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REFLEXÕES: AMOR DE PAI

14 de maio de 2013

José Caldas da Costa

Faz tempo que sinto o desejo de falar sobre esse tema. Já pensei e até comecei a rascunhar um livro a respeito, mas talvez devesse, antes, me debruçar alguns anos sobre o estudo mais profundo da personalidade humana, além daquilo que fiz desde os 14 anos, quando entrei no meu quarto e chorei, em silêncio, uma tarde inteira porque sentia muita falta de um pai ao meu lado para me ajudar a enfrentar as crises da adolescência.

Fui visitar minha mãe, que está com 90 anos, no último final de semana em Alegre, e muitas lembranças voltaram-me. Essas lembranças se aguçaram quando comi um prato de arroz doce na casa de minha irmã Neusa, em frente do Monumento à Imigração Espanhola, na Praça Dona Palmira, que conhecíamos como “Praça da Maçonaria”.

Ao meu lado, dois sobrinhos, que são filhos de um irmão meu, mas não são sobrinhos sanguíneos da Neusa. Não tentem entender isso, porque é apenas uma mostra da imensa confusão familiar em que cresci, involuntariamente, com duas dezenas de irmãos sanguíneos, mais de quatro dezenas de irmãos, somados aqueles por afinidade, sendo filho único.

Provocar a reflexão sobre o amor de pai voltou mais forte quando li um artigo do médico e psicanalista Paulo Bonates, n´A Gazeta desta segunda-feira, dia 13 de maio, data comemorativa dos 125 anos da Lei Áurea, que tirou, legalmente, os negros (desculpem-me, afrodescendentes) do regime de escravidão no Brasil. No artigo “Em nome do pai”, Bonates destacou que “filhos de pais que se separam contêm um doce e complexo domínio materno. Eles são instrumentados e se transformam numa arma contra o pai”.

Falar em amor de pai talvez provoque reações diversas e algumas pessoas, equivocadamente, entendam como uma ofensa a algo divinizado pela cultura católica ocidental, o amor de mãe. Principalmente, a partir da adoção do dogma de Maria como “Mãe de Deus”.

Não cometerei a sandice que a sociedade contemporânea cometeu, no processo de valorização, legítima, da mulher. Para, legitimamente, valorizar a mulher, desconstruíram a figura do homem e, pior ainda, do pai. Em vez de nivelarem por cima, nivelaram por baixo. Uma geração inteira passou a ser bombardeada pela derrubada da referência de pai e mãe nas famílias.

Falo isso porque já estou numa idade em que não tenho tanta preocupação em ser politicamente correto. Aprendi que o que pensam de mim é problema de quem pensa e não meu. Então, como diria uma amiga minha, do Norte do País, “chupa essa castanha”.

Sou pai de três filhos e interferi, junto com minha esposa, companheira de jornada dos últimos 31 anos, na existência de pelo menos mais uma dezena de seres humanos impúberes, sem contar os adolescentes que aconselhamos em nossa comunidade de fé nos tempos em que tínhamos energia para acompanhá-los.
Mexer no dogma é “perigoso”, principalmente porque acabamos de homenagear as mães, mas talvez a própria psicanálise possa me explicar que a mãe ama sim, mas tem isso quase que como um dever fisiológico, por ter gerado e estabelecer relação umbilical com o filho. Torna-se uma situação quase possessiva – e em alguns casos o é.

Agora, qual é a situação do pai? Chegam a dizer que mãe só existe uma, pai pode ser qualquer um. Até me entender por gente, e fazer as minhas escolhas, ouvi minha mãe diminuindo o pai que eu conheci, o meu padrasto. E isso determinava meu padrão de aceitação, a ponto de não mais falar com ele durante um bom tempo. Essa tirania é exercida por muitas mães, até mesmo de forma inconsciente. E passa de mãe para filho e filha.

O amor de pai, por outro lado, é voluntário. Não sei se me entendem. Qual é a ligação do pai com o filho? Na cultura africana, contou-me um amigo africano e antropólogo, parente é o filho de sua irmã. Você sabe que ela é sua irmã porque foram gerados da mesma barriga. E sabe que o filho dela é seu parente porque foi gerado na barriga dela.

Não me entendam mal, por favor. Estamos refletindo como adultos e falando de culturas. Mas esta é uma realidade. É a confiança na companheira que leva o pai a estar convencido de que não é tico-tico criando filhote de godelo (que cresci conhecendo como “godero”, cuja fêmea coloca seus ovos no ninho dos tico-ticos, que os chocam e criam como sendo seus filhos, enquanto a godelo fêmea vai vadiar).

O pai ama voluntariamente. O que a sociedade não percebe é que está chocando o ovo da serpente e alguns desses répteis já estão por aí. Como arrematou o Paulo Bonates, “senão pelo pai, o que será deste filho ao confrontar-se algum dia com a lei, o justo, a realidade?”.

A figura paterna é tão importante que nem mesmo Freud conseguiu explicá-la, a não ser projetar sobre Deus uma rejeição pela falta de proteção e segurança que sentiu como criança. É o que explica a psicanalista Ana Maria Rizzuto:

“Em suma, nenhum dos adultos com os quais Freud precisou contar foram capazes de oferecer-lhe proteção e segurança. Eles falharam com Freud de uma maneira ou de outra. Meus estudos mostram que crianças precisam de modelos de confiança e figuras adultas para dar forma a uma representação de Deus que seja acreditável. Freud não teve essa experiência. Ele sentiu que tinha que tomar conta dele mesmo, sozinho. Para ele, em suas palavras, ‘não há nenhuma Providência’ para prestar atenção nele. Como cientista, ele acreditou apenas nos métodos científicos que implica que tudo que não é provado cientificamente não existe. Esse segundo fator contribuiu para consolidar sua descrença na existência divina”.

Já fiz coisas na vida que só mesmo pelos meus filhos as fiz. Proponho esta reflexão para que o amor de pai seja, devidamente, valorizado pela sociedade. E até mesmo daqueles pais que são verdadeiros tico-ticos, conscientemente. E trabalhemos pelo futuro, se o presente já não se pode salvar.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Contatos: caldasjornalista@gmail.com

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