria ser Matusalém. Por tudo isso, e pela generosidade e gratidão que ele tinha por quem conhecia, a nossa amizade superava todas as relações que tive com as outras pessoas. Tenho certeza que para os amigos, ele continuará sempre presente.

Qual o momento mais marcante viveu ao lado de Niemeyer?
Um deles aconteceu em 2011, no episódio da prisão de José Rainha, líder do Movimento Sem-Terra, em 2011. Eu estava com ele, no escritório. Naquele momento, Oscar fez um discurso emocionante e incisivo em apoio à reforma agrária. Outro momento importante foi quando ele disse, na minha frente, que apoiaria a então candidata a presidente Dima Roussef. Ele foi até a um comício. Achei aquilo de uma coerência grande de vida.

Fonte: Correio Braziliense/DF

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