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Tim-Tim encontra a cachorra Baleia

17 de janeiro de 2013

José Caldas da Costa

 

Às 9 horas, ele acordou do mais profundo sono que havia dormido nos últimos dias, talvez exausto pelo sofrimento dos últimos dias. Na noite anterior, acordara às 4 da manhã e não deixara seu dono dormir mais. Estava ofegante, não achava lugar em nenhum lugar do quarto.

Ofegante, aliás, era seu estado natural dos últimos dias, como se buscasse ar onde não havia. Ao tomar água, parecia colocar no corpo um pouco do oxigênio que não conseguia mais colocar em seu frágil pulmão.

Se pensava que sua dona havia lhe abandonado nos últimos 45 dias, porque teve que se ausentar para trabalhar no interior e só aparecia nos fins de semana, o dono parecia-lhe cada vez mais próximo. Pegava lhe pelas ancas e colocava na garagem da casa para fazer as necessidades. Mostrava impaciência quando o encontrava sentado em cima da bosta ou deitado em cima do mijo, mas não negava-lhe atenção.

Escanteava as paredes desde a garagem até chegar à cozinha, onde havia ração e água fresca. Já não enxergava há meses. Mas, nos últimos dias, o caminho havia ficado muito mais longo e várias vezes se perdeu pelo meio, tendo que chamar o dono com gemidos e latidos, para conseguir ajuda para chegar ao seu canto, perto da água e da comida.

Nos últimos dias, havia sido levado várias vezes ao médico de sua especialidade. Da última vez, até um tranquilizante forte havia sido recomendado para ajudá-lo a dormir, mas o dono hesitava em administrar-lhe o medicamento, preferindo dar-lhe apenas as vitaminas e antiinflamatórios. Mas nada parecia fazer efeito, ultimamente. Sofriam todos.

Hoje o dia estava, especialmente, complicado. Desde que acordou, não sossegou. Demonstrou debilidade no caminhar, no defecar, no urinar. O pulmão parecia relutante e, quando transportado pelo dono, roncava como se buscasse ar, causando preocupação. O filho mais novo ajudava, a filha havia saído cedo e estava preocupada, o mais velho, que o levara ao doutor pela última vez, tinha viajado e era informado de seu infortúnio pelo telefone.

Numa tentativa de colocá-lo para tomar água, desequilibrou-se e, em vez de sentar-se, como das vezes anteriores, parecia dar um salto mortal para trás. Seus músculos já enrijeciam, os espasmos nas pernas dianteiras eram frequentes, e pareciam endurecidas. Como parecia sofrer. Numa dessas, o dono dirigiu-se a ele pela última vez: “Se você estiver querendo partir, saiba que vamos sentir sua falta, mas pode ir, não se preocupe. Vamos compreender”.

Foi colocado na varanda e, num espasmo, vomitou o último remédio. Ficou ali, enquanto o dono e o filho se ausentavam, por necessidade, e a vó olhava com piedade. Mais tarde, alertada pelo pai, a filha veio vê-lo, já chorando por saber que talvez estivesse presenciando seus últimos momentos. Queriam levá-lo ao doutor. Chegou e foi dizendo: “Oh, meu bebê…”

Naquele momento, a voz parecia-lhe uma canção. Uma brisa soprou de algum lugar, dando-lhe extrema serenidade, enquanto ele espreguiçava. Seus olhos pareciam de novo se abrir e podia ver vindo ao seu encontro uma linda cadelinha, com uma preá na boca, para recepcioná-lo. Havia uma grama verde como nunca havia visto antes, nem mesmo quando passeava com a família pelo interior. As flores brilhavam no canto, o sol brilhava, mas não queimava. Uma brisa soprava de algum lugar.

Logo reconheceu Baleia, a cachorrinha linda, que tanto havia sofrido em suas vidas secas. Quem sabe era a namorada que não conseguiu ter. Seu coraçãozinho animal bateu forte. A vida voltara-lhe de uma forma diferente. Baleia recebeu Tim-Tim naquele lugar lindo! Ela havia chegado ali muito antes que ele porque Fabiano, seu dono, apressou seu fim, atormentado com tanto sofrimento pelos caminhos do sertão do tio Graciliano.

Quis sentir saudades da dona, que não viu mais; do dono com quem dormira no quarto, os dois sozinhos nas últimas semanas; do filho mais velho, que havia sido seu companheiro na adolescência e a quem fazia companhia no quarto nos dias em que se isolava com raiva e o chamava: “Bora, Tiro… “ e ele o seguia. Quis sentir saudade do filho mais novo, a quem costumava querer morder, só de pirraça, mas que havia se tornado seu grande amigo; ou da vó, de quem gostava e respeitava; ou da filha, que viu derramar a última lágrima, que preferia não ter visto, antes de ver os campos verdes enfeitados por Baleia.

Mas logo distraiu-se e foi correr naqueles campos com Baleia, enquanto esperava cada um chegar também um dia, num tempo sem horas, para nunca mais se separarem.

Tim-Tim agora enxerga, ouve, suas pernas não mancam, sua coluna está ereta, seus pelos não caem e o ar já não lhe falta. Um rio de água fresca corre o tempo todo, à altura de ser alcançado quando quiser, já não sente mais dor, porque nesses campos floridos só existe alegria e uma brisa fresca soprando de algum lugar que não sabe onde, e nem quer saber, mas só quer viver – nem que seja na lembrança de sua familia de humanos, a quem tanto alegrou e que tão bem o cuidou. Agora, ele vive no Paraíso animal.

Quis pedir desculpas ao dono, por partir justo no dia de seu aniversário, mas sabia que não precisava. Os amigos não precisam de se desculpar. Ao longe, ouvia um coro de vozes lindas, enquanto animais de todas as espécies se alegravam naquele belo jardim, e uma música suave enchia seus ouvidos. Uma música que falava de algo que ele conhecera tão bem: Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar!!!
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